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MARYSIA WRÓBLEWSKA
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Marysia Wróblewska, de 22 anos, ou simplesmente Mária, assistiu ao filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, na sua Polônia natal, quando concluía o ensino médio. Ficou fissurada. Obrigou namorado, familiares e amigos a vê-lo mais de uma vez. Escolheu graduar-se pelo departamento luso-brasileiro da Universidade de Varsóvia. Passou nove meses num programa de intercâmbio universitário no Algarve, em Portugal.
E decidiu viajar até o Brasil para colher material para a sua tese de mestrado sobre o filme. Ficou um mês na cidade e aprendeu de cabeça o que é "miojinho"

RIO DE JANEIRO, DOMINGO, 21 DE JUNHO_Quando o avião desceu abaixo do nível das nuvens, fiquei olhando e olhando e olhando pela janela. Estava apavorada. Nunca tinha visto uma cidade tão grande. Parecia um mar de luzes, com as manchas negras das poucas colinas desabitadas. Comparado com Lisboa, o Rio não tem fim.

Venho de uma pequena localidade - 3 500 habitantes - a 45 minutos de trem de Varsóvia. É uma cidade-jardim inteiramente planejada (como Brasília), que nasceu há oitenta anos como refúgio de fim de semana para intelectuais da capital. Em Podkowa Lesna (cuja tradução seria Ferradura de Floresta) não existem edifícios, condomínios, nada disso. Há só casas particulares e vilas, cada uma com um jardim obrigatório de 1 500 metros quadrados. Adoro.

No Rio, a imensidão do espaço com alta concentração humana parece não ter fim. Onde está o subúrbio parecido com o que eu conheço - verde, com casas baixinhas, grandes jardins, floresta por todos os lados? Tive medo de sufocar. Na minha casa, não se ouvem carros na rua, apenas o concerto de grilos. Só vou a Varsóvia, que tem 2,5 milhões de habitantes, para festas, pois minha cidadezinha é muito rica em programas culturais.

No aeroporto, fui recepcionada por Mario Luis Grangeia, colega de faculdade e amigo da minha professora de português na universidade, a brasileira Ana Carolina Beltrão. Estava acertado que me hospedaria na casa dele, nas duas primeiras semanas, para ter alguém que me explicasse como as coisas funcionam no Rio, o que posso e o que não devo fazer. Na véspera da minha viagem eu tinha assistido ao filme Última Parada 174, inspirado no documentário Ônibus 174. A ideia de que poderia estar num ônibus assaltado me incomodou.

Quando entramos no prédio do Mario, no bairro do Catete, fiquei boquiaberta. O condomínio me pareceu um hotel de luxo. Tinha coffee shop, lugar para jogar sinuca, piscinas, minicinema, salão de festa infantil e, para adultos, campo de futebol e de basquete, salão da beleza, biblioteca, sala de reuniões! O que mais me impressionou foi o espaço para bandas de garagem, com instrumentos disponíveis para qualquer um que quiser tocar. Impressionante como facilitam a vida aqui, pensei. 

Cheguei bastante cansada do voo, com as pernas inchadas. Mario, formado em comunicação e mestrando em sociologia, trabalha no Ministério Público Federal. Ele tentou entender o que eu pretendia fazer no Brasil e se pôs a telefonar para seus amigos. Em meia hora conseguiu combinar acho que dois ou três encontros com professores, me deu uma lista completa de nomes de pessoas que eu deveria procurar e me apresentou à caipirinha. Adorei a caipirinha, mas beber depois de dez horas no avião é a pior coisa do mundo. 

 

22 DE JUNHO_Meus primeiros sustos:

Supermercado - há carrinhos abandonados por toda parte, tudo meio improvisado. Na fila, ninguém parece ter pressa. O funcionário que está no caixa passa os produtos enquanto conversa com todo mundo. Quando acaba o scanning, outro funcionário põe as mercadorias em sacolas de plástico. Mas se não há ninguém para ensacar as compras, a garota do caixa faz isso sozinha (mas eu também tenho mãos!).

Ruas - os ônibus parecem máquinas da morte. Em vez de dirigir dentro das faixas, o motorista faz o percurso na forma da letra S. Há poucas possibilidades de atravessar a rua sem correr.

Pão - só de fôrma ou inchado com ar? Depois descobri croissants integrais com ricota, queijo minas, espinafre...

Maravilhas do dia:

Mercados de frutas e verduras. A maioria não conheço. É fruta, pergunto? É, é! Pode acreditar! - todo o mundo ri. O abacate tem tamanho de melão. Na Polônia, tem o tamanho de uma laranja, se tanto.

Largo do Machado - de manhã à noite, cheio de gente, na maioria idosos, que jogam de tudo: cartas, dominó, xadrez. Só vi algo parecido em Sarajevo. Na Polônia, como na maior parte do ano faz frio, não há esse tipo de contato. As pessoas se encontram em casa, num café, no restaurante. A rua é apenas para andar, não para sentar. Nos parques há bancos, mas não há mesas.

 

23 DE JUNHO_Fui à Universidade do Estado* do Rio de Janeiro, com a qual a minha universidade tinha acertado um intercâmbio, a partir de março de 2009. Mas a greve na Uerj parece ter dificultado o diálogo, que nunca mais foi retomado. Quando cheguei lá, a secretaria estava fechada. Passei cinco horas tentando encontrar material de estudo nas suas várias bibliotecas. Achei o interior do prédio meio escuro. Os corredores sem fim pareciam uma prisão. 

Mario me ajuda muito - onde ir, a quem escrever pedindo um encontro. À noite, fomos encontrar amigos dele, todos muito simpáticos. Perguntaram sobre as minhas primeiras impressões. Todo o mundo quer ajudar, é incrível. Se preocupam. Quando preciso de alguma informação, a pessoa faz bem mais do que responder. Ela deixa o que está fazendo e me acompanha até o lugar, explica como tudo funciona e ainda acrescenta: "Qualquer problema, me busca, me pergunta, me liga." Agem como se acreditassem nos princípios da ética de Kant. Tratam o outro como um fim, nunca como um meio. Gosto disso. 

Durante a noitada, todos se puseram a comentar animadamente as novelas e um programa de humor que faz troça de figuras públicas. Mais tarde,

 

 
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