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Merenda texturizada

O vegetarianismo chegou às escolas municipais paulistanas

por Paula Scarpin

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Vegetarianos são pontuais. Às 9h45 de uma segunda-feira de abril, o Plenarinho da Câmara dos Vereadores de São Paulo já estava lotado de pessoas trajando calças de algodão cru, sapatos de lona e camisetas com dizeres como “Eu curto brócolis” ou “Meat is murder” (“Carne é assassinato”). Uma mulher com um colete de awayo (tecido colorido de origem boliviana) se aproximou da vizinha de auditório: “Você já reparou que, quando a criança não quer comer, os pais insistem para ela experimentar ‘pelo menos a carninha’? Um absurdo”, disse, indignada.

O anfitrião, o vereador Roberto Tripoli, do Partido Verde, ocupou seu lugar ao centro da mesa, dando início ao 1º Seminário de Merenda Escolar Vegetariana da cidade de São Paulo. Tripoli idealiza o dia em que todas as escolas da capital oferecerão um cardápio alternativo sem carne aos alunos. Levou o tema à pauta da Câmara pela primeira vez em 2009. Após dois anos de negociações arrastadas, acabou por convencer a Secretaria Municipal de Educação a implantar a merenda vegetariana duas vezes por mês nas escolas em que o serviço é terceirizado.

Para não assustar os alunos de cara com um risoto de quinoa com pesto de rúcula, optou-se por introduzir no cardápio pratos vegetarianos “camuflados”, que imitam o gosto e a aparência de refeições com carne. Desde o começo do ano, 626 mil alunos da rede municipal são brindados a cada quinze dias com um menu vegetariano que alterna entre o escondidinho de PTS e o macarrão à bolonhesa de PTS. A sigla se refere à expressão “proteína texturizada de soja”, uma espécie de maçaroca com consistência de bacon. A iguaria é obtida através de um processo chamado extrusão termoplástica, no qual a farinha de soja é posta numa panela de pressão industrial e convertida em substância sólida, úmida e macia.

Antes de lançar a novidade, o Departamento da Merenda Escolar da Secretaria Municipal de Educação promoveu uma pesquisa para avaliar a aceitação do cardápio vegetariano numa amostra de 1 750 alunos. Os pratos foram aprovados por 54% dos estudantes da região central da capital – nas escolas da periferia, o índice de aceitação chegou a 65%.

Realizado cinco meses depois da implantação do novo cardápio, o seminário de merenda vegetariana não tinha como objetivo fazer um balanço preliminar da experiência. Em vez disso, almejava listar os perigos alarmantes do crescente consumo de carne e elencar as vantagens do vegetarianismo, de forma que não atraiu críticos à iniciativa. Quando, ao encerrar sua fala, Roberto Tripoli vaticinou que “o fim da alimentação com carne é uma questão de tempo”, foi retumbantemente ovacionado – estava pregando para convertidos.

 

ão aplaudida quanto ele foi a socióloga catarinense Marly Winckler, que encerrou a programação da manhã. Pioneira dos vegetarianos brasileiros, ela é presidente da sociedade que reúne os que não comem carne no país e não prova um mísero bife há quase trinta anos. Em 1995, radicalizou ainda mais seus hábitos alimentares e se tornou uma vegana, como são chamados aqueles que renunciam a qualquer tipo de alimento derivado de animais, incluindo leite e ovos.

Winckler inflamava a plateia a cada declaração apaixonada. Arrancou aplausos quando atribuiu ao consumo de carne o desmatamento da Amazônia e quando citou o prognóstico da ONU de que o rebanho criado artificialmente para suprir a alimentação humana dobrará até 2050. Guardou para o final um argumento para abalar as convicções dos eventuais carnívoros enrustidos. “Consumimos carne doente sem sabermos”, disse, em tom alarmista, referindo-se à quantidade de antibióticos ministrada aos animais. “Os remédios não estão mais fazendo efeito”, afirmou. “Em breve, uma dor de garganta vai nos levar ao óbito.”

Os que ainda tinham apetite depois da profecia aterradora foram se saciar com brócolis, feijões e, claro, PTS à vontade num restaurante natural a duas quadras da Câmara, recomendado por Tripoli.

A programação da tarde começou com outro vegano militante: o nutricionista Eric Slywitch, mestre pela Universidade Federal de São Paulo. Depois de rebater críticas recorrentes aos vegetarianos, defendeu a unidade da classe como se estivesse à frente de um stand-up comedy: “A gente precisa puxar o tofu para o nosso lado, né?”, concluiu, provocando risos na audiência. “Porque vegetariano não puxa a sardinha, puxa o tofu”, explicou.

Coube ao veterinário Wilson Grassi jogar a última pá de terra sobre o carnivorismo. Os slides apresentados por ele pretendiam mostrar que o consumo de carne estava na origem da maior parte das doenças infecciosas. “A tuberculose já teria sido excluída da humanidade se não fosse a relação homem–bovino”, afirmou. E provocou, com sarcasmo: “Se para cada quilo de carne bovina que o cidadão comprasse ele fosse obrigado a levar para casa 7 litros de fezes, isso não seria um problema.”

Assim que o veterinário devolveu o microfone ao suporte, o poeta Zé do Rio como que brotou do chão do plenário. Esperava a deixa. Carioca radicado em Caxias do Sul, vegetariano desde os anos 70, vestido todo de branco, com a barba grisalha presa numa trança, ele havia sido interrompido no início do evento, quando tentava declamar de improviso um poema de sua autoria: “Estado merdocrático de direita no Brasil/ Inserido na sifilização merdocrática planetária/ Mortos por enterrar, vítimas, feridos, doentes/ Enfermos por cuidar e estragos por consertar/ Deixados pela insanidade sifilizatória de todas as guerras.” Persistente, Zé do Rio então concluiu sua obra: “Anos dourados/ Anos rebeldes/ Ânus hemorroidicos com neoplasia de cólon/ Metástases intestinais, pulmonares, cerebrais/ Anos revolucionários.”

No coquetel de encerramento, o suco de abacaxi com hortelã e o bolo de chocolate (sem ovos ou leite, naturalmente) não chegaram a empolgar os comensais. Um jovem de dreadlocks, após conferir o menu, não teve dúvidas: enfiou a mão na mochila de lona e saiu comendo uma banana. Para que arriscar? 

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