Numa tarde de maio do ano passado, uma morena bonita entrou no escritório de Evandro Hazzy, em Porto Alegre, para pleitear uma vaga no concurso Miss Rio Grande do Sul. Faltavam só vinte dias para a eleição da representante gaúcha e, para piorar, a moça era de Canoas, cidade que já havia escolhido a sua candidata. Como a jovem levava jeito - era alta, magra, tinha um sorriso fotogênico - apesar dos cabelos malcuidados e de espinhas no rosto, Evandro Hazzy não a dispensou. "Você tem parentes ou alguma ligação com outra cidade gaúcha?", indagou. A morena arriscou, insegura: "Minha família tem uma casa de veraneio em Xangri-lá." De bate-pronto, Hazzy, coordenador do concurso, elegeu Bruna Felisberto Miss Xangri-lá, e desandou a dar conselhos para tratar a pele e o cabelo.
Baixinha e gordinha até a puberdade, Bruna nunca imaginou viver da beleza. Ao espichar rapidamente, chegando a 1,80 metro, começaram as sugestões de que fizesse como a irmã mais velha e seguisse carreira de modelo. Ela não se animou. "Via a Vanessa se matar de trabalhar em São Paulo só para pagar as contas do mês e pensava que aquilo ali não era para mim", disse.
Aos 16 anos, sua mãe, funcionária do inss, foi transferida para Salvador, e Bruna a acompanhou. Terminou o ensino médio na Bahia e voltou ao Sul para prestar vestibular em medicina. Não conseguiu entrar de primeira e, um ano depois, foi aprovada no curso de biomedicina na Universidade Federal. Aos 21 anos, havia passado da idade para ser modelo, mas continuavam as sugestões de que aproveitasse a beleza, agora num concurso de miss. "A faculdade tinha dado uma acalmada e pensei: por que não?" Procurou Evandro Hazzy naquela mesma tarde de maio.
Bruna percorreu a passarela com a segurança de quem, aparentemente, desfilava desde criança. Conquistou os jurados e, para surpresa de Hazzy, levou o título. "Nas condições em que eu a conheci, não era possível prever a vitória", disse ele.
Hazzy ainda era menino, e se chamava Evandro José da Silva, quando começou a se interessar por misses. Sua cidade natal, Santa Maria, a 290 quilômetros de Porto Alegre, tem tradição em concursos de beleza. O Rainha das Piscinas, promovido pelos clubes da cidade, é mais antigo até do que o próprio Miss Brasil. Aos 8 anos, Evandro já brincava de missólogo com colegas da escola. "Os meninos eram jurados e as meninas desfilavam", lembrou. "A vencedora recebia uma faixa de papel higiênico que eu mesmo fazia." Tentando mudar os interesses do garoto, seu pai lhe deu de presente um Forte Apache, brinquedo inspirado no faroeste americano. "Mas nem o Forte eu perdoei", disse Hazzy. "Usei os índios e os soldadinhos como misses, com faixas pequenininhas e tudo."
Lendo o que aparecia pela frente sobre misses e concursos, Evandro Hazzy passou a acompanhar o trabalho do venezuelano Osmel Sousa. "O Osmel é o papa da missologia, meu muso inspirador", comentou. Em 1989, foi convidado a conhecer a obra do mestre: os bastidores da preparação das candidatas a misses na Venezuela. "Fui como um coroinha de Igreja católica, para xeretar tudo", contou. Nos dez anos anteriores, a Venezuela ganhara três vezes o título de Miss Universo. "Logo que cheguei, encontrei as meninas todas malhando, num tipo de granja. Elas tomavam injeções toda hora, com substâncias para tirar celulite e deixar a musculatura mais firme. Aquilo me marcou." Hazzy voltou de lá com a idéia de transformar o Rio Grande na, como diz, "Venezuela brasileira".
O missólogo ficou conhecido fora de terras gaúchas em 2001, quando preparou Juliana Borges, que ficou conhecida como "a miss das dezenove plásticas". Numa entrevista à Folha de S. Paulo, a Miss Brasil daquele ano amenizou o número de cirurgias: "Tem um pouquinho de marketing nisso, sabe?" Explicou que o médico e Hazzy calculavam cada intervenção como uma plástica diferente. A prótese de silicone de cada seio, por exemplo, contabilizava duas operações, a lipoaspiração de cada lado da cintura também. "Tu já viu alguém mexer em um peito e não alterar o outro? Tirar gordura de um lado e não tirar do outro?", perguntou ela.
Em 2002, outra gaúcha e pupila de Hazzy venceu o Miss Brasil. Mas não foi o título que fez Joseane de Oliveira ganhar projeção. Recém-eleita, ela participou do programa Big Brother Brasil e, depois de eliminada, confessou no Domingão do Faustão que era casada havia cinco anos - ou seja, violara uma regra do concurso e perdeu o título. A história foi parar no New York Times e Evandro Hazzy, pegando carona no alarde, consolidou a imagem de mago da beleza.
Como o Rio Grande do Sul, por tradição, é o primeiro estado a eleger sua representante no Miss Brasil, Bruna tinha quase um ano para se preparar para a disputa nacional. "Essa antecedência toda permite que nossa candidata possa treinar postura, passarela, retocar alguma coisa na aparência que não esteja harmônico", explicou Hazzy. Por "retocar", entenda-se cirurgia plástica. Mas houve quem discordasse. "Na mesma noite em que a Bruna foi eleita, eu puxei o Evandro e disse: 'Esse rosto aí eu acho que não tem que mexer, ela está bem proporcional'", lembrou o cirurgião plástico Denis Valente.
Quando ainda fazia residência, Valente chamou a atenção de Almir Nácul, cirurgião plástico de Porto Alegre que aparece bastante em programas matutinos de televisão. Hoje eles dividem o mesmo consultório e são especialistas em "belezas exacerbadas", como definem as aspirantes a miss, modelo ou atriz. O trabalho de Almir Nácul aumentou quando Hazzy virou coordenador do concurso de miss. Seguidor da metodologia venezuelana, o missólogo não acredita em beleza natural. Na minha frente, apontou para uma candidata cujos traços finos lembravam um pouco Ieda Maria Vargas, gaúcha que trouxe o primeiro título de Miss Universo para o Brasil, em 1963, e sentenciou: "Essa é linda, mas eu demolia e transformava num monumento."
Denis Valente faz retoques em candidatas a misses