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Uma gata que não gostava de leite

Pretinha se foi. E deixou mais saudade do que Tarsilas e Debrets

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Em meados de agosto, um incêndio destruiu o apartamento do marchand romeno Jean Boghici, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Com ele, foi-se parte do acervo privado mais importante da arte brasileira: o fogo consumiu os quadros Samba, de Di Cavalcanti, e A Floresta, de Guignard. Samba, avaliado em 50 milhões de reais e tido como uma das obras-primas do modernismo nacional, era a joia da coroa de Boghici.

Nas horas seguintes ao incêndio, o marchand permaneceu num apartamento vizinho, também dele, que não foi afetado pelo fogo. Recebeu amigos e pessoas ligadas ao mercado de arte, consternadas com o destino legado a Tarsilas, Volpis, Debrets e Krajcbergs que pendiam das paredes. No dia seguinte, quando voltou ao local da tragédia e viu enegrecido, chamuscado, destruído ou encharcado o acervo que montara nos últimos cinquenta anos, Boghici foi dominado por um pensamento: onde estava Pretinha?

Pretinha não estava.

Pouco depois, na portaria do edifício, o marchand declarou à imprensa: “Estou muito chateado, mas não é por causa do quadro, não. É por causa do meu gato, que morreu. Não quero saber de quadro, meu gato morreu.”

Achada em frente a uma padaria, Pretinha morava com Boghici havia doze anos. Dividia o apartamento de dois andares, na rua Barata Ribeiro, com as cadelas Maya (uma collie), Lady (rottweiler), e os gatos Félix, Belle, Mimi, Faísca, Neve, Simba, Bebê, Vagabond e Meu Amor – além dos parceiros de diminutivo: Tigrinho, Zebrinha, Branquinha, Cinzinha e Amarelinho. Eram, no total, nada menos do que dezessete animais morando no apartamento da família Boghici.

Pretinha era uma das preferidas. Junto com o gato Mimi, tinha o privilégio de dormir na cama com o marchand, sempre sobre o seu peito, cercada por quadros de Milton Dacosta, Antonio Bandeira e do italiano Giorgio Morandi. No café da manhã, comia a seu lado, em cima da mesa. Para Boghici, eram torradas com manteiga. Para Pretinha, ração Royal Canin, sabor gatos sensíveis. Não era dada a leite, atum, camarão e outras comidas de fácil apreço dos felinos de rua.

 

gata Pretinha se transformou numa Boghici quando Sabine, filha do marchand, foi à Pista Cláudio Coutinho num dia de semana – uma área de lazer administrada pelo Exército, na Urca – para alimentar os gatos ali abandonados. Repetia o ato com fre-quência, depois da faculdade, sempre acompanhada de uma senhora chilena e um pescador aposentado, ambos fascinados por gatos. “O pescador costumava levar sardinha”, lembra Sabine. “E eu levava ração, porque ninguém no Exército cuidava dos gatos.”

Naquele dia, ao parar numa padaria próxima à Pista (“Era onde eu comprava alguma coisa que faltava pros bichos”), Sabine avistou Pretinha. A gata estava largada, maltrapilha, assustada. “Ela riscava fósforo”, lembra Sabine, imitando, com um chiado, o barulho seco, de fósforo riscado, que os gatos fazem quando se sentem ameaçados. Resolveu pegá-la.

A casa, à época, já era habitada por dezenas de quadros (Boghici formou a maior parte da sua coleção nos anos 70), mas por apenas dois gatos: a primogênita Minouche e sua companheira, Gipsy. Pretinha foi a terceira. “Era uma das matriarcas”, diz Sabine. Machucada pelos anos de rua, demorou a se acostumar. “Ela era muito agressiva, dos gatos mais sofridos da casa; não queria receber carinho de ninguém. No começo nem sabia brincar.” Discreta, nunca arranhou nenhum móvel ou quadro da casa.

Com o tempo, os mimos reservados aos gatos de boa cepa trataram de amainá-la. Pretinha foi vacinada, castrada e tratada, com remédio e nebulizador, da rinotraqueíte que lhe atingia os pulmões. Apossou-se dos livros de arte, da secretária eletrônica e de uma poltrona Tenreiro, que passaram a lhe servir de suporte para as horas de sono. De manhã dourava a pelugem preta ao sol da varanda e, à tarde, assistia, com Boghici, à rede francesa TV 5 (gostavam do programa Le Plus Grand Cabarets du Monde, sobre circos). Quando chegava a hora de dormir, colocava-se à porta do quarto e, se o dono tardava, se metia a miar. O marchand costumava dizer que ela fazia parte da decoração da casa: “Ela ficava parada, feito um Buda, sem interagir muito com os outros gatos.” No dia do incêndio, foi encontrada sob a cama, morta por asfixia.

Uma semana depois, o corpo de Pretinha foi levado ao sítio da família, em Itaipava. Junto com ela estava o gato Meu Amor, recém-adotado, que também não resistiu ao incêndio. Os dois foram enrolados em folha de bananeira e, após breves palavras de Boghici, enterrados em covas no jardim, depois cobertas com pedras e orquídeas. Ao lado da mulher, Geneviève, e da filha Sabine, Boghici chorou, fez juras de amor e disse que, um dia, ainda há de reencontrar o seu bichano.

O cortejo foi acompanhado por quatro gatos, oito cachorros, seis coelhos e dois casais de pavão, todos moradores do sítio. 

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