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A BOLA DA VEZ

Mascote da Copa é espécie ameaçada na vida real

por BERNARDO ESTEVES

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O zoológico do Rio de Janeiro é o único do país que exibe o tatu-bola, o pequeno mamífero escolhido como mascote da Copa do Mundo. Trata-se de uma fêmea que vive ali desde 1998, doada por uma moradora de São Gonçalo. Divide o cativeiro com duas araras-azuis-de-lear, também naturais da caatinga. Como se locomove com delicadeza e parece caminhar sobre a ponta dos pés, recebeu o nome da bailarina Ana Botafogo.

A iminência do mundial aumentou a frequência de visitantes interessados em vê-la. Numa tarde de maio, equipes de tevê da China e do Japão foram ao zoológico gravar. O gerente de biologia acompanhou os cinegrafistas ao espaço cercado e mostrou-lhes o bicho escondidinho, enrolado em posição de defesa. Um tatu-bola adulto mede cerca de 40 centímetros e pesa pouco mais de 1 quilo. Enrolado, tem textura áspera e o tamanho aproximado de um coco. A tatu-bola Ana Botafogo foi fotografada ao lado de uma bola de futebol e junto a um Fuleco de pelúcia.

Flagrar um tatu-bola na natureza é bem mais trabalhoso. As equipes de televisão precisariam contar não só com a orientação de um mateiro experiente, como também de alguma sorte – o animal anda cada vez mais raro. Por muito tempo se pensou que ele só vingasse na caatinga, vegetação predominante no semiárido do Nordeste. “Mas nos anos 90 encontramos uma população considerável da espécie no coração do cerrado”, contou Jader Marinho Filho, da Universidade de Brasília.

O tatu-bola do Nordeste tem o nome científico Tolypeutes tricinctus. Se quem nasce para tatu morre cavando, o bola foge à regra: ele e um parente próximo e pouco conhecido – encontrado no Centro-Oeste e em outros países sul-americanos – são os únicos da família que não fazem buracos. Confrontados com ameaças, os bola recorrem à singularidade de sua anatomia, enrolando-se na carapaça: sob o disfarce de uma pequena esfera, protegem-se de muitos de seus predadores. A estratégia, porém, facilita a vida dos caçadores. “Basta sacudir as folhas e ele vira uma bolinha que o sujeito bota dentro do bisaco e volta com o jantar garantido”, explicou Felipe Pimentel Melo, da Universidade Federal de Pernambuco. “Nem precisa gastar cartucho.”

A caça indiscriminada e a destruição progressiva do hábitat ameaçam a sobrevivência da espécie. “É um animal muito sensível à implantação de empreendimentos agrícolas e assentamentos rurais”, explicou José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco. “Quando há intervenções no ambiente, ele simplesmente desaparece.”

Considerada praticamente extinta em Sergipe, Pernambuco e Ceará, a espécie teve seu grau de ameaça aumentado numa avaliação divulgada no mês de maio pelo Ministério do Meio Ambiente. Antes “vulnerável”, ela agora é considerada “em perigo”.

 

O tatu-bola foi eleito pela Fifa como mascote da Copa por sugestão da ONG cearense Associação Caatinga. Parecia melhor que a encomenda: o animal é fofo, só existe no Brasil e ainda por cima se transforma numa bola. Estilizado, ganhou olhos verdes, carapaça azul e o nome de Fuleco, palavra que deveria remeter a “futebol” e “ecologia”. Decerto escapou a quem teve a ideia o brasileirismo “fulecar”, definido pelo dicionário Aulete como “perder todo o dinheiro que se leva ao jogo”; tampouco lhe ocorreu evitar a associação com adjetivos como “fuleiro” ou “furreca”.

Às vésperas do início do torneio, muitos ambientalistas lamentam o desperdício da oportunidade de combater o extermínio do tatu-bola. Rodrigo Castro, secretário-executivo da Associação Caatinga, esperava que Fuleco se apresentasse como um defensor da sua espécie e do seu bioma. Chegou a entrar em contato com a Fifa, com a ideia de criar um fundo para a conservação do animal, alimentado por uma pequena porcentagem da venda dos bonecos. As conversas não foram adiante. “Usam a imagem para gerar retorno financeiro, mas nada fizeram pela conservação da espécie”, disse. “Fuleco foi um fiasco como porta-voz de questões ambientais.”

Fazendo coro a essas queixas, um grupo de cientistas lançou no final de abril um desafio público à Fifa e ao governo brasileiro. Em artigo publicado numa revista internacional de biologia tropical, Felipe Melo, José Alves Siqueira e outros quatro colegas propuseram que, para cada gol marcado no mundial, fossem destinados 1 mil hectares de área preservada da caatinga. Se a medida valesse para a Copa de 2010, que teve 145 tentos anotados, a África do Sul teria ganhado uma unidade de conservação de tamanho quase igual ao do município de São Paulo.

A assessoria de comunicação da Fifa declarou que a entidade não responderia ao desafio enquanto não fosse formalmente notificada. Encaminhou também um documento com medidas de responsabilidade ambiental tomadas na organização da Copa, que incluem a reciclagem de resíduos e a compensação dos gases de efeito estufa emitidos durante o torneio. Nenhuma das ações contempla o tatu-bola.

Já o governo brasileiro lançou, no fim de maio, um plano para a conservação dessa espécie, uma das poucas a merecer atenção exclusiva das autoridades. Foram enumeradas 38 ações prioritárias para os próximos anos, visando coibir a caça, impedir a destruição do hábitat e incrementar as pesquisas sobre o animal. Mas não foram previstas novas áreas protegidas – segundo especialistas, a ação mais efetiva para evitar a extinção do bicho. O biólogo Ugo Vercillo, da coordenação de espécies ameaçadas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, disse que ao órgão interessa ampliar a área protegida da caatinga, mas que há vários fatores em jogo. “Criar unidades de conservação é um ato complexo.”

Não que os ambientalistas tivessem motivo para esperar algo diferente. Em quase quatro anos de mandato, o governo Dilma Rousseff demarcou apenas três unidades de conservação, em contraste com as 77 instituídas por Lula e as 81 de Fernando Henrique Cardoso. Na avaliação de Rodrigo Castro, “o momento para áreas preservadas no Brasil é dos piores da nossa história”. 

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