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música
Criador e criatura
O talento administrativo, o pulso firme e os atritos do maestro John Neschling com o governo e os instrumentistas da Sinfônica de São Paulo
ROBERTO KAZ
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O inspetor da orquestra acompanhava das coxias, em um monitor, a movimentação do maestro John Neschling, que, coberto de suor, regia os últimos instantes do Poema Sinfônico nº 3, de Franz Liszt. "Ele está vindo, ele está vindo", avisou, apressado. Um assistente se postou rente à porta, com a mão na maçaneta. Outro empunhou uma bandeja com dois copos d'água e uma toalha de rosto. Quando o maestro estava a 1 metro da saída, o inspetor Xisto Alves Pinto deu a ordem: "Pode abrir".

Neschling tirou os óculos, esfregou a toalha no rosto e perguntou:

- Começamos bem, não?

- O público gosta do senhor aqui no Rio - respondeu o inspetor da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp.

- É, somos muito amados no Rio.

- Muito bem, maestro - disse um músico. - E o senhor ainda diz que não gosta de Liszt.

- Não gosto mesmo - respondeu Neschling. - Acho ele superficial, mas esse prelúdio é lindíssimo.

Enquanto o palco era reorganiza-do para a próxima peça, o Concerto
nº 5 para piano e orquestra, de Beethoven, o maestro ficou lado a lado com o solista, o holandês Ronald Brautigam, que, naquela apresentação no Municipal carioca, ocorrida em outubro, tocava pela primeira vez com a sinfônica paulista. Os dois entraram, Neschling apertou a mão do primeiro violinista, o spalla Claudio Cruz, e cochichou: "E aí, doutor? Vamos mandar ver".

Dois dias depois, o crítico Luiz Paulo Horta escreveu no jornal O Globo: "Com a Osesp, passamos a dispor de uma orquestra de primeira linha à distância de uma ponte aérea. Ela dá a impressão de que sempre vai tocar bem, e de que isso não é fruto do acaso. Não é mesmo: são dez anos de trabalho contínuo. A isso deve somar-se o talento específico do maestro".

John Luciano Neschling tem 60 anos e medidas superlativas para cima e para os lados. Em dias de ensaio, veste sapato marrom, calça jeans azul, camisa pólo e, pendurado no pescoço, o crachá de identificação. "Quando o esqueço, faço questão de mostrar a carteira de identidade na entrada", explicou. Ele chega à sede da orquestra, a Sala São Paulo, por volta de nove e meia da manhã. Seu escritório, no 2º andar, é antecedido por um enorme retrato em preto-e-branco, no qual posa de fraque num palco, sentado sozinho em meio a várias cadeiras vazias, com as pernas cruzadas e a batuta na mão direita.

O gabinete tem cerca de 40 metros quadrados, com 6 metros de pé direito. Numa salinha anexa, um divã preto é usado para eventuais cochilos diurnos. As cadeiras são do designer húngaro naturalizado americano Marcel Breuer, formado pela Bauhaus. As paredes abrigam quadros de Nuno Ramos e de outros artistas brasileiros contemporâneos: "São todos meus, fazem parte de uma pequena coleção que tenho em casa", ele se apressou em esclarecer. O único quadro que destoa é uma reprodução da Pomba da Paz, de Pablo Picasso, que os músicos lhe deram de presente quando completou dez anos à frente da orquestra. Ao lado da pomba estão diversas assinaturas e algumas mensagens fraternais: "Estamos com você"; "Valeu, chefe, manda ver", "Ten more years and ten more years and ten more years".

Na mesa, repousa sempre um jarro de suco Clight e dois copos. Enquanto bebe, Neschling pergunta à secretária se há recados, assina documentos e passa os olhos numa partitura que pretende reger: "Quando a peça é difícil, começo a lê-la com um mês de antecedência", disse. Findo o ritual, desce à sala de concerto para o ensaio matutino, que começa pontualmente às dez da manhã e vai até o meio-dia.

Chegando ao palco, ele apresentou aos músicos o pianista britânico Peter Donohoe, a quem caberia solar com a orquestra durante os setenta minutos do Concerto para piano, opus 39, do italiano Ferruccio Busoni. Neschling sentou-se em um banco giratório, ajustado à altura da cintura para que a orquestra pudesse vê-lo, e falou da peça: "Esse concerto carrega a fascinação que os fascistas tinham pelo neoclássico, mas vocês precisam separar a estética da política. O Estádio do Pacaembu, por exemplo, é um exemplo de arquitetura fascista, e é lindo. A arquitetura fascista não era muito criativa, mas tinha certa harmonia". A pedido do pianista, iniciou o ensaio pelo quarto movimento, por ser o mais vibrante. "Ou os músicos vão rejeitar a peça", Donohoe avisou. Antes de levantar a batuta, Neschling fez uma ressalva: "O Busoni pede que o concerto seja feito sem pausa. Não dá para tocar por uma hora e dez minutos sem pausa. Vamos parar entre o terceiro e o quarto movimentos. Um minuto para a respiração, sem nova afinação, e voltamos".

Começaram.

Até a chegada de Neschling, a Osesp era comandada por Eleazar de Carvalho, único brasileiro que regeu as Filarmônicas de Nova York, Viena e Berlim. Ela padecia de verba curta, salário baixo e estrutura precária. Na falta de uma sede, ensaiava em um auditório no Caetano de Campos, um colégio público no centro de São Paulo. Com a morte de Eleazar, em setembro de 1996, o então secretário de Cultura, o advogado Marcos Mendonça, pediu aos músicos que fizessem uma lista de possíveis sucessores. "Eu colocava como condição que fosse um maestro brasileiro, para que conhecesse o modo de agir do brasileiro", contou Mendonça. Surgiram três nomes: Fabio Mechetti, hoje na Sinfônica de Jacksonville, John Neschling, então regente titular da Ópera de Palermo, e Roberto Tibiriçá, que está à frente da Filarmônica de São Bernardo do Campo. Mendonça optou por Neschling, que aceitou o cargo com três condições: sede própria, reavaliação técnica do corpo da orquestra e aumento salarial para os músicos que fossem aprovados.

No final de 1996, com o respaldo de um engenheiro de som americano, chegou-se à conclusão de que a Estação Ferroviária Júlio Prestes,

 

 
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