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vultos da República
As armas e os varões
A educação política e sentimental de Dilma Rousseff
LUIZ MAKLOUF CARVALHO
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“O pon está na mesa.” Pétar Russév não conseguia dizer “pão”. Falava pon. Búlgaro, tinha 1,95 metro de altura, olhos azuis, cabelos quase brancos de tão louros. Era advogado e fora filiado ao Partido Comunista da Bulgária. Quando aportou no Brasil, no final dos anos 30, já era viúvo e deixara um filho em sua terra chamado Luben. Ele desembarcou em Salvador, achou o calor intolerável e logo partiu para Buenos Aires, onde ficou alguns anos. Fez uma segunda incursão no Brasil e se estabeleceu em São Paulo. Veio com algum dinheiro e soube fazê-lo crescer. Era bom de negócios.

Pétar Russév mudou o nome para Pedro e afrancesou o sobrenome para Rousseff. Numa viagem a Uberaba, se encantou com a professora Dilma Jane Silva. Ela tinha 20 anos, nascera em No-va Friburgo, no Rio, e fora criada em Minas, em Uberaba. Casaram-se por lá e depois se mudaram para Belo Horizonte. Igor, o primeiro filho, nasceu no primeiro dia de 1947. Dilma Vana, quase no último: 14 de dezembro. E Zana -Lúcia, a caçula, em 1951. Até hoje a família chama o primogênito à maneira búlgara: Igór. Zana morreu em 1977.

Segundo Igor, sua mãe era “a mulher mais bonita de Uberaba”. Os pais dela criavam gado. Apesar da diferença de idade entre ela e o marido, sempre se deram muito bem.

Rousseff ganhou um bom dinheiro empreitando obras para a siderúrgica Mannesmann e negociando imóveis que ele mesmo fazia construir. “Meu pai era muito bom em cálculos”, disse-me Igor numa entrevista em Belo Horizonte. Na lembrança do filho, o búlgaro amava os prazeres da vida: fumava cinco maços de Cairo por dia, tomava uísque, jogava cartas e se deleitava com uma mesa farta.

Os Rousseff moravam numa casa espaçosa, cuidada por três empregadas. As refeições eram servidas à francesa, com guarnições e talheres específicos. O patriarca era louco por dobradinha – que Igor até hoje odeia, fazendo uma careta ao lembrar o “cheiro insuportável” do cozimento da tripa – e às vezes metia-se ele mesmo a fazer “aqueles queijos bichados” (segundo o filho) que comia na Europa.

No começo, a tradicional família mineira olhou de cima para baixo o estrangeiro bon vivant. “No jardim-da-infância, eu e a Dilminha fomos matriculados numa escola boa, mas não na melhor, porque disseram que não tinha vaga”, disse Igor. Exigente em matéria de notas e estudos, Rousseff se esforçou em dar uma formação de classe média européia aos filhos. As crianças tinham piano em casa e uma professora particular, madame Vincent, os visitava semanalmente para ensinar francês. “O velho cobrava mesmo”, lembrou Igor. “Nunca bateu, mas era um suplício quando começava a reclamar.”

Com o passar do tempo, o crescimento dos filhos e o incremento no padrão familiar, os Rousseff dirimiram preconceitos e foram plenamente aceitos. Ficaram sócios dos clubes mais tradicionais e Igor e Dilma entraram nas melhores escolas – ela no Colégio Sion, de freiras, particular, e depois na Estadual Central, público e renomado. Nas férias, iam de avião para a praia de Guarapari, no Espírito Santo, onde ficavam três semanas no Radium, o hotel-cassino. Pedro Rousseff passava horas jogando, apesar de não ser viciado. Era viciado, isso sim, em cigarro, mas sabia que fazia mal à saúde. “Ele odiava o cigarro e tinha pavor que eu viesse a fumar”, lembrou o filho. Nas vezes em que flagrou Igor fumando, Pedro Rousseff deu-lhe broncas mais do que enfáticas. O filho fuma até hoje.

O pai uma vez o levou de carro ao Rio de Janeiro. Ficaram hospedados no (então) suntuoso Hotel Novo Mundo, no Flamengo, que tinha no saguão um lustre imenso. O búlgaro comentou que vira lustres muitíssimo mais valiosos em hotéis europeus. Levou também o menino para conhecer um dos bancos com o qual fazia negócios. Não exatamente o banco, mas o cofre, com as pesadas portas de metal que Igor nunca esqueceu.

Pedro Rousseff incutiu nos filhos o gosto pela leitura. Deu a eles as obras completas de Monteiro Lobato, livros de Jorge Amado e filósofos gregos. “Dilminha sempre estava com algum livro”, disse Igor. O irmão não lembra se ela era boa aluna. O histórico escolar dela está guardado nos arquivos da Estadual Central, hoje Escola Estadual Governador Milton Campos. “Eu só libero se a ministra autorizar por escrito”, informou-me a diretora Maria José Duarte. A ministra-chefe da Casa Civil não autorizou.

Pedro Rousseff morreu em setembro de 1962. Já era brasileiro naturalizado e planejava para breve uma visita à Bulgária. Igor tinha 15 anos e Dilma um a menos. “A noite em que o pai morreu foi dramática”, recordou o filho. “Ele tinha ido jogar no Clube Campestre, voltou pelas onze da noite e de repente se sentiu mal, passando a respirar com dificuldade. Estávamos todos em casa. O médico foi lá, mas não teve jeito. Morreu em casa e foi velado em casa, de onde saiu o enterro.” O meio-irmão búlgaro, Luben – do qual o pai falava com frequência –, foi informado e entrou como um dos herdeiros no processo do inventário. Ele era engenheiro e faleceu em 2007 *. Segundo Igor, Pedro Rousseff deixou “uns quinze bons imóveis”. Continuou a falar pon em vez de “pão” até morrer.

Em 1965, quando Dilma Rousseff prestou concurso e entrou na Estadual Central, a escola era um centro de agitação do movimento secun-darista, radicalizado pelo golpe militar do ano anterior. Com 17 anos, muitas leituras e intelectualmente inquieta, Dilma deu ali os primeiros passos de sua educação política. Dois anos depois, passou a militar numa organização chamada Política Operária, mais conhecida como Polop. Fundada em 1961, ela teve origem no Partido Socialista Brasileiro. Pouco depois da entrada de Dilma, a Polop atravessou um período de turbulência teórica, polemizando acerca do melhor método para derrubar a ditadura e avançar na luta pelo socialismo. Grosso modo, uma ala defendia a reivindicação de uma Assembléia Constituinte. Outra, a prioridade

 

 
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