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parece que foi ontem 2
Meu faroeste particular
Imagens do desbravador Bernardo Sayão
SÉRGIO DE SÁ
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No meio da estrada em construção, o homem olha para cima. Botas, calça de algodão cáqui, relógio no pulso esquerdo, cinto de couro, camisa branca, algo no bolso: um lenço, uma caderneta ou a caixa dos óculos ray-ban. Ele aponta para o alto. Esse homem que pisa firme o chão morrerá derrubado por uma árvore. Não essa instável, talvez oscilante, que aparece na foto - uma outra. A cena em preto e branco, flagrante marcado em tom épico, era apenas a antessala do fim. A foto está emoldurada na sala da minha memória, o neto que observa sem entender.

Não conheci Bernardo Sayão pessoalmente. Assim, ele sempre me acompanhou apenas como imagem e narrativa. Ombros vastos, corpanzil, forte presença física, a personagem impressiona repetidas vezes. Tomado de entusiasmo, o escritor americano John dos Passos notou, entre outras qualidades, a sua "vigorosa agilidade" no andar. A jornalista Virginia Prewett o retratou como seu tipo inesquecível nas páginas das Seleções do Reader's Digest:

Ele não era descomunalmente alto (tinha 1,84 metro), mas a figura desempenada, o tórax largo e o gosto pelos empreendimentos grandiosos que irradiava de seu simpático rosto quadrado e olhos perspicazes davam-lhe um ar de gigante. 

Em 15 de janeiro de 1959, aos 57 anos de idade, Sayão morreu em um trecho maranhense da Belém-Brasília, no município de Açailândia, poucos dias e quilômetros antes de as duas frentes de trabalho se encontrarem. Morreu sem ver o sonho da Transbrasiliana rea-lizado. Na capital ainda a ser inaugu-rada, minha avó não permitiu que o caixão fosse aberto. Temia a dilaceração do corpo. Queria para si a imagem da virilidade.

Daí correr até hoje a lenda de que Bernardo Sayão não morreu, não. Aquele peso seria de pedra, para enganar o povo devoto. Os índios teriam arrastado o homem para as sombras da mata. Poderiam tê-lo comido, matando a fome de bravura. Na imaginação popular, também corria que casara com uma índia, e tinha sido visto com ela, peladão, pendurado num cipó. Foi assassinado, especulou-se. "O corpo de Sayão não cabia naquele caixão", rimou outro. Quebraram-lhe as pernas para encaixar naquele espaço exíguo, garantiu um terceiro, fantasioso.

Filho mais velho do segundo casamento de Sayão, o adolescente Fernando nunca viu índio algum nas aventuras empreendidas de braços dados com o pai. Muito menos dos que matam e jantam gente. Prestes a completar 17 anos, ele deveria ter embarcado naquela que seria a última viagem paterna rumo à floresta. Não havia, entretanto, lugar no pequeno avião da Força Aérea Brasileira. Não veria mais o pai vivo. Em 1994, passados 35 anos, seria o único da família a ver o pai morto. Na praça dos Pioneiros do Cemitério Campo da Esperança, o túmulo reservado ao corpo inaugural havia inundado. Boiava. O caixão precisava ser temporariamente removido. O corpo, exumado.

Mármore negro posto de lado, destravado o tampo do compartimento de zinco revestido de madeira, o que Fernando viu foi um cadáver intacto. Assustou-se, especialmente, com a visão dos pés descalços. Até os pelos da sobrancelha espessa estavam lá. Na cabeça, uma faixa amarrada sobre o corte aberto pelo galho da árvore amazônica que atingiu o crânio do "último bandeirante". A dúvida se foi. Meu avô havia sido embalsamado, lacrado, vedado, pressurizado.

Bernardo Sayão foi o impaciente diretor da Colônia Agrícola Nacional de Goiás que fez uma ponte de tonéis de diesel para cruzar o rio das Almas porque não aguentava mais esperar pela verba da construção oficial. Em texto publicado na revista Visão, com data de 6 de fevereiro de 1959, Antônio Callado recordaria o balançar inseguro na travessia noturna, feita ao lado de Sayão dez anos antes.

Na base do improviso, meu avô ganhou a simpatia do povo e, de lambuja, um processo por improbidade administrativa que lhe tirou um pouco da alegria. Foi um vice-governador de Goiás irritadiço com assessores, paletós, carimbos. Imagino que tenha desejado tomar outro rumo quando ouviu os rumores dos tanques avançando contra a democracia na Europa (mas trabalhou para o Estado Novo). Buscou o Norte eterno quando percebeu o fim da utopia na cidade que começou a abrir na marra, em 1956, no lugar onde fincou a primeira estaca de madeira.

Na infância, o homem de queixo proeminente, esse que nunca tive, cresceu em mim, e me olhava das fotografias com estradas como pano de fundo. An energetic road builder, chamou-lhe a revista Life numa edição de dezembro de 1948. Na reportagem, posteriormente adaptada para o livro O Brasil Desperta (lançado aqui no começo de 1964 e nunca reeditado), John dos Passos narra a espera pelo enérgico construtor de estradas. Quando ele finalmente surge, nota sua beleza e também que ele parece mais velho do que à primeira vista: tem rugas em torno dos olhos.

O autor da trilogia usa demonstra especial afeição pelo caráter desbravador de Sayão. E faz menção, mais de uma vez, à bela filha que o acompanha, de branco, no banco da frente do velho automóvel. Laís, futura senhora Hugo Gouthier, não poderia imaginar que aquela seria uma de suas primeiras aparições na imprensa internacional. Uma estreia sem nome, ao lado do pai, embaixador de um cenário de Velho Oeste.

O carioca da Tijuca Bernardo Sayão, primo da cantora lírica Bidu, arranca suspiros. Que homem era aquele a remar e ser campeão pelo Club de Regatas Botafogo, tendo os músculos à mostra? Que figura é essa que se delineia a espantar com simpatia os maus agouros? Primeiro encantou Lygia Mendes Pimentel, precocemente morta, em 1935. Era jovem viúvo de alta estirpe, com busto do pai, João de Carvalho, cravado na Central do Brasil, quando aceitou, em 1941, o convite de Getúlio Vargas para comandar a Colônia Agrícola de Goiás, no projeto que ficou conhecido como Marcha para o Oeste. Teve lábia suficiente para arrastar Hilda, urbana mas já fascinada, em direção ao nada que era o Planalto Central.

Hilda casou, foi para o interior com Sayão e com ele teve quatro

 
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