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Rudá de Andrade recrutou um figurante espancado por Vittorio de Sica, criou a Cinemateca Brasileira, deixou a filha de Ungaretti na mão, escondeu perseguidos políticos em bordéis, foi preso na França por tráfico de cocaína, escreveu um romance premiado, montou uma fábrica de varas de pescar etc. etc. etc. Foi bem mais que o filho de Pagu e Oswald de Andrade.

Entre um gole de uísque e outro de cerveja, Rudá de Andrade simulava uma chicotada no cachorro que perturbava a cadela Ninotchka, batizada em homenagem a um dos últimos filmes de Greta Garbo. Outra dezena de cães e gatos trançava entre as pernas do dono, e tentava escalar seu moletom azul, antes de desaparecer pelos 18 mil metros quadrados do sítio em Bragança Paulista, a 90 quilômetros de São Paulo. Foi ali que Rudá de Andrade viveu quase uma década com a mulher, a polonesa Halina Kocubej. "São todos meio vira-latas que nem eu", disse.

Rudá explicava seu universo animal enquanto acariciava Pompeca, diminutivo de Ponte Pequena, brincadeira com o sobrenome do personagem principal do romance Serafim Ponte Grande, publicado em 1933. Pompeca foi o nome de vários de seus animais de estimação nos últimos 72 anos. E me pareceu também ser o único sinal evidente da genealogia ilustre de Rudá, o único filho de Oswald de Andrade, o arauto do modernismo, com a feminista, militante comunista e musa do movimento antropofágico Patrícia Galvão, mais conhecida pelo non de plume, Pagu.

A casa de madeira, chamada de Pedra Bela, era cercada por uma mata de matizes de verdes que, segundo Rudá, nem Georges Braque alcançaria. Na parede, um quadro avisava "Aqui se reúnem caçadores, pescadores e outros mentirosos" e, acima do bar, lia-se que Mal por mal más vale la taberna que el hospital. Em outro canto, um desenho em grafite com a imagem de Castro Alves retratado como um matuto - a única lembrança de um roteiro, criado com Nelson Pereira dos Santos, que não foi adiante.

Percorri o ambiente com os olhos em busca de algum sinal dos pais. Não havia nada. Rudá falava nuns livros deles lá em cima, em outros lá atrás. "Oswald e Pagu são cada vez mais conhecidos, mas quem os lê?", perguntou. "O diário deles estava deteriorado e o vendi para o José Mindlin", contou. Só lastimou não ter guardado a radiografia com a bala que entrou pelo ouvido e saiu sem maiores danos, poupando a mãe na primeira tentativa de suicídio. Foi em 1940, quando Pagu foi solta depois de quatro anos de prisão, acusada de subversão, e ser perseguida pelo partido que ajudara a construir, o PCB.

Há cinco anos, Rudá também vendera o célebre retrato a óleo de Pagu, pintado em 1933 por Candido Portinari, para comprar o sítio - um refúgio onde as visitas eram raras e os bichos, incontáveis. A casa nunca teve placa ou a rua, identificação. A quem se mostrava confuso sobre o endereço, ele costumava dizer que se houvesse uma igreja ou uma placa escrita "Jesus" em letras garrafais, havia errado o caminho. Rudá era ateu como os pais. Talvez tenha sido essa sua maior herança. De bens materiais, não herdou nada. "Meu pai me deu um relógio Omega, que nem sei onde está", falou. "As minisséries da Globo sobre eles não rendem um tostão para mim."

A extensa obra de Oswald de Andrade inclui romances, poesias, manifestos e peças de teatro. As publicações póstumas, feitas pela editora Globo, garantiam 1 mil reais mensais a cada um de seus três herdeiros: Rudá; sua meia-irmã Marília, professora de dança da Universidade Federal de Campinas, filha de Oswald com Maria Antonieta d'Alkmin; e Adelaide, viúva de José Oswald Antonio de Andrade, o Nonê, primogênito do escritor, fruto do seu casamento com a estudante francesa Henriette Boufflers. "Vou deixar o inventário para a Marília, que faz tanta questão", desdenhou Rudá. "Ela ficou com tudo, mesmo... Eu não tenho mágoas", disse-me ele, rindo. Os livros de Pagu também não lhe renderam nada.

Assim como Nonê, corruptela de "nosso nenê", brincadeira inventada pelo pai, Rudá passou a vida dando explicações sobre a origem de seu nome. "Diziam que Rudá era diminutivo de Rodo Metálico, uma alusão ao lança-perfume, que eles cheiravam sem parar", contou Rudazinho, um documentarista de 33 anos, filho caçula de Rudá. "Ou então que significava Rolando Escada Abaixo. Mas, de fato, Rudá era o deus do amor de uma lenda indígena."

Rudá jamais fez praça da sua ascendência. Ao contrário. Antes de encontrá-lo, vários de seus amigos me alertaram sobre o risco de tocar no nome dos pais. Foi apenas no último de nossos três encontros, no ano passado, que mencionei o tema. A impressão é que cada lembrança deles era arrancada a marretadas do cimento da memória. "Eu tinha três meses quando a Pat resolveu viajar para Argentina, Uruguai, Japão, Manchúria", lembrou, referindo-se à mãe como um personagem. "Foi à Rússia, conheceu o Prestes, virou comunista, anticomunista, foi presa 23 vezes, maltratada na prisão."

Nunca viveu com a mãe. Desde bebê, Rudá morou com Oswald de Andrade, "que, de mulher em mulher, me largou com o motorista", disse. "Aliás, motorista que me batia com vara de marmelo." Na adolescência, era Nonê quem cuidava do caçula, quando moravam numa casa de três andares na rua Martiniano de Carvalho, no bairro da Bela Vista. "Meu pai só me deixou visitar a Pat uma única vez na prisão, em São Paulo. Eu já tinha 6 anos; essa imagem nunca saiu da minha cabeça. Aquela Pagu dura e revolucionária era meiga e carinhosa, não tinha nada de porra-louca."

Seu relato sobre a mãe foi permeado de sentimentos ambíguos: mágoa, admiração, ressentimento, ternura. Pagu tentara se matar várias vezes, uma delas quando descobriu o câncer no pulmão que acabou por lhe tirar a vida. Em outra ocasião, depois de uma cirurgia, feita em Paris para deter a doença e que

 

 
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