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parece que foi ontem 3
Minha identidade quase secreta
REINALDO FIGUEIREDO
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Além do violão, me meti a tocar cavaquinho, banjo e viola caipira. Meus pais me davam força nessas loucuras. A música era uma coisa presente em casa, na vizinhança, no bairro. Era como comer e beber, um ato natural da vida.

Muita gente não sabe, mas por baixo da barba do Osaminha do Casseta & Planeta se esconde um perigoso contrabaixista internacional. E depois que a minha Al Qaeda particular, a Companhia Estadual de Jazz, participou em julho do Festival Internacional de Montreal, muita gente (três pessoas é muito, não?) tem perguntado como é esse meu negócio com a música.

Então vamos lá. Música. A primeira imagem que me vem à mente é uma imagem. Um imagem mesmo, de televisão, e em preto e branco. A imagem da bandinha do Altamiro Carrilho, que aparecia tocando num programa nos anos 50. Eu adorava ver e ouvir aquela bandinha. O que mais me chamava atenção era o cara de boina que tocava a tuba e, de vez em quando, dava um adeusinho para a câmera. Muitíssimas luas mais tarde descobri que o cidadão albino que tocava acor-deom na bandinha não era sempre a mesma pessoa. Às vezes era o acordeonista José Neto, e às vezes era o seu substituto, irmão e sósia, Hermeto Pascoal.

Depois começam a aparecer na memória outras imagens, capas de long-plays, os lps, de compactos simples e duplos. As imagens surgem sonorizadas. O compacto de Garota de Ipanema com Stan Getz e Astrud Gilberto, o lp Tempo Feliz, do Baden Powell e Mauricio Einhorn, um disco do Milton Banana Trio que tinha Nanã, do Moacir Santos. O lp Vibrações, do Jacob do Bandolim, o primeiro do Quarteto em Cy, que ouvi milhares de vezes só para prestar atenção nos arranjos do Eumir Deodato, que eu nem sabia que era o Eumir Deodato.

Depois aparecem capas de Jimi Hendrix, Beatles, Santana e Frank Zappa, além dos dois primeiros lps do Airto -Moreira lançados nos Estados Unidos. Em todos esses discos, o que me chamava atenção era a parte instrumental. Jimi Hendrix às vezes era bem jazzístico, Santana tinha o apoio de uma cozinha de percussão afro-caribenha. E o Frank -Zappa era uma colagem gigantesca de gêneros musicais, do clássico ao erudito contemporâneo, música concreta e eletrônica, passando por jazz e paródias de todo tipo de música pop. No caso dos Beatles, o que eu gostava era quando pintava um achado do tipo usar o som do instrumento indiano chamado sitar numa música como Norwegian wood. Não me ligava muito em letras. O meu negócio era mais o som, os instrumentos.

Alguns desses discos comprei num sistema de vaquinha, rachando a despesa com um vizinho, o Luiz Carlos. Outros eram emprestados por outro vizinho, um italiano, o Aldo, cujo pai estava sempre voltando da Europa com as últimas novidades. Isso era nos anos 60. Acho que comecei então a "arranhar um violão", ritual de iniciação quase obrigatório para todo brasileiro de classe média daquela época. Recebia aulas de graça, na base da camaradagem, de outro vizinho, o Mauro, que aprendia violão com o Luiz Roberto, o baixista do grupo Os Cariocas. Sem falar de outro vizinho, na mesma rua, o Ivan, que tinha um piano de cauda em casa. Tinha também um "piano de boca", aquele negócio que alguns chamam de escaleta ou melódica.

Além do violão, comprei e me meti a tocar cavaquinho, banjo e viola caipira. Meus pais, que sempre gostaram de música, me davam força nessas loucuras. Música era uma coisa presente em casa, na vizinhança, no bairro. Vivi cercado de música por todos os lados.

Outro dia li uma frase do Sidney Bechet, saxofonista da velha-guarda e um dos grandes nomes do jazz, que serve para o meu caso. Ele disse que em Nova Orleans "a música era uma coisa que você tinha que fazer todo dia logo que acordasse, era como comer e beber, era um ato natural da vida". Isso me lembra outra frase: Jacob do Bandolim falou que poderia tocar o choro Murmurando, do maestro Fon-Fon, todo dia, de quatro em quatro horas, como se fosse receita médica.

Eu poderia fazer a mesma coisa com Nanã, do Moacir Santos. Até porque, quando se toca num estilo jazzístico, a música nunca sai igual. Cada vez ela é outra coisa. Esse é um dos grandes prazeres de tocar música instrumental improvisada, ou jazz, ou "composição espontânea", ou que outro nome tenha essa música.

É o que eu mais gosto de fazer. Pegar o All blues, do Miles Davis, e tocar numa levada de bossa nova. Ou pegar o Trenzinho caipira, do Villa-Lobos, e misturar com Sossego, do Tim Maia. Ou tocar Chovendo na roseira, do Tom Jobim, com uma pitada de Jimi Hendrix.

Aproveito a digressão para retomar aquelas perguntas de sempre: o jazz morreu? O que é jazz? Para mim, jazz não é mais aquela coisa que se tocava em bares enfumaçados de Nova York - se bem que eu gostaria muito de ter estado em alguns desses bares nos anos 50 e 60. Hoje, jazz pode ser o Hamilton de Holanda tocando seu bandolim de dez cordas, o Paco de Lucía com o seu violão flamenco, o Carlos Malta com seu pífano, o percussionista indiano Zakir Hussain com a sua tabla, ou o libanês tocador de alaúde Rabih Abou-Khalil. Todos eles tocam com a mesma garra e espontaneidade de um John Coltrane ou um Dizzy Gillespie. É "o som da surpresa", como disse Whitney Balliett, um veterano crítico da New Yorker.

Com o mundo inteiro em intensa interatividade, isso só tende a aumentar. Aliás, a interatividade, essa palavrinha que não sai do noticiário, também ajuda a enxergar a música. Um grupo de jazz, ou coisa parecida, é uma experiência radical em matéria de interatividade: qualquer coisa que alguém do grupo toque - uma nota, um ritmo, uma dinâmica diferente - pode imediatamente provocar nos outros músicos reações que levam a outros

 

 
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