Faltam dez minutos para o início do treino, marcado para as 16 horas no Centro de Treinamento Rei Pelé, em Santos. É a quarta-feira que antecede o segundo jogo da decisão do Campeonato Paulista contra o Corinthians. Um pequeno grupo de atletas se organiza em duplas no gramado para disputas de futevôlei. Edinho entra quando uma dupla é eliminada. Não fosse pelo uniforme azul, padrão da comissão técnica, Edinho poderia ser confundido com um dos atletas, que vestem branco. Ex-goleiro, ele demonstra habilidade incomum com os pés. A disputa é acirrada. No ponto derradeiro, o parceiro escora e Edinho, fulminante, corta de cabeça e faz o ponto. Os derrotados bufam e Edinho vibra.
Edson Cholbi do Nascimento, o Edinho, começou como auxiliar do preparador de goleiros do Santos em fevereiro de 2007 e virou auxiliar técnico do time dois anos depois. Sonha em chegar a ser treinador. O que mais chama a atenção nele é seu desprendimento entre os jogadores. Parece um deles. Até pela forma física: mantém o mesmo peso de quando jogava, 82 quilos, e não aparenta já ter chegado aos 38 anos. Na gíria do futebol, é um "cavalo": forte e competitivo.
O técnico Vagner Mancini divide os atletas em quatro grupos de seis. Como só há 23 atletas disponíveis, Edinho é chamado para completar um sexteto falho. Não compromete a qualidade do jogo. Corre, chuta, divide, orienta, grita. Transpirando, me explica que, dos três auxiliares de Mancini, só ele mesmo mantém o vigor físico necessário para encarar aquele tipo de coletivo, realizado em campo reduzido.
Edinho diz que o futebol entrou na sua vida por decisão sua, e não como herança da cadeia genética que teria começado com o avô, Dondinho, que teve a carreira profissional precocemente interrompida por uma lesão. "Muita gente imagina: 'Ah, lógico, o Edinho jogava porque o pai dele foi jogador'", ele disse. "Mas o meu avô foi jogador, meus três tios foram jogadores, meu pai foi jogador, todos os homens da minha família foram jogadores."
Edinho não tem lembranças do pai com a mítica camisa 10 do Santos. Ele se mudou com a família para os Estados Unidos aos 4 anos, em 1974, quando o pai assinou contrato com o Cosmos. Assim, é com a camisa verde-esmeralda da equipe americana que Edinho guarda as únicas lembranças de Pelé como jogador profissional.
Edinho começou a jogar futebol na escola, por volta dos 6 anos de idade. "Era o esporte que eu conhecia", justificou. Mas quase nunca havia jogo. As crianças limitavam-se a correr desordenadamente em busca da bola. Era como se Edinho, que jogava na linha, fosse o único com alguma noção do esporte, e os demais não passassem de café com leite. O futebol - ou, no caso, o soccer - era pouquíssimo jogado nos Estados Unidos. A ida de Pelé para o Cosmos servia, justamente, como um primeiro esforço de divulgação, no país, do esporte mais popular do mundo. Sem ter com quem jogar, Edinho pendurou as chuteiras por mais de dez anos.
Dentro de casa, naqueles primeiros anos nos Estados Unidos, as coisas também não iam nada bem. Se não chegavam a ser recorrentes, os desentendimentos entre Pelé e a mulher, Rosemeri, deixaram marcas nos filhos, Edinho e Kelly Cristina, a primogênita. "Lembro de umas poucas discussões, porque ele geralmente chegava depois que a gente já tinha ido dormir", disse Edinho. "Aí ela ficava meio chateada, ele ficava meio sumido."
O casal já saíra atritado do Brasil e os conflitos não se resolveram no novo país. A separação, que viria em 1978 - ano em que nasceu a caçula do casal, Jennifer -, não foi nada amigável. Mas hoje Rosemeri e Pelé têm um bom relacionamento. Se quando os pais estavam juntos a presença de Pelé era rara em casa, a partir da separação o distanciamento se aprofundou. Perguntei a Edinho qual a lembrança mais forte que ele guarda do pai na infância. Ele respondeu "saudades" e fez uma longa pausa antes de completar: "Quando lembro a minha infância e penso no meu pai, geralmente eu estava com saudades dele."
Edinho e Kelly ficaram com a mãe e se mudaram para uma nova casa, em Nova York, porque Rosemeri queria lhes proporcionar uma formação americana. "A oportunidade de conhecer outras culturas, de desenvolver a tolerância por outras religiões e nacionalidades é importante para um jovem", ela me explicou. Quando se separou de Pelé, Rosemeri passou por outros grandes problemas. Perdeu o pai na mesma época, e não pôde sequer vir para o enterro porque estava com o visto de permanência prestes a vencer e ficou com receio de não poder voltar logo aos Estados Unidos para cuidar dos filhos. Pouco depois, também perdeu a mãe e, de novo, teve de cumprir o luto a distância. "Não há como medir o débito que eu e minhas irmãs temos com ela, por ter sacrificado a vida dela por nós", disse Edinho. "Minha mãe também ganha presente de Dia dos Pais."
Tudo isso acabou sendo importante para que Edinho desenvolvesse precocemente o senso de independência. Kelly Cristina lembrou que, nos primeiros dias no colégio americano, o irmão, meio assustado, fugia para a sala dela toda vez que podia. Mas acha que ele não teve maiores dificuldades para se adaptar e fazer amizades: "O Edinho é muito carismático, as pessoas gostam dele rapidinho." Ele teve uma infância e adolescência de uma pessoa comum, sem deslumbramento. "Por isso também sou tão grato à minha mãe: se tivesse sido criado no Brasil, ou em qualquer outro país, eu sempre seria o 'filho do Rei', e sofreria os preconceitos que ainda sofro - mas hoje sei assimilar", disse Edinho.
Aos 13 anos, se deu conta de que, sozinho, podia arrumar o dinheirinho de que precisava para levar as meninas ao cinema. Quando queria um novo par de tênis, calculava quantas semanas teria de trabalhar para consegui-lo. Fez entregas de pizza e vendeu revistas