A imagem sorridente do xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, o soberano de Dubai, aparece a cada dois arranha-céus do emirado. Ele vendeu Dubai ao mundo como a cidade das Mil e Uma Luzes, uma Shangri-lá do Oriente Médio protegida das tempestades de areia que assolam a região. Sua imagem domina a silhueta que imita a de Manhattan, radiante entre as pirâmides de vidro e os hotéis construídos em forma de moedas de ouro empilhadas. Lá está ele, no prédio mais alto do mundo - uma agulha fina, invadindo o céu como nenhuma outra construção humana na história.
É abril de 2009 e alguma coisa está mudando no sorriso do xeque Mohammed. Entre os guindastes espalhados por toda parte, muitos estão paralisados, como que perdidos no tempo, e há inúmeros canteiros de obras inacabados, num abandono completo. Nas construções mais arrojadas - como o hotel Atlantis, o pantagruélico castelo cor-de-rosa erguido numa ilha artificial em mil dias, ao custo de 1,5 bilhão de dólares - o teto está caindo aos pedaços. Nessa Terra do Nunca edificada num extremo do mundo, as rachaduras começam a aparecer. Dubai é uma metáfora viva do mundo globalizado neoliberal que pode estar desmoronando.
A canadense Karen Andrews não consegue falar. Toda vez que começa a contar sua história, abaixa a cabeça. Ela é magra e forte, com o esplendor embotado de quem já foi rico. Suas roupas estão amarrotadas como a testa, enrugada. Encontro-a no estacionamento de um dos hotéis mais chiques de Dubai, dentro de um Range Rover. Karen dorme naquele carro e naquela garagem há meses, graças à caridade dos funcionários bengaleses do estacionamento, que não tiveram coragem de expulsá-la.
Ela chegou a Dubai quatro anos atrás. O marido tinha conseguido um bom emprego numa multinacional. "Quando ele mencionou Dubai, logo rebati: 'Não vou me vestir de preto nem parar de beber.' Mas ele me pediu uma chance", conta Karen.
As apreensões da canadense desapareceram assim que o casal aterrissou no emirado, em 2005. "Parecia uma Disneylândia para adultos, com o xeque Mohammed no papel de Mickey", relembra. "A vida era fantástica. Tínhamos um apartamento enorme, maravilhoso, um monte de serviçais, tudo livre de impostos. A vida era uma festa." Não tardou muito e Daniel, o marido de Karen, comprou dois imóveis.
Mas, pela primeira vez na vida, ele se embaralhou nas finanças. O casal acabou se endividando e Karen começou a estranhar as confusões financeiras do marido. Passado um ano, descobriu que Daniel tinha um tumor maligno no cérebro.
As dívidas cresceram. "Até então, eu não sabia nada a respeito das leis de Dubai. Com todas essas grandes corporações se instalando no emirado, imaginei que o sistema local deveria ser parecido com o do Canadá, ou o de qualquer outra democracia liberal." Ninguém lhe havia contado que em Dubai não existe o conceito de falência. Quem se endividar e não tiver como pagar vai para a cadeia.
"Quando soubemos disso, sentei com Daniel e constatamos que precisávamos ir embora daqui", prossegue Karen. O marido sabia que, se pedisse demissão, poderia contar com uma indenização cujo valor bastaria para pagar as dívidas. Mas ele acabou recebendo menos do que o previsto e a dívida não foi saldada. Em Dubai, quando um funcionário larga o emprego, o empregador tem o dever de comunicar o fato ao seu banco. Caso o funcionário tenha alguma dívida em aberto, não coberta pelo seu saldo bancário, todas as suas contas são automaticamente bloqueadas e ele fica proibido de sair do país.
"De repente, nossos cartões de crédito pararam de funcionar. Fomos despejados do nosso apartamento e não tínhamos mais nada." Daniel foi preso no dia do despejo, Karen ficou seis dias sem conseguir falar com o marido, que acabou sendo condenado a seis meses de prisão diante de uma corte que só falava árabe, sem tradução. "Agora estou aqui, sem nada, aguardando que ele saia da prisão", explica a mulher do Range Rover. Com o olhar perdido de constrangimento, ela me pergunta se posso lhe pagar o almoço.
O caso de Karen não é único. Por toda a cidade existem imigrados dormindo clandestinamente nas dunas de areia, no aeroporto ou no próprio carro. "É preciso entender que em Dubai nada é o que aparenta ser", resume a canadense. "Você é atraído pela idéia de um lugar moderno, mas por trás dessa fachada o que temos é uma ditadura medieval."
Trinta anos atrás, quase toda a área onde se ergue hoje o emirado de Dubai era deserta, habitada somente por cactos, plantas e escorpiões. Tudo começou em meados do século xviii, com a fundação de uma pequena vila ao sul do Golfo Pérsico que atraiu mergulhadores em busca de pérolas. Em pouco tempo, a população foi se tornando mais cosmopolita, com viajantes vindos da Pérsia, do subcontinente indiano e de outros países árabes. Todos na esperança de enriquecer. Batizaram a vila com o nome de um gafanhoto predador que reinava na região, daba. Mas não tardou para a cidade ser dominada pelas Forças Armadas do Império Britânico, e assim permaneceu até 1971. Quando os ingleses bateram em retirada, Dubai se juntou a seis pequenos estados vizinhos e formaram uma federação, os Emirados Árabes Unidos.
A retirada britânica coincidiu com a descoberta de generosos lençóis de petróleo na região, e os xeques agora soberanos passaram a viver um dilema singular. Eles eram, em grande parte, nômades analfabetos que haviam passado a vida perambulando pelo deserto em cima de camelos. Agora tinham um pote de ouro nas mãos. O que fazer?
Comparado ao vizinho emirado de Abu Dhabi, Dubai tinha pouco petróleo. Por isso, o xeque Mohammed Al Maktoum decidiu investir na construção de algo que durasse. Israel não se gabava de ter feito o deserto florescer? Al Maktoum decidiu fazer o deserto enriquecer. Planejou construir uma cidade que se tornasse o centro do turismo e de serviços financeiros, atraindo dinheiro e