Os seres humanos não estão ligados só a macacos e outros bichos, mas também às plantas. Vegetais e animais, sabemos hoje, têm 70% do DNA em comum. Mas devido à seleção natural, cada espécie é única e cada indivíduo é singular.
Todos conhecem a versão canônica da história de Charles Darwin: o embarque no Beagle aos 22 anos, para uma viagem aos confins da terra; Darwin na Patagônia; Darwin no pampa argentino (conseguindo laçar as patas do seu próprio cavalo); Darwin pela América do Sul, coletando os ossos de gigantescos animais extintos; Darwin na Austrália, antes de perder a fé religiosa, espantado ao ver um canguru pela primeira vez ("dois Criadores distintos devem ter atuado nesse caso"). E, claro, Darwin nas Galápagos, observando como os pássaros - chamados tentilhões - de cada ilha eram diferentes, começando a experimentar a mudança sísmica na compreensão de como evoluem os seres vivos que, um quarto de século mais tarde, resultaria na publicação de A Origem das Espécies.
É aqui que a história atinge o seu clímax, com o lançamento de A Origem em novembro de 1859, e tem uma espécie de pós-escrito elegíaco: uma visão de Darwin mais velho e doente, ao longo dos vinte e poucos anos de vida que ainda lhe restaram, vagando pelos seus jardins de Down House sem nenhum plano ou finalidade especial, talvez escrevendo mais um ou dois livros, mas com a grande obra da sua vida há muito consumada.
Nada poderia estar mais longe da verdade. Darwin continuava intensamente sensível tanto às críticas quanto aos indícios que davam apoio à sua teoria da seleção natural, e isso o levou a lançar não menos que cinco edições da Origem. É verdade que se refugiou no seu jardim e nas suas estufas depois de 1859 (havia um vasto terreno em torno de Down House, com cinco estufas), mas para Darwin tanto um quanto as outras se transformaram em verdadeiras máquinas bélicas, das quais arremessava mísseis de provas sobre os céticos do lado de fora - descrições de estruturas e comportamentos vegetais fora do comum, que seriam muito difíceis de atribuir a uma Criação ou a um Plano particular - um corpo de provas, em favor da evolução e da seleção natural, ainda mais irresistível que o apresentado em A Origem.
Estranhamente, mesmo os estudiosos de Darwin prestam relativamente pouca atenção a essa obra botânica, muito embora ela se componha de seis livros e mais de setenta artigos. Assim, Duane Isely, em seu livro One Hundred and One Botanists (Cento e Um Botânicos), de 1994, diz que embora mais tenha sido escrito acerca de Darwin do que sobre qualquer outro biólogo de todos os tempos, ele raramente é apresentado como botânico. O fato de ter escrito vários livros sobre suas pesquisas com plantas é mencionado em grande parte dos estudos a seu respeito, mas de passagem, mais ou menos no tom em que se diria: "Bem, todo grande homem precisa se divertir de vez em quando."
Ainda hoje, no bicentenário do nascimento de Darwin e do 150º aniversário de A Origem, o mesmo continua a ocorrer.
Darwin cresceu numa família de botânicos - seu avô, Erasmus Darwin, escrevera um longo poema em dois volumes intitulado O Jardim Botânico, e o próprio Charles foi criado numa casa cujos extensos jardins continham, além de flores, uma variedade de macieiras produzida por hibridação, para obter maior vigor. Durante seus estudos universitários, em Cambridge, as únicas aulas que Darwin nunca deixou de assistir foram as do botânico J. S. Henslow, e foi ele que, reconhecendo as qualidades extraordinárias do aluno, recomendou-o para uma posição a bordo do Beagle.
Foi para Henslow que Darwin escreveu cartas muito detalhadas, repletas de observações sobre a fauna, a flora e a geologia dos lugares que visitava. E foi para Henslow que Darwin, nas ilhas Galápagos, coletou cuidadosamente todas as plantas em flor, assinalando como as diferentes ilhas do arquipélago muitas vezes apresentavam espécies diferentes de um mesmo gênero. Esse se tornaria um indício crucial nas suas reflexões sobre o papel da divergência geográfica na origem de novas espécies.
Embora Darwin não tivesse o menor problema em definir-se como geólogo (escreveu três livros de geologia baseados nas observações reunidas durante a viagem do Beagle, e concebeu uma teoria de notável originalidade sobre a origem dos atóis de coral, que só seria confirmada experimentalmente na segunda metade do século XX), sempre reafirmava que não era botânico. Um dos motivos era que a botânica continuava a ser uma disciplina quase totalmente descritiva e taxionômica - as plantas eram identificadas, classificadas e ganhavam um nome, mas nunca eram investigadas. E Darwin era antes de mais nada um investigador, preocupado com o como e o porquê da estrutura e do comportamento das plantas, não só com a sua descrição.
A botânica não funcionava para Darwin como um mero passatempo ou distração, como era o caso de tantos vitorianos. Para ele, o estudo das plantas vinha sempre impregnado de finalidade teórica, e esta tinha a ver com a evolução e a seleção natural. Era, como escreveu seu filho Francis: como se ele estivesse repleto de um poder de teorização permanentemente pronto a escoar por qualquer canal ao menor movimento, de maneira que nenhum fato, por mais ínfimo que fosse, jamais deixava de provocar uma torrente de teorias.
E o fluxo corria nos dois sentidos. O próprio Darwin disse várias vezes que "ninguém pode ser um bom observador se não for um teorizador ativo".
No século XVIII, o cientista sueco Lineu havia demonstrado que as flores continham órgãos sexuais (pistilos e estames), e neles baseara as suas classificações. Quase universalmente, porém, acreditava-se que as flores se autofecundavam - por que outro motivo, afinal, elas teriam tanto órgãos masculinos quanto femininos? O próprio Lineu fez graça com a idéia, retratando uma flor, com seus nove estames e um pistilo, como a alcova em que uma