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questões cinematográficas
Assim é se não lhes parece
Milk e as ambiguidades de Hollywood
JOÃO MOREIRA SALLES
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Os políticos conservadores americanos não gostam de Hollywood. Uma das formas costumeiras com que desqualificam um rival é se referir a ele como "Fulano e seus amigos de Hollywood". Trata-se de um atalho para dizer que Fulano é a favor do aborto, do casamento gay e de carros híbridos. A violência dos filmes de ação que constituem parte considerável da produção do cinema industrial americano não é propriamente o que os aflige. Pior que a exaltação das armas seria a exaltação da libido, sobretudo quando dissociada do afeto - libertinagem, concupiscência, adultério. Boa parte dos que criticam o cinema americano pelo viés do conservadorismo moral diria provavelmente que, ao escolher uma opção, melhor amor sem sexo do que sexo sem amor. E, à falta de amor, decerto melhor sexo entre homens e mulheres do que entre homens e homens ou mulheres e mulheres.

À primeira vista, os conservadores parecem estar perdendo essa guerra. Nos últimos anos, Hollywood ampliou sua agenda liberal e trouxe a homossexualidade das franjas do cinema independente para o centro da indústria.

Neste mês, estréia no Brasil o filme Milk - A Voz da Igualdade, a história de um dos primeiros homens abertamente homossexuais eleitos para um cargo público nos Estados Unidos. Harvey Milk foi um judeu de Nova York que na década de 70 se mudou para São Francisco e abriu uma pequena loja de fotografia no distrito gay da cidade. Em 1977, depois de três tentativas, elegeu-se vereador.

Era um homem gentil, conciliador, de uma simpatia e generosidade irresistíveis. Trabalhou lado a lado com o prefeito liberal da cidade, George Moscone, e fez avançar a causa dos direitos civis americanos. Combateu com sucesso um projeto de lei que permitia demitir professores homossexuais da rede pública de ensino. Sua popularidade se estendia além dos limites da comunidade gay. Foi um dos responsáveis por aproximar o mundo heterossexual da cultura aberta que começava a transformar São Francisco num destino preferencial de homossexuais discriminados em outras partes do país. Em novembro de 1978, Milk e Moscone foram assassinados no prédio da prefeitura. O assassino, um vereador conservador católico, havia sido eleito junto com Milk.

Uma resenha na revista Rolling Stone diz que Milk "é um triunfo absoluto, um clássico do cinema americano". O principal crítico do New York Times escreveu: "Milk é um prodígio." Inúmeras associações americanas de críticos, acompanhando a opinião, elegeram o filme como o melhor de 2008. No papel de Harvey Milk, Sean Penn, o melhor ator de sua geração, não pára de colecionar prêmios, entre os quais o de melhor ator pela Sociedade Nacional de Críticos de Cinema e pelos círculos de críticos de cidades como Nova York e Los Angeles. O sucesso também é de público. Orçado em 15 milhões de dólares, o filme já havia arrecadado mais de 23 milhões de dólares até o último fim de semana de janeiro.

Milk vem na esteira de outro fenômeno. Em 2005, Ang Lee lançava O Segredo de Brokeback Mountain. O filme custara 14 milhões de dólares. Depois de estrear em oito salas, na quarta semana pulou para 269 e, na nona, para 2089. Não apenas as elites liberais da Costa Leste ou Oeste lotaram as sessões. A América profunda das cidadezinhas do Sul e do Meio-Oeste, em grande parte cristã e conservadora, também se comoveu com o amor entre os dois caubóis. Só nos Estados Unidos, Brokeback Mountain teve uma receita superior a 80 milhões de dólares, o que o pôs na lista dos dez dramas românticos de maior bilheteria do país.

Durante alguns meses o filme foi assunto obrigatório na imprensa. Dispondo de ouro puro, o departamento de marketing da Focus Features, a empresa que produziu o filme com a Paramount, assegurou um fluxo constante de notas para alimentar jornais e redes de televisão e rádio. Em meio às trivialidades acerca da produção, uma das notícias que preencheram mais páginas nas revistas de celebridades dizia que, durante as filmagens, o ator Heath Ledger se apaixonara por Michelle Williams, atriz que fazia o papel de sua mulher. Antes mesmo da estréia nascia a filha do casal.

As fotos de Ledger com Michelle Williams e a filhinha Matilda Rose foram uma dádiva para estender o latifúndio que Brokeback Mountain conquistara na imprensa, mas é razoável supor que serviam a um segundo propósito, tão importante quanto o de divulgar o filme: reforçar inequivocamente que os atores eram heterossexuais.

Difícil imaginar que Brokeback Mountain pudesse ser lançado pela Focus se o filme tivesse atores homossexuais nos papéis que couberam a Heath Ledger e Jake Gyllenhaal. Ledger - que, ao morrer, já era o melhor ator da sua geração - poderia ter elevado a tensão erótica entre os amantes à altura da paixão que os consumia, mas Ang Lee, em vez de conjunção carnal, preferiu nos oferecer uma "conjunção de almas", como escreveu Anthony Lane, crítico da revista New Yorker. Brokeback Mountain é um drama sentimental extremamente bem interpretado, no qual suspiros espirituais têm precedência sobre corpos que suam. Elimine-se o fato de serem dois homens e o que sobra é o eterno enredo do amor impossível.

A discussão sobre a propriedade de minorias serem representadas por atores do mainstream é velha e, na maior parte das vezes, restritiva e mesquinha, afeita à tirania dos movimentos de auto-afirmação. Segundo essas vozes, só lésbicas estariam aptas ao papel de lésbicas, ou só negros teriam legitimidade para dirigir filmes sobre a escravidão. O importante a sublinhar, no caso, não é a escolha de atores heterossexuais para protagonizar a história, mas a impossibilidade da alternativa: dada uma paixão entre dois homens, é prudente fazer saber ao espectador de Des Moines ou de Salt Lake City que ele está assistindo a atores no exercício da profissão. A presunção de uma sexualidade manifestada na tela com a sofreguidão de corpos que poderiam se desejar na

 

 
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