A jovem paulistana Barbara Pina ainda não se encontrou - nem na vida, nem na profissão. De estável, apenas a vida familiar. Moradora da periferia e se equilibrando entre um cursinho pré-vestibular e o primeiro emprego, Barbara está em trânsito. Ela trafega entre a adolescência que vai ficando para trás e o mundo adulto do seu futuro. Sempre em companhia do mp3, é claro. Nisso, ela retrata toda uma geração
SEGUNDA-FEIRA, 9 DE MARÇO_Quando não estou dormindo, nem comendo, nem tomando banho, trabalhando ou em sala de aula, estou ouvindo música. Ou pensando música. Por isso, ao escrever este diário, vou incluir algumas letras que me vierem à cabeça e que combinem com meu estado de espírito. Como esta do Rappa:
É... espaço é curto quase um curral?
Na mochila amassada uma vidinha abafada?
Meu troco é pouco, é quase nada
(O Rappa - Rodo cotidiano)
Levanto, pego minha mochila e cruzo o rio Tietê; metade do caminho ficou pra trás. Entrei mais cedo no trabalho, me pediram pra fazer hora extra e eu aceitei sem pensar. Só me dei conta hoje, ao acordar, da grande furada em que me meti...
Trabalho numa central de atendimento ao cliente de tevê por assinatura. Em vez das cinco horas e quarenta minutos diárias, hoje o expediente durou sete horas e quarenta minutos, e foi terrivelmente cansativo. Terminei o dia não suportando mais ouvir minha voz. Estou quase rouca. Não consigo mais cantar, logo eu que vivo cantarolando. Quanto eu ganho para estropiar desta forma minhas cordas vocais? Quinze reais: é isso que eu ganho por dia. Hoje ganhei 5 reais a mais pelas duas horas extras.
Moro no Imirim, um bairro da Zona Norte de São Paulo. Tem o Imirim "nobre" e o Imirim mais "periferia"; eu vivo na parte mais periferia. Moro com meus pais, sou filha única e tenho 18 anos. Nossa casa tem dois quartos, uma sala, cozinha, banheiro e área de serviço. No quintal tem outras quatro casas, todas ocupadas por parentes - tios ou primos.
Família é um treco complicado. Mesmo quando está tudo desmoronando ninguém tá vendo nada. E quando cai de vez é aquele choque causado pelo acúmulo de frustração, antes emparedada. Sei lá.
Na minha rua não tenho grandes amizades. Muitas meninas da minha geração já se casaram e têm filhos, outras não moram mais aqui. Meus avós paternos foram um dos primeiros moradores da região, e meu pai vive aqui desde criança. Minha mãe é baiana e veio pra cá com uns 20 anos. Morar aqui já foi pesado. Dois primos meus eram usuários de crack e viviam arrumando briga. Foram muitas as madrugadas em que a gente acordava ouvindo berros ou a sirene da pm em frente ao portão. Um dos primos está preso por roubo, outro se recuperou e não mora mais aqui; noites de bom sono são possíveis agora.
O mundo caquinho de vidro?
Tá cego do olho?
Tá surdo do ouvido?
O mundo tá muito doente?
O homem que mata?
O homem que mente...
(Lenine - O mundo)
TERÇA-FEIRA, 10 DE MARÇO_Perdi a hora de ir para o cursinho, e acordei em outra dimensão. Faço pré-vestibular na Acepusp, uma associação de professores formados pela usp que se juntaram e montaram um cursinho com preço popular. Pago 135 reais por mês, mas ultimamente meu pai tem me ajudado, inteirando o valor, com 30 ou 50 reais.
Não aguentei ficar muito tempo dentro de casa depois de acordar e fui ver uma mostra de 1.000 filmes de 1 minuto no Masp. Gosto muito de audiovisual, adoro pegar uma câmera e sair por aí fazendo imagens sem nexo. Tenho uma câmera fotográfica digital simples, com capacidade para gravar quinze minutos de imagens em movimento. Foi meu pai quem comprou a câmera, em dez prestações.
Saí do museu por volta do meio-dia e fui direto pro serviço. Consegui mudar de horário no trabalho. Agora eu entro às 13 horas e saio às 19h20, chego em casa às nove, nove e meia da noite.
Peguei um ônibus dos meus tempos de colégio, o Imirim-Lapa 178A, e lembrei pelo caminho como era ruim ir à escola. Detesto sala de aula no esquema quatro paredes, uma lousa imensa, e você senta e copia. Fui uma criança dispersiva e sempre tive dificuldade com as matérias da área de exatas.
Eu queria ser o modelo a não ser seguido, mas que daria certo, e entre os 15 e 16 anos de idade cursei dois anos de magistério junto com o ensino médio. Vi professores completamente estressados, despreparados, com turmas lotadas de crianças hiperativas, disléxicas e de histórico familiar assustador. Eu desisti do magistério durante os estágios. Teve uma professora que colocou uma criança de cara para a lousa a tarde toda porque ela conversava demais e atrapalhava os outros. O menino estava com o uniforme todo sujo, a camiseta surrada, era albino, branquinho, e ficava lá de um lado para o outro esfregando as mãos na lousa enquanto as outras crianças faziam piadinhas dele.
Saí do magistério e fui estudar à noite, uma das piores escolhas que eu poderia ter feito. As pessoas daquele lugar se agrediam verbal e fisicamente quase que todo o tempo. Até hoje não sei como passei de ano, pois eu dormia, ouvia música ou lia a Folha de S. Paulo de domingo, em classe. A convivência era forçada, os professores esforçados, alguns dignos de dó, falando lá na frente para ninguém. Eu tinha uma colega da periferia nua e crua que adorava dar uma de bacana. Lembro que ela dizia ter um home theater na sala, e eu vivia perguntando se eu não podia ir lá para ver o "home teacher"; ela levou um tempão até perceber que eu estava de sacanagem. Minha mãe passou o ano inteiro falando: "Filha, vai passar logo, você vai ver... Aguenta mais um pouco." E não