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o mundo encantado do terceiro setor
Sem xixi na galocha
O bandeirantismo completa cem anos com rãs, pelúcia e banho de cano, mas sem o entusiasmo de uma invasão do Palácio de Cristal
VANESSA BARBARA
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No dia 4 de setembro de 1909, no Palácio de Cristal, em Londres, 11 mil meninos de várias partes do Reino Unido se juntaram para encontrar pela primeira vez o criador do escotismo, lord Robert Stephenson Smyth, o barão Baden-Powell. Sem serem convidadas, 24 garotas se infiltraram na reunião dos escoteiros. "Ficamos sabendo do encontro por meio do grupo escoteiro local", contou uma delas, que tinha 13 anos e morava em Camberwell, ao sul de Londres. "Não havíamos sido convidadas e nem tínhamos permissão para ir, mas pegamos emprestados alguns uniformes e chapéus e fomos." Algumas das meninas escreveram cartas a Baden-Powell usando apenas suas iniciais, para que ele pensasse que eram rapazes, e assim conseguiram se inscrever.

Apesar do dia frio e chuvoso, elas andaram quase 10 quilômetros até o Palácio de Cristal porque não tinham dinheiro para o ônibus. Ao chegarem, foram barradas por um organizador que fez troça das moçoilas - o escotismo era uma organização estritamente masculina. Incansáveis, elas conseguiram entrar sorrateiramente, por entre um grupo de escoteiros.

Dentro do palácio, filas de rapazes, com seus totens e chapéus, desfilavam e saudavam Baden-Powell, que, satisfeitíssimo, inspecionava as tropas. Seu humor azedou quando vislumbrou o grupinho de fedelhas num dos cantos da arena. Elas ainda tentaram se esconder, mas ele se aproximou a passos largos e inquiriu: "Que diabos vocês estão fazendo aqui?" A líder das meninas respondeu: "Queremos fazer a mesma coisa que os rapazes, queremos ser escoteiras." Baden-Powell respondeu que era impossível, mas, mais tarde, disse que ia pensar no caso.

Durante o resto da cerimônia, as garotas foram apupadas pelos rapazes, e mesmo assim não se abalaram. Depois da leitura de um telegrama de cumprimentos do rei Eduardo VII, como todos os presentes elas ergueram seus chapéus e totens. Foi graças à pressão das meninas que, no ano seguinte, Baden-Powell determinou que sua irmã Agnes fundasse a vertente feminina do escotismo, que no Brasil se chamou Movimento Bandeirante, em homenagem aos brasilianos de São Paulo que, a poder de ferro e fogo, dilataram a fé católica e o império luso.

O bandeirantismo brasileiro comemora neste ano nove décadas de vida. Em 2010, será a vez do centenário mundial, quando todos os membros da World Association of Girl Guides and Girl Scouts organizarão festas nacionais e internacionais para celebrar a data, sempre no centésimo dia do ano (10 de abril). As comemorações se estenderão por três anos, o tempo que, da Inglaterra, o movimento levou para se espalhar pelo mundo. O primeiro acampamento mundial comemorativo está marcado para o ano que vem, no Canadá, e até lá os bandeirantes firmaram o compromisso de fazer 100 grandes amigos.

Sim: os bandeirantes. Ao contrário do que imaginam os leigos, o bandeirantismo não é uma associação só para moças. A partir da década de 60, passou a receber também meninos e hoje é uma organização mista, distinta do escotismo, mas com princípios e técnicas semelhantes. Pode-se dizer que o escotismo se concentra em aventuras e pioneirias (amarras, bivaques, orientação, sobrevivência na selva) e o bandeirantismo, em campanhas beneficentes, projetos educacionais e jogos - embora isso não seja regra e comportamentos possam variar de região para região.

Espíritos malignos invadiram o acampamento durante a noite. Foi em outubro de 2001, em Araçariguama, no interior paulista, quando uma menina fez xixi nas galochas de tanto medo e as crianças tiveram que resgatar a chama da magia por entre as árvores, sem pistas e sem lanterna - e parece que havia morcegos.

Três anos antes, num acampamento em Parelheiros, na periferia de São Paulo, uma bruxa horrenda assaltou o forte apache e, em uma atitude destemida que virou notícia, "a Camila pegou uma minhoca com a mão".

Em 1992, sempre em São Paulo, dessa vez em Boituva, foi a máfia chinesa que assombrou. Quatro sábios de branco vagaram pelas barracas distribuindo pistas, enquanto os malfeitores de preto capturavam membros das equipes. Alguém passou por uma ponte baixa e foi agarrado pelo pé. Nos acampamentos bandeirantes, os jogos são mirabolantes e até as crianças de 5 anos enfrentam monstros, índios loucos e esqueletos.

Em abril passado, num sítio em São Bernardo do Campo, os núcleos bandeirantes Acauã e Itatiaia organizaram um acampamento para cinquenta participantes. O tema, que em geral é apenas uma desculpa para criar os jogos, era "alto astral", ou seja, horóscopo. Os jogos foram preparados com algumas semanas de antecedência e incluíam circuitos com cordas, lama e toldos escorregadios. Os bandeirantes foram divididos em quatro equipes, simbolizando a terra, a água, o fogo e o ar, e tiveram de cumprir uma infinidade de tarefas vagamente relacionadas aos signos. Por exemplo: na base do signo de Sagitário, que, segundo o zodíaco, é marcado pela liberdade e a aventura, passaram por um labirinto de cordas com os olhos vendados e apanharam ingredientes para um almoço mateiro.

Os bandeirantes só costumam descobrir o tema na abertura do acampamento. Às vezes, são surpreendidos pelos jogos em andamento enquanto lavam a louça ou escovam os dentes: surge um feiticeiro envolto em uma nuvem de fumaça e começa a ditar as regras. Ou então os adultos (chefes escoteiros ou coordenadores) desaparecem misteriosamente, deixando o acampamento às moscas e um mistério para as crianças desvendarem. Outras vezes, os jogos são contínuos e as equipes passam dias e dias na sequência da mesma história, incorporando os personagens relativos ao tema. As fadas e os magos - os bandeirantes de 5 a 9 anos - já estão acostumados com a idéia. Em suas reuniões semanais, que em geral acontecem aos sábados, participam do "encantamento", atividade em que formam um círculo e, cantando uma música, assumem a personalidade de médicos, besouros, artistas, expedicionários, marcianos, ou bananas. Levam a brincadeira tão a sério que, num feriado de Semana Santa, uma coordenadora teve que "desencantar" por telefone uma cria
nça que tinha saído mais cedo da atividade e continuava agindo

 

 
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