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carta da Islândia
A grande ilusão
Depois da farra, o colapso - o choque, a confusão e a revolta no país mais afetado pela crise econômica mundial
JOÃO MOREIRA SALLES
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Um relatório da Organização das Nações Unidas publicado em outubro de 2007 afirmava que a Islândia, segundo todos os indicadores sociais, havia superado a Noruega e era agora o melhor país do mundo para se viver. Exatamente um ano depois, em 6 de outubro passado, boa parte dos 320 mil islandeses parou para ver o primeiro-ministro Geir Haarde se dirigir à nação. Era o meio da tarde, um horário fora do comum - os canais abertos islandeses começam a transmitir às 18 horas. Ainda assim, lá estava ele, severo, atrás de uma mesa tão sombria quanto seu semblante, tendo ao fundo a bandeira do país. Haarde falou por onze minutos. Ao concluir, disse:

Compatriotas, se jamais houve um momento em que a nação islandesa precisou demonstrar coesão e estoicismo na adversidade, este momento é chegado. Frente à tempestade que se inicia, exorto as famílias a conversarem entre si, a não se deixarem dominar pelo desespero, ainda que para muitos as perspectivas sejam sombrias. Precisamos explicar aos nossos filhos que o mundo não está à beira do apocalipse e que temos de arrancar, do fundo de nós mesmos, a coragem para enfrentar o futuro. Que Deus abençoe a Islândia.

Quarenta e oito horas depois, o primeiro-ministro inglês Gordon Brown -invocou uma lei promulgada depois do 11 de Setembro e incluiu a Islândia na lista de países e organizações terroristas. O Banco Central, o Ministério das Finanças e os dois maiores bancos islandeses se juntavam à Al-Qaeda e ao Talibã. Os ativos dessas instituições no Reino Unido foram sumariamente congelados.

No final de novembro, na sua acanhada sala de trabalho, em Reykjavík, Árni Mathiesen, o ministro das Finanças, balançou a cabeça e, ainda aturdido, disse: "A reação dos ingleses foi a pá de cal. Eles não precisavam fazer aquilo. Não consigo entender como alguém usa uma lei antiterrorista contra um país como o nosso. Nos pôr nessa lista."

Era o fim de um processo que levara a serena ilha do Atlântico Norte - que não possui exército e cuja polícia não anda armada - ao mais grave colapso de um país em tempos de paz. Em sete dias a Islândia se tornou a maior baixa da crise econômica mundial. Não se tratava de uma instituição financeira nem de um setor da indústria, mas de uma nação na bancarrota.

Os islandeses ainda buscam a metáfora justa: um furacão, um tiro, um caminhão que os atingiu por trás. E, se o processo que os derrubou não foi necessariamente o mesmo que levou o sistema financeiro internacional à lona, o trajeto da Islândia nos últimos dez anos talvez venha a ser visto pelos historiadores como exemplo das oportunidades, excessos, vulgaridades e riscos dos tempos em que as regras foram rasgadas para que o dinheiro pudesse gerar dinheiro.

Em 1936, o jovem poeta inglês

W.H. Auden propôs à editora Faber escrever um livro sobre a Islân-dia. Ao chegar ao porto de Reykjavík, ele registrou: "Minha primeira impressão é de uma cidade luterana, banal e remota." A sensação associada ao país foi sempre a de isolamento.

Quando os vikings chegaram, em 874, não encontraram quase nada. Trouxeram então suas mulheres celtas raptadas às ilhas britânicas e coloni-zaram a ilha. Trataram as florestas que cobriam um quarto das terras como os mineiros tratam suas minas, sem se dar conta de que eram frágeis e não se regenerariam. Em menos de sessenta anos a Islândia se transformou num deserto produzido por homens e ovelhas. O fluxo migratório cessaria em 930, quando o crescimento da população já não era suportável. A maior parte dos islandeses vivos descende diretamente desses primeiros homens e mulheres que aportaram no país há mais de mil anos - e o destruíram.

O desastre ambiental foi o grande responsável pela pobreza até meados do século passado. Halldór Laxness, Prêmio Nobel de Literatura em 1955, fala de personagens que têm vontade de tomar leite e não podem, que sonham em comer carne e não a encontram. Mesmerizadas, as crianças vêem as mães prepararem a primeira refeição do dia, torcendo para que ao pão seco venha se juntar uma pincelada de gordura e fígado de bacalhau. Até um passado recente, a vida do islandês podia ser descrita como uma batalha pelo mínimo necessário à sobrevivência: um peixe, um pedaço de carne, um abrigo contra o frio. O isolamento e as adversidades - fome, frio, vulcões, terremotos, pestes - geraram um povo obstinado e independente.

O país passou às mãos da Noruega em 1262 e da Dinamarca em 1380. A autonomia veio há 90 anos, e a independência, apenas em 1944. Durante todas essas etapas, o controle externo da ilha se resumiu a formalidades. Ela sempre foi deixada à própria sorte. Sem fortalezas, castelos e catedrais, nada na Islândia evoca a grande história européia; o trabalho do homem é atestado antes de tudo pelo que não está mais lá: as árvores que não existem, a paisagem lunar restante. Uma nação feita de fogo, gelo, água e vento.

No verão de 1936, Auden não se deixou atrair apenas pela aventura do isolamento. Queria também conhecer o país das sagas. Ao lado de gêiser, saga é a palavra que os islandeses deram ao mundo. Significa "história", ou "o que se diz". São narrativas compiladas nos séculos XII e XIII que formam uma das grandes épicas da literatura universal. Morte, amor, vingança, corrupção. Junto com as Eddas - textos em verso e prosa que narram os mitos nórdicos -, são o patrimônio imaterial da Islândia, as catedrais que não se vêem. Os islandeses sabem que pertencem a uma nação porque, além do gelo e do oceano, eles têm as sagas.

Durante muito tempo, foi o que bastou. Ao cabo da Segunda Guerra a Islândia era um dos países mais pobres da Europa. Seus três grandes bens - a energia geotérmica, os peixes e as sagas - eram coletivos.

 

 
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