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Poemalândia

por CHELSEY MINNIS

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Chelsey Minnis nasceu no Texas em 1970 e hoje mora no Colorado. Os poemas aqui traduzidos são de Poemland, seu quarto livro, publicado em 2009 pela Wave Books. Desde então a poeta declarou ter abandonado a poesia. Tinha apenas 39 anos.

Em seus versos, Chelsey deixa claro que enjoou da poesia e de seu meio ambiente, das fórmulas cansadas, das dicções padronizadas; ora em ataque explícito, ora pelo frescor radical da própria escrita. Há muita poesia contemporânea que enfrenta essa crise por meio da ironia, do humor e do deboche, mas poucos, como Chelsey, conseguem imbuir nisso uma força emotiva.

Diante de um poema, antes de lê-lo, recebemos uma importante impressão estética e visual. Esses poemas de Chelsey são curtos, os versos são longos (estancados por elipses, um tabu poético) e há espaçamento entre os versos. Ela cria uma forma na qual o leitor tem tempo e espaço para pensar depois de cada verso, ela não teme isso. A poesia de Chelsey não é lida em mergulho, entramos degrau por degrau. Existe uma calma na apresentação do conteúdo, corroborada pela ausência de títulos.

Essa estrutura potencializa a justaposição dos elementos inesperados e inusitados de Chelsey. Tem um eco de Haikai em sua poesia pelo uso incessante de parataxes: imagens diferentes postas lado a lado para que uma nova sensação ou imagem seja criada. Chelsey leva isso ao extremo. Também é comum ela modificar as parataxes: “Os pescadores de caranguejo nem querem todos os caranguejos...querem dinheiro.../Mesmo com seus bigodes cobertos de gelo...” O raciocínio peculiar da palavra “mesmo” entrega seu sentimento.

Outro aspecto importante de sua poesia é o contexto indefinido dos poemas. Com frequência ela diz “isso é” ou “isso é como”, mas não é claro o que o “isso” é. Muitas vezes é o próprio poema, a consciência de estarmos lendo e sentindo, mas nem sempre. É como se ela escrevesse um poema mais longo e só nos mostrasse uma parte ou o final. Por isso seus poemas vivem melhor em cardumes grandes, há um efeito cumulativo. De contexto vago em contexto vago nos situamos dentro da poemalândia. 

Sylvio Fraga Neto

 

 

Desde menina não consigo ser dona de mim mesma em um quesito...

Minha melancolia!...

É como uma punição adequada para o sofrimento...

 

Pois é melhor do que uma felicidade medonha...

Melhor do que um exaustivo passarinho cantando.

 

 *

 

Esse poema é um mata-sonhos...

 

É como tentar quebrar a janela que gira...

E tentar empobrecer escrevendo...

 

Isso é como dizer a uma pessoa vestida de gorila que você não a ama.

 

 *

 

Poesia é como acordar bêbada num quarto amarelo-limão siciliano...

É uma estampa de flores murchas e pudendas...

 

É como arrancar seus curativos dormindo...

 

E um bilhete de despedida na gaveta do dinheiro...

 

 *

 

Isso é quando escrevo um poema para você...

Mesmo se você nunca o quisesse...

Talvez seja agradável mesmo assim...

 

Como um coquetel de frutas arremessado contra um espelho...

E camurça amarelo-verde caríssima...

E egoísmo hesitante!

 

 *

 

Quando tento escrever um poema ele me parece razoável...

Mas ele jamais poderá ser razoável...

Tem que ser agradável...

Pois é um pequeno bilhete que não foi incinerado!

É como um chicote trazido numa bandeja...

E você não deseja alguma coisa?

 

 *

 

Isso é quando você joga o sapato na porta...

E é como trazer a mão do homem mais velho até seu joelho...

E é como cutucar alguém com a própria muleta...

Seu comportamento não agrada a deus mas te agrada.

 

 *

 

Isso deveria ser um pensamento independente...

Mas é apenas uma coleira esticada...

 

Isso é um poema!

Acho que você não terá dificuldade em entendê-lo...

 

Seu primeiro tema é “beber como antigamente”...

 

 *

 

Num poema...

Você tem que criar um sentimento caridoso...

Mas eu o prefiro sem nada daquela espuma...

Gosto que seja bem antiquado e obsceno como uma stripper antiga...

 

 *

 

Se você quer ser escritor de poemas eu não entendo...

Dói como um vestido de manga bufante numa criança prostituta

 

Nada o faz muito verdadeiro...

A não ser a prometida sinceridade da morte!

 

 *

 

Se você morre todo mundo conta uma história triste sobre você!

E você depende da originalidade alheia...

E é entediante se é que alguém ouse admitir...

 

Não morra, senão todo mundo continuará preocupado apenas consigo próprio
e não com você!

 

 *

 

Quero sentar muito calmamente com minha franja cacheada...

Mas meu monstro de estimação mordeu minha mão!

 

A vida me deixa triste.

Tão triste que ando pela rua etc.

 

 *

 

Quando leio poemas não gosto deles...

Mas gosto deles como pufes de flor...

Gosto deles como serrotes dourados...

E gosto deles como a tosa marrom-escura de um carneiro!...

 

Encantar alguém sem propósito...

É como ser insultada e beijada por seu instrutor de equitação...

 

 *

 

Eu gosto de viver uma vida dura, mas sei que não deveria...

Tenho que viver uma vida fácil, senão serei otária!

 

Os caranguejos do mar tentam se agarrar em qualquer coisa.

 

Os pescadores de caranguejo nem querem todos os caranguejos... querem dinheiro...

Mesmo com seus bigodes cobertos de gelo...

 

 

 *

 

Isso é um presente, uma tesoura bonitinha...

Que você terá de usar para cortar seu cabelo de monstro...

Sou uma bebê vil...

Olha, morte, tenho muita comida deliciosa de abutre dentro da minha
cavidade torácica...

                 

 *

 

Nem tente dar as costas a uma menininha como eu!

 

Isso é uma recordação de alegria que deu errado...

E é uma troca de socos embaixo de um guarda-chuva...

 

Existe um jeito de fumar seu cigarro e olhar pela janela, mas você vai sempre querer mais.

 

 *

 

Se você se nega prazer, o que isso contribui às pessoas ao seu redor?

 

Você está tentando agradar a deus com algum bom comportamento.

 

Isso é um erro sombrio sombrio.

 

 *

 

Isso é quando você pensa estar conquistando a libertação do auto-repúdio através de ocupações e trabalho...

 

O poema segue no chão até grudar no seu sapato...

É flácido e macio como mousse de limão...

E manchas de sêmen no seu gorro...

 

 *

 

Com minha poesia, quero me blindar contra a poesia dos outros...

Isso é uma oportunidade para dizer a verdade...

 

Se você só tem um músculo-de-cabeça fraco como eu... então você entenderá...

Mas é triste ser seu próprio misógino...

 

 *

 

Você segue cambaleando e sempre seguirá cambaleando...

Você não está progredindo e então você tem má conduta...

E você começa a ficar excitadamente deprimida...

É como tentar beber uma garrafa de champanhe num banheiro de beira
de estrada...

Se escorando no mini corrimão da parede...

 *

 

É assim que se lida com um poema...

Primeiro você escreve, depois você risca tudo.

 

...

 

Eu devia ter contratado outra pessoa para escrever esses poemas...

 

Ah se eu tivesse vivido nos anos 70 eu poderia fumar no trabalho!

 

 *

 

Isso é como ter sua jaula empurrada de sala em sala...

E quando você cobre o joelho com a bainha da saia.

Isso é quando você pensa que deseja a vida mas você quer apenas dinamite...

 

Como você sente a vida?

Você pode olhar para cima, para deus...

 

 

 *

 

Com licença, mas estou muito cansada então tenho que deitar e adormecer
no lixo...

E é como dar uma volta num carro de palhaço...

Queria te curar da sua tristeza de galo...

Yes, baby, yes! Eu não sei nada...

 

 *

 

Um poema é o que resta da minha solidão perdida...

 

É como a janela que olha para dentro de uma piscina...

Ou uma fôrma de revólver vazia, em camurça...

E uma bebê gazela dada de presente...

 

 *

 

Agora que sou tão feliz, por que preciso da poesia?

Poesia é para jovens meninas egoístas...

Mesmo que sejam biscoitos amanteigados frescos...

Mergulhados em cocaína líquida...

 

Gosto disso como estar de mãos dadas do modo mais corrupto...

 

 *

 

Algumas pessoas sabem escrever mas não têm gosto...

Oh já vi isso muitas vezes...

 

Às vezes há um anti sentimentalismo premiado.

 

Não tem importância nenhuma... como não tem importância um
gatinho morto...

Isso é um gesto grandioso como se sentir entediado durante um show erótico...

 

 *

 

Isso é estar sexy demais numa cadeira desconfortável...

Isso é quando você se inclina sobre o parapeito e seu laço cai do cabelo....

É como levar um tapa na cara com um chumaço de dinheiro...

 

É bom como tambores cintilantes!

 

 *

 

Você deve ter alguma agenda para promover na poesia!

Como auto-piedade ou vingança...

Você tem que seduzir e contra seduzir...

E fulgir com luto sensual extremo...

 

Como um pôr do sol imerecido...

 

 *

 

Isso é uma boa coisa de se escrever...

Pois é um poema para ganhar dinheiro...

 

Tenho que escrever um poema com uma certa indiferença...

Mas é uma indiferença grandiosa...

 

Se isso é um poema de amor, é para você...

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