Ao que tudo indica os senadores Marina Silva e Flávio Arns levaram ao pé da letra a frase deste mês e obedeceram prontamente ao comando de Lima Barreto: "Mudemos o uniforme; e já". Aloizio Mercadante até "twittou", mas se enrolou com os botões. Dos 72 participantes, a vencedora foi a gaúcha Maurem Kayna Lima Alves, de Guaíba, cujo personagem não conseguiu chegar a tempo de compreender a sua realidade.
TRÂNSITO_Maurem Kayna Lima Alves
Eu deveria ter trazido o impermeável. Agora tenho de ouvir esse sujeito com mania de pai fazendo gracejos enquanto veste a capa: "Mudemos o uniforme; e já! Senão vamos nos resfriar, hein!?" Uns riem, outros passam reto. Eu apenas rezo para conseguir terminar as entregas antes do aguaceiro, chegar cedo em casa e arrumar a bagunça antes de a Paula chegar.
Muitos sinais fechados, e justamente hoje que não estou interessado nas cenas do trânsito. Tenho pressa, quero fugir do mau tempo e organizar a casa para Paula. Geralmente gosto de ver a reação das pessoas quando se percebem observadas - alguns tentam disfarçar, outros ignoram e seguem no ritmo de antes e já houve até um senhor que baixou o vidro para dirigir a mim os xingamentos antes trocados com a mulher a seu lado. Mas hoje não quero dissecar retalhos da privacidade alheia, me bastaria escapar da chuva.
O sinal logo vai mandar parar, reduzo e obedeço. A faixa de pedestre está vazia, como a calçada, nada para assistir além dos carros na transversal. Do meu lado, uma camionete importada dirigida por um sujeito que fala ao telefone e fecha a passagem da moça do carro branco.
Ela, sem xingamentos, desviou, acelerou e seguiu adiante enquanto o amarelo permitia. Nós ficamos.
Sem intenção de fazê-lo, alcanço o carro dela no semáforo seguinte.
A moça usava óculos escuros e grandes, elegante, mas séria demais.
Talvez mais triste que séria - estava chorando. Vi quando levantou os óculos para secar as lágrimas. Não estava com a maquiagem borrada porque não usava nenhuma.
Qual seria o motivo do choro? Aquele jeito quieto de deixar os olhos transbordarem parecia doer mais que os rompantes lacrimosos da Paulinha. Talvez porque ela chorasse mais por razões pequenas; quando era caso sério, ficava muda. Mas essa moça não tinha expressão de desespero ou luto. Apenas não continha as lágrimas, e elas rolavam, grossas. Não mordia o canto do lábio nem franzia a testa.
O verde acende, mas já chegou a chuva e ainda faltam duas quadras para fazer a última entrega. Desânimo com a aula da noite, talvez eu falte novamente. E agora, vencida a tarefa, lamento a distância do carro branco, já impossível de distinguir no engarrafamento que vai se formando.
Em casa, tiro a roupa molhada e planejo movimentos eficientes para colocar a roupa na máquina, estender as cobertas na cama, lavar a louça.
Enquanto isso, o pensamento mistura a mulher do choro quieto e a surpresa que imagino em Paulinha quando encontrar tudo arrumado.
Mas percebo que já está tudo em ordem. Nem as revistas em cima do sofá desmentem a organização e isso me faz acordar dos devaneios da tarde, fingindo não ser inútil a correria para chegar mais cedo.
Desabo no sofá, junto com as revistas que não tive vontade de ler, pensando no guarda-roupa, agora tão espaçoso sem as roupas dela. O peito se encolhe com a ausência sem avisos.
Fiquei pensando: se a cena da moça chorando no trânsito tivesse acontecido antes, eu teria entendido algum gesto da Paulinha, antes que ele se formasse, antes de o limite dela ter virado malas fechadas?
§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§
Para a edição comemorativa do terceiro aniversário da piauí, a redação dispensa velas, bolo e parabéns. Queremos frases encaixadas, embrulhadas e enlaçadas com esmero para presente. A frase a ser ofertada abre a coletânea de crônicas A Descoberta do Mundo, de Clarice Lispector: Não posso. Não posso pensar na cena que visualizei e que é real.
Os textos deverão ter até 3.160 caracteres (com espaços), ser enviados até segunda-feira, 21 de setembro, em .DOC ou .TXT para o e-mail: encaixe@revistapiaui.com.br, com nome e sobrenome do autor, cidade e estado de procedência.
