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anais da imprensa
Mulher Filé dá capilé a repórter nerd
Com bom humor, sensacionalismo, invenções e vulgaridade, o Meia Hora resiste às Organizações Globo no Rio
ROBERTO KAZ
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Naquela manhã de outubro, só havia um assunto nas redações das revistas de fofocas, nos estúdios de gravação de novelas e na Dias Ferreira, a rua do Leblon frequentada por celebridades: depois de tomar um tabefe do ator Dado Dolabella numa boate, a modelo Luana Piovani resolvera terminar o namoro com ele.

A notícia já havia sido divulgada em blogs e sites na noite anterior, mas para o Meia Hora, o tablóide carioca que vive de manchetes bem-humoradas e abordagens inusitadas, ainda era a melhor opção para a primeira página do dia seguinte. "Tenho que perfumar as notícias todos os dias", disse o editor-executivo Henrique Freitas. Era preciso bolar um título que, além de requentar a fofoca, fosse intrigante e fizesse os leitores rirem. A resposta veio em uma mensagem enviada por um dos editores, Humberto Tziolas, que havia passado a noite em claro pensando em uma saída. "Genial. Vou manchetar isso", disse Freitas ao abrir sua caixa de e-mails. O "isso" em questão era: "Luana não tem mais Dado em casa."

O que parecia uma solução simples - e genial - deu origem a uma intrincada charada visual. "Como a nossa manchete é sempre em caixa alta", disse Freitas dias depois, usando a expressão que designa as letras maiúsculas, "as pessoas leriam o verbo dar antes do nome Dado, o que poderia ficar pesado." Para atenuar a grosseria - e evitar um possível processo - resolveu abrir uma exceção: faria o título em letra minúscula, para que "Dado" pudesse ser lido como nome próprio. O problema, porém, continuava: nem todos entenderiam a piada.

Freitas se lembrou então de uma manchete que vira décadas antes, na primeira encarnação do jornal O Povo, que dizia: "O sonho da casa própria." No lugar da palavra "casa", havia o desenho de uma casa. "É isso", concluiu. No dia seguinte, a manchete do Meia Hora provocava risos nas bancas cariocas: "Depois da briga e da separação. Luana não tem mais [foto de Dado] em casa."

Lançado em setembro de 2005 com uma tiragem de 50 mil exemplares, o Meia Hora se destacou pelo baixo preço (50 centavos), pela linguagem popularesca - e às vezes francamente vulgar - e pelas manchetes que, independentemente do conteúdo, pendiam para a pilhéria. Calcado no quarteto crime-futebol-mulher-celebridade, dobrou a circulação já no terceiro mês. Atualmente, com tiragem de 230 mil exemplares diários, é o terceiro jornal mais vendido do Rio, atrás do Extra e de O Globo - que contam com a estrutura financeira e de circulação das Organizações Globo, além da propaganda gratuita nas rádios e TVs do grupo no Rio. "Tem dias que chegamos a ficar em primeiro", contou Henrique Freitas.

"E olha que quase não fazemos promoção. A cereja do nosso bolo é a manchete."

Quando Ronaldo Fenômeno trocou o futebol carioca pelo paulista, a chamada do Meia Hora foi: "Ronaldo mete bola nas costas do Mengão e fecha com o Corinthians." Quando Fábio Assunção abandonou a novela das seis para se tratar do vício em drogas, leu-se que o ator daria "um tempo na carreira". A morte do ex-policial militar Marcelo Silva, ex-marido de Suzana Vieira, devido a uma dose excessiva de cocaína, foi apresentada assim: "Do pó viestes, pelo pó passastes, ao pó retornarás."

Entre os redatores do jornal, cocaína vira invariavelmente "pó", tiro é "pipoco", facção criminosa é "bonde sinistrão". A polícia, quando invade, "dá sacode"; quando atira, "larga o dedo"; quando prende, "mete em cana". Bandido escondido "tá malocado", bandido vivo "toca o terror", bandido morto "levou ferro". Ladrão de galinha é "safado" e estuprador é "monstro". Cadeia fica melhor como "tranca", "jaula" e "xilindró". O exterior é "no estrangeiro". Mulher bonita recebe diversas caracterizações, em boa parte frutais: morango, melancia, jaca.

Alcunhas de criminosos cariocas também são exploradas. O bandido Digato morreu "miando", Skol da Rocinha desceu "redondo pro inferno" e Batman, "o bandido morcego da milícia", fugiu voando de Bangu 8. "Uma vez a polícia pegou um traficante chamado John Lennon. A notícia nem era tão importante, mas publicamos só pela graça de dizer que a PM tinha prendido o John Lennon", contou a subeditora Joana Ribeiro, em sua mesa enfeitada com uma imagem do dragão de São Jorge. Foi o mesmo pensamento que norteou a notícia "Anões dão show de bola. Fugiram da mesa de totó", para celebrar o sucesso de um time de jogadores de baixa estatura de Belém, no Pará.

No Meia Hora, a crise mundial, as eleições americanas e a invasão do Iraque são assuntos secundários. "É uma coisa muito longe da vida do nosso leitor", explicou Henrique Freitas. No panorama internacional, a exceção foi o enforcamento de Saddam Hussein, noticiada com o título "Saddam morre com a corda no pescoço". Não houve espaço na primeira página para a vitória de Barack Obama e (incompreensivelmente) nem para a sapatada do repórter iraquiano no presidente George W. Bush. Perguntado sobre qual seria a manchete do jornal, se num mesmo dia houvesse um ataque terrorista, nos moldes do 11 de Setembro, e uma chacina no Rio de Janeiro, Henrique Freitas respondeu: "Provavelmente daria uma capa dupla."

O Meia Hora pertence ao grupo O Dia, do qual fazem parte o jornal de mesmo nome, uma rádio FM, um portal na internet, uma agência de notícias e o Instituto Ary Carvalho. Em 1983, Ary Carvalho, que havia dirigido as redações do Última Hora no Rio e em São Paulo, e do Zero Hora em Porto Alegre, comprou o diário, de forma e conteúdo sensacionalistas. Coube a ele mudar o projeto gráfico e editorial para disputar o público de classe média. No auge, no final dos anos 90, O Dia vendeu 900 mil exemplares aos domingos. Hoje, sua tiragem média é de 105 mil exemplares.

Em 2003, com a morte do patriarca Ary de Carvalho, o conglomerado ficou com suas filhas

 

 
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