Estadão.com.br
‹ Ir para edição atual

Busca avançada





  • Edição 68
  • Edição 67
  • Edição 66
  • Edição 65
  • Edição 64
  • Edição 63
  • Edição 62
  • Edição 61
  • Edição 60
  • Edição 59
  • Edição 58
  • Edição 57
  • Edição 56
  • Edição 55
  • Edição 54
  • Edição 53
  • Edição 52
  • Edição 51
  • Edição 50
  • Edição 49
  • Edição 48
  • Edição 47
  • Edição 46
  • Edição 45
  • Edição 44
  • Edição 43
  • Edição 42
  • Edição 41
  • Edição 40
  • Edição 39
  • Edição 38
  • Edição 37
  • Edição 36
  • Edição 35
  • Edição 34
  • Edição 33
  • Edição 32
  • Edição 31
  • Edição 30
  • Edição 29
  • Edição 28
  • Edição 27
  • Edição 26
  • Edição 25
  • Edição 24
  • Edição 23
  • Edição 22
  • Edição 21
  • Edição 20
  • Edição 19
  • Edição 18
  • Edição 17
  • Edição 16
  • Edição 15
  • Edição 14
  • Edição 13
  • Edição 12
  • Edição 11
  • Edição 10
  • Edição 9
  • Edição 8
  • Edição 7
  • Edição 6
  • Edição 5
  • Edição 4
  • Edição 3
  • Edição 2
  • Edição 1


Compartilhar:

Poesia

por Roberto Pompeu de Toledo

Tamanho da letra:
Imprimir:

VOX ANIMALORUM

Em palpos de aranha, já farto,
ouvindo cobras e lagartos,
engulo sapos, dois a dois,
ponho o carro à frente dos bois,
tento, numa só cajadada,
pegar dois coelhos - que nada;
tropeço, insisto, arrasto as mágoas
.e dou com os burros n'água.

No mato, para onde corro,
percebo que estou sem cachorro.
Gato escaldado, mesmo fraco,
prossigo, e ao dar com os macacos
ordeno: "Cada um no seu galho!"-
mas se juntam e me avacalho.
Encaro a cobra e mato - mas qual!
.esqueço de mostrar o pau.

Agora chove, e é em vão que falo:
"Por favor, tirem o cavalo".
Aceito o abraço do urso, vacilo
às lágrimas do crocodilo,
ouso cantar de galo, e no ato
apanho o mico e pago o pato;
sofro, caio, trombo me aleijo
.enquanto a vaca vai pr'o brejo.

Engulo mosca além da conta,
giro como barata tonta,
e na hora em que a porca torce o rabo,
que vem a ser, ao fim e ao cabo,
a mesma em que a onça bebe água,
atraio a porca e a onça, afago-as,
apresso-me a fugir de esguelha
.mas fica a pulga atrás da orelha.

Ouço um tropel. O chão sacode.
Lá vêm: expiatórios bodes,
criadas cobras, negras ovelhas,
vacas de presépio em parelha,
espíritos de porco em revoada.
Ganho montaria p'ra escapada:
é cavalo dado, um presente
.mas não agüento e olho os dentes.

Pronto. Chega de estripolias.
Moral da história, exata e fria:
não fosse a bicharada amiga,
como expor as muitas intrigas,
as peripécias e as dissídias
que fazem parte desta vida?
Dito o quê, repouso das canseiras
.pensando na morte da bezerra.

 

RIMAS EM UNDA

Dona Raimunda,
ao dar no zôo com a cara infacunda
do camelo, pálpebras caídas
como gente moribunda,
pensou em livrá-lo de sina tão nauseabunda
e sugeriu:
-Afunda para dentro essa primeira corcunda,
afunda com jeito também a segunda,
acomode-as atrás, dá-lhes
acolchoada consistência e forma rotunda,
e verás que a felicidade te inunda,
pois.
.terás ganhado uma bunda!

 

RIMAS EM ARES

No início o casal era só olhares,
cantares, encantados vagares.
Sem falar nos abraçares, beijares,
e navegares em deliciosos mares.

Seguiram-se certas dores e azares,
mas nada que por algum momento
os castigasse com maior tormento.

Hoje, avançados no casamento,
engajam-se, a intervalos regulares,
Em relações sexuais protocolares.

 

BULLSHIT

Americanos dizem o palavrão "bullshit"
a tudo que lhes pareça fora de regra:
nonadas, despropósitos, tolices.
"Bullshit", repetem, volta e meia,
como se fosse o cúmulo
de coisa errada, ruim e feia.

E no entanto "bullshit", que nada mais é,
em tradução certa e decente,
senão bosta de boi (ou de vaca);
esse "bullshit", quando referente
à concreta e pura bosta bovina,
que coisa admirável denomina:
uma bosta boa, de exemplar formato,
densa consistência, tom esverdeado
do puro mato que é seu recheio,
não distante de um fruto na aparência,
e até, ao contrário do normal das bostas,
de cheiro agradável, para quem não vem
com preconceito ou demasiada exigência.

Entre as bostas de toda a animália,
o homem incluído, não há uma que valha
mais que a da vaca, razão pela qual,
em vez de coisa desprezível,
ruim, estapafúrdia ou banal,
a expressão "bullshit" devia querer dizer:
- que sublime!, que belo!
que coisa fenomenal!  

Visite a página da revista piauí no Orkut