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Ciência dos seres imaginários

Uma iniciativa britânica quer transformar a criptozoologia em coisa séria

por BERNARDO ESTEVES

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Em 2006, um pescador do vilarejo de Pantai Remis, na Malásia, capturou um peixe prateado comprido e estranho, com uma barbatana vermelha que lhe dava a aparência de um dragão. Recebeu uma oferta equivalente a 30 mil reais pelo animal, mas preferiu devolver o cadáver ao oceano, com medo de represálias. Um vereador explicou essa atitude a um jornal local: “Quem raptar o filho do rei Dragão do Mar está correndo atrás de encrenca.”

O pescador provavelmente havia capturado um peixe-remo, que vive em águas profundas e é dotado de uma nadadeira dorsal vermelha que se ergue da cabeça como uma grande crista. É um dos peixes mais compridos conhecidos – pode chegar a 17 metros. Embora não seja propriamente discreto, raramente é visto. Só em 2010 foi registrado pela primeira vez nadando no ambiente em que vive.

O peixe-remo é um forte candidato para explicar serpentes marinhas e outras criaturas fantásticas avistadas desde que os humanos aprenderam a navegar. Para o zoólogo Salvatore Siciliano, estudioso de mamíferos aquáticos na Escola Nacional de Saúde Pública, da Fiocruz, não é espantoso que haja tantos relatos do gênero. “Imagine um marinheiro em 1500 que estivesse navegando há meses e de repente se deparasse com um peixe desses com uma crista vermelha”, propôs ele. “Acharia que é um monstro.”

A investigação dos seres de existência incerta é chamada de criptozoologia – literalmente, estudo dos animais ocultos. Zoólogos mais puristas desdenham essa prática, que taxam de pseudociência e associam à procura de criaturas folclóricas como o pé-grande ou o chupa-cabra. Mas há quem defenda que é válido investigar esses relatos e que é possível fazer boa ciência sobre animais desconhecidos.

Essa é a proposta do Journal of Cryptozoology, uma nova revista que batalha pelo reconhecimento formal da criptozoologia ao lado de outros ramos da biologia. A publicação inglesa promete adotar o mesmo rigor dos periódicos científicos tradicionais na revisão dos artigos – é a primeira do tipo desde o fechamento da Cryptozoology, em 1996. Seu editor é o britânico Karl Shuker, zoólogo de formação e autor de livros e um blog sobre o tema.

Shuker contou ter recebido uma dúzia de artigos para a primeira edição, dos quais quatro foram selecionados para o volume de capa verde em formato de gibi lançado no fim de 2012. Apenas um é assinado por um autor vinculado a um centro de pesquisa – o paleontólogo Darren Naish, da Universidade de Southampton. Seu trabalho investiga o relato de um misterioso felino encontrado na Austrália e conclui: “Quase certamente se trata de um gato doméstico (Felis catus).”

Na avaliação do editor, os artigos de cientistas independentes não comprometem a qualidade da revista. “Enquanto respeitarem o método científico, não vejo nenhum problema.”

 

empreitada de Shuker não será mesmo fácil, a julgar pela reação do ornitólogo David Oren, que conheceu com suas próprias pesquisas o desdém que a criptozoologia desperta nos cientistas. Oren nasceu nos Estados Unidos, mudou-se para o Brasil em 1977 e trabalhou mais de 25 anos como pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém. Em 1996, tornou-se brasileiro – costuma dizer que é naturalizado paraense. É desde 2009 o coordenador de ecossistemas e biodiversidade do Ministério da Ciência.

Oren tem uma hipótese para explicar um dos mais emblemáticos personagens do folclore amazônico: o mapinguari, descrito em muitos relatos como uma criatura gigante e malcheirosa de pelagem avermelhada, que solta urros pavorosos e pode passar de 2 metros de altura.

Numa viagem ao Acre nos anos 90, Oren conheceu um homem que disse ter visto uma fêmea de mapinguari com filhotes e descreveu como eram as fezes do animal, qual era sua comida predileta e outros detalhes de sua biologia. “Eu estava diante de uma pessoa que claramente não estava mentindo”, disse o pesquisador num português sem sotaque. “A luz acendeu: o que esse homem estava descrevendo só podia ser uma preguiça-gigante.”

Oren se referia a um grupo de mamíferos que povoou o continente americano e se extinguiu há cerca de 10 mil anos. Ao contrário das preguiças atuais, que vivem em árvores, eram animais terrestres, alguns maiores até que os elefantes de hoje. Se uma espécie desse grupo tivesse sobrevivido até nossos dias, raciocinou, poderia explicar as aparições do mapinguari.

O pesquisador conseguiu da Fundação Boticário um valor que ele calcula ser o equivalente a 15 mil reais em dinheiro de hoje para organizar viagens de campo em busca de vestígios do animal. Fez cerca de dez expedições por vários estados, investigando as pistas dos relatos que ouviu. Encontrou sete caçadores que diziam ter matado um mapinguari e compilou mais de oitenta relatos de encontros com o animal. Coletou amostras de pelo, mais tarde atribuídas a cotias e tamanduás, e de fezes, que provavelmente eram de anta. Certa vez ouviu, mas não gravou, um grito assustador que podia ser de um mapinguari. O que Oren trouxe de mais convincente é uma pegada “absolutamente consistente” com a pata traseira de uma preguiça-gigante. A hipótese e a busca foram relatadas em dois artigos publicados em 1993 e 2001.

Oren disse que foi ridicularizado por mais de um colega por sua hipótese, mas não teve sua reputação comprometida. Admitiu que seu estudo “não deixa de ser criptozoologia, no sentido em que tratou de um animal não formalmente revelado ao mundo”. Mas se mostrou reticente quanto à ideia de publicar no Journal of Cryptozoology. “Tem um monte de doido nessa área”, disse ele. “Você não imagina os e-mails que recebo.”

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