Estadão.com.br
   
  Página anterior Versão para impressão


 Assine piauí
vultos da República
Mares nunca dantes navegados
A trajetória de Dilma Rousseff da prisão ao poder - e como ela se tornou a candidata do presidente Lula à sua sucessão
LUIZ MAKLOUF CARVALHO
A- A+Tamanho da letra
 

Depois da cadeia

 

Quando Dilma Rousseff era ministra das Minas e Energia, perguntei-lhe em que condições de saúde deixara a prisão. "Ninguém sai disso sem marcas", respondeu em um gabinete da sede da Presidência da República em São Paulo. Foram três anos de cadeia: de janeiro de 1970, quando foi capturada no centro de São Paulo, ao final de 1972, quando saiu, 10 quilos mais magra, do Presídio Tiradentes. Estava com cerca de 57 quilos, usava manequim 42, tinha 25 anos, e a ditadura que a prendera e torturara, nove.

Uma das marcas à qual a ministra se referiu foi uma disfunção na tireóide, glândula no pescoço cuja principal função é a produção e armazenamento de dois hormônios que auxiliam a regular a taxa do metabolismo e afetam outros órgãos. "Um ano depois que saí da cadeia, a minha tireóide estava completamente detonada", contou. "Foi a forma como o meu organismo reagiu a tudo aquilo. Desenvolvi um hipertiroidismo [produção excessiva de hormônios] e depois um hipo [o contrário]. Foi uma somatização. Mas me tratei e fiquei boa."

No final do mês passado, um dia depois da última sessão de quimioterapia para  evitar a volta de um câncer linfático, Dilma Rousseff tinha certeza de que ficaria boa. "Estou felicíssima", ela me disse. "Primeiro, porque foi a última aplicação. Em segundo, porque em 14 de julho se encerra o ciclo de 21 dias durante o qual o organismo elimina os produtos tóxicos. Então, no dia 14 de julho vou estar sem o menor traço de consequências da doença."

A ministra acha que a quimioterapia, que ela pensava que pudesse ser "muito desagradável", não chegou a tanto. Para ela, o mais difícil foi perder o cabelo. "Mas não foi tanto assim. Perdi cabelo em vários locais, e preferi raspar tudo para não ficar caindo aos poucos", disse. "E teve um efeito gratificante: é bom sentir a água escorrendo direto na cabeça." A ministra riu e completou: "Você não pode deixar de procurar as coisas boas. E o cabelo vai crescer, vai voltar."

Além da quimioterapia, a ministra fez acupuntura, melhorou a alimentação e manteve as caminhadas, apesar de, nos dias em que esteve mais frágil, "andar a passo de elefantinho", conforme disse. "Eu caminhava uma hora, e agora depende. Se é logo depois da quimio, ando 40 mi-nutos, e depois vou para 45; o máximo a que chego são 50 minutos. Isso foi bom porque mantive uma pressão ótima." De bom -humor, ela reclamou dos fotógrafos: "De manhã cedo, você há de convir, você não está caminhando do jeito mais bonito. Você está com aquela cara de horror. E os fotógrafos fazendo téc para lá e para cá. O meu cachorro, o Nego, está traumatizado. Eu não vivo sem cachorro."

Ao sair da prisão, em 1972, ela passou uma temporada em Minas, onde fora se recuperar com a família, passou pela casa de uma tia em São Paulo e se mudou para uma casa na avenida Copacabana, à beira do rio Guaíba, em Porto Alegre. Era a residência de seus sogros - Afrânio Araújo, advogado trabalhista e comunista de velha cepa, e sua esposa Marieta. A moradia provisória do namorado de Dilma, Carlos Franklin de Araújo, ex-dirigente da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, podia ser vista da varanda da casa: o presídio da ilha das Pedras Brancas, onde ele cumpria seu terceiro ano de pena.

Ela trocou o uai pelo tchê para estar próxima de Araújo, a quem chama carinhosamente de "Gordo". Os meses que passaram no Presídio Tiradentes - com alguns encontros íntimos e muitas trocas secretas de bilhetes - apontavam um futuro para o romance. Um futuro mais calmo do que o ano em que namoraram durante a perigosa agitação da clandestinidade, com a cabeça a prêmio.

Dilma visitou Araújo na ilha. O garoto Leandro, filho do seu primeiro casamento, também. Na mesma agradável varanda às margens do Guaíba, Araújo recordou: "Ela levava comida, cigarro, muitos jornais. Falávamos sobre a nossa vida afetiva, do filho que queríamos ter e do nosso futuro político, sobre como e onde retomar a militância. Não tinha visita íntima não, mas a gente sempre dava um jeitinho."

Deputado estadual por São Paulo, Rui Falcão, dirigente do Partido dos Trabalhadores, passou quase três anos no presídio da ilha. "A Dilma nos enchia de informação, era simpática, solidária e muito carinhosa", lembrou. Também estava lá Raul Pont, velho parceiro do Presídio Tiradentes. "Ela levava livros políticos disfarçados de romances", contou o ex-prefeito de Porto Alegre e hoje deputado estadual do pt no Rio Grande.

Araújo mora sozinho. Levanta às três da manhã, trabalha de madrugada, faz exercícios, chega ao escritório às cinco e meia. Costuma passar no escritório aos sábados e domingos. Volta e meia tem problemas com um enfisema pulmonar diagnosticado nos anos 90. E, às vezes, como em maio passado, tem que passar uns dias no hospital. Nas crises mais sérias, a ministra pega um avião em Brasília para visitá-lo.

No meio da tarde, a empregada veio perguntar se ele queria algo especial para o jantar. Não queria. O freezer estava abastecido com cervejas e, de quando em quando, ele pegava uma garrafa. Contou que foi dos últimos presos a sair da ilha, quando a cadeia foi desativada. Cumpriu o resto de pena no Presídio Central, onde Dilma o visitava duas vezes por semana.

 Em junho de 1974, Afrânio Araújo morreu de infarto. O filho teve autorização para ir ao enterro - com escolta e vigilância - e receber, com Dilma, as condolências do mundo jurídico gaúcho. Por conta do prestígio de Afrânio, a cadeia já não era tão rigorosa. E, com a sua morte, amigos juristas pressionaram para que fossem resolvidas rapidamente as pendências processuais que mantinham Carlos Araújo no Presídio Central. Uma semana depois ele foi solto. 

Araújo e Dilma haviam combinado morar num apartamento que ela já havia alugado, mas acabaram ficando na casa à beira

 

 
Achados & Imperdíveis Só no site

Download

Seu computador precisa dos papéis de parede e dos descansos de tela da piauí. Baixe aqui o seu!



Complete sua coleção



O uso não autorizado de qualquer material incluído neste site pode constituir uma violação das leis de direitos autorais,
das leis de marcas comerciais, das leis de privacidade e publicidade e das leise regras de comunicações.