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Pôr do sol em Ipanema

Humor do Méier ao Arpoador

por MARIO SERGIO CONTI

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Numa conversa de fim de noite, falou-se de morte. O tom era sorumbático até que Millôr Fernandes, com mais de 80 anos, contou como desejava que fosse a sua: “Quero morrer com três tiros no peito, disparados pelo surfista que me pegou na cama com a namorada dele.”

O chiste é engraçado e verdadeiro: ele queria morrer no auge, numa delinquência safa e na contramão dos bons costumes. O senso comum recomenda que octogenários fiquem em casa de bermudão, tomando sopinha, vendo o Faustão e dispensando conselhos dispensáveis às jovens gerações. Já Millôr queria se entreter – e aprender – nos braços de uma beldade em flor vinda da praia. Morrer assim seria bom.

A conversa foi num restaurante na praça General Osório, perto do seu estúdio e a algumas quadras do seu apartamento. Tudo em Ipanema. Millôr não era brasileiro, sequer carioca. Era um ipanemense que sentia saudades da beira-mar já na Via Dutra, ele dizia, adaptando um dito de Nelson Rodrigues.

Ele morou ali desde 1954, quando o bairro tinha ares de arrabalde arenoso. E foi o homem que, individualmente, mais contribuiu para definir a identidade de Ipanema – mais que qualquer um da turma da bossa nova, d’O Pasquim, das dunas da Gal ou do verão da lata. Nada mal para quem veio pobre e órfão do Méier, morou de favor na casa de parentes, educou-se sozinho e começou a trabalhar como jornalista aos 14 anos.

A projeção nacional de Ipanema teve mais a ver com a personalidade do que com algum plano meticulosamente matutado de Millôr. Ele era espontâneo, afetuoso e expansivo. Expandiu-se tanto que fez com que o bairro viesse a ter traços seus. Festejar a beleza dos corpos ao ar livre, tomar parte de conversas boêmias noite adentro, rir dos poderosos e das autoridades, caminhar ao léu de manhã contemplando o mar e as moças – ele sempre fez tudo aquilo que acabou sendo associado ao folclore de Ipanema.

Passaram-se os anos e a imagem folclórica se esvaneceu. Ipanema ficou mais comercial, tensa, controlada. O que era estado de espírito virou marketing. Mas Millôr continuou leve. Comentava cada loja que abria ou fechava. Jogava conversa fora como se tivesse a eternidade à frente. Puxava papo com motoristas de táxi. Nunca foi visto de mau humor ou preocupado, e muito menos angustiado. Dizia-se “escandalosamente feliz”.  O que devia ser verdade: fazia o que gostava e morava onde queria, de frente para as ilhas Cagarras, e comemorava: “Que bom que as gaivotas continuam cagando nas Cagarras.”

 

ra um tipo, quiçá só ele: o otimista racional. Numa das últimas conversas, quando suas dificuldades motoras se aceleraram, perguntado como ia indo, Millôr respondeu rindo: “Melhor do que amanhã.” Sentia que a vida lhe escapava e o futuro seria pior, mas isso não o deixava macambúzio. Ao contrário. Concluía que era melhor aproveitar o dia presente, e nele se deliciava.

Quando lhe falavam do presente de urbanização selvagem, de especulação imobiliária voraz, de mazelas de hospitais e escolas, de mercantilização que corrói a alma das gentes, era taxativo: “Nunca vivemos tão bem.” Certa vez tomou como exemplo a Belle Époque. Disse que os pobres de Paris, naquela época bela, eram atulhados em cortiços sem calefação e água encanada. Não dispunham de anestesia, penicilina e outros antibióticos. Morriam mal entrados nos 30 anos, sujos e sem dentes, embrutecidos por catorze horas diárias de trabalho insalubre. Já as senhoras ricas tinham que arrastar vestidos e espartilhos pela neve enlamea-da quando iam à ópera, e aturavam maridos de cartola e ceroulas.

Esse otimismo não tinha nada de panglossiano, pois combinava com um realismo cru, quando não cruel. Millôr sabia bem o que eram a miséria, o desamparo, a injustiça e a falta de futuro. Vivera-as na infância e elas continuavam ali, na janela do seu estúdio, de onde via a favela do Cantagalo. Cético, descria de sentimentos nobres e projetos redentores. Prezava, isso sim, a crítica. Mas desde que fosse feita com graça. “Eu sou engraçadinho”, era como ele se autodefinia. O que não queria dizer “pouco engraçado”, mas caracterizava alguém petulante, meio moleque, que gostava de chamar atenção.

Millôr achava que não fizera uma obra. Menosprezava a ambição de fazê-la. Dizia que obra era coisa de pedreiro e ele era jornalista. O que impressiona na sua obra (se obra for) é a variedade e a abundância. Ele escreveu peças, poemas, artigos, roteiros e dava seus passeiozinhos ensaísticos. Pintava, desenhava, fazia aquarelas e murais. Usava pincel, crayon, grafite, nanquim e computador para criar quadros, charges, cartuns, tiras, quadrinhos. Editava, traduzia – do inglês, do francês, do italiano, do espanhol e do alemão –, construía cenários e até compôs música, foi apresentador de shows de televisão e entrevistador de jornal.

Tudo com beleza e aos borbotões. Sua inventividade atravessava fins de semana, feriados e férias. As noções de trabalho e prazer se confundiam no que fazia. Estava sempre em ação, bolando algo que o divertia e lhe dava sustento. Reuniu em A Bíblia do Caos mais de 5 mil das suas frases exemplares. Pois o original do livro tinha nada menos que 11 mil delas, e não foram todas. Sua energia era assombrosa.

Apesar da produção colossal, Millôr não afrouxava os seus critérios, que eram rígidos. Pesquisava, caprichava, se aplicava a fundo. Lia sem parar, sobre os assuntos mais variados. Medicina, matemática, filosofia, poesia, o que achasse bacana. Era de um saber enciclopédico, tanto que a sua Enciclopédia Britânica dava mostras de ter sido compulsada continuamente. Sobre humor, estudou tudo de teórico que havia a respeito, de Bergson a Freud. Não concordava com nenhuma das teorias in totum: aceitava partes, sobretudo as que conflitavam.

 

om toda essa criatividade, com essa erudição em campos díspares, Millôr tinha fôlego curto. Não escreveu nada longo. Seus livros eram coletâneas do que havia publicado em jornais e revistas para fruição imediata. Suas formas eram tantas que não chegou a eleger uma forma principal, na qual seu talento se cristalizasse em toda a sua complexidade. Criava para o cotidiano, e não para o infinito. Daí ele achar que não fizera uma obra e que era um jornalista.

 Um jornalista corajoso. Foi censurado quando quis ler uma nota na televisão informando que a primeira-dama Sarah Kubitschek voltara de uma temporada de meses na Europa e o seu compromisso, ao desembarcar, seria receber a Ordem do Mérito do Trabalho. Editou O Pasquim quando a ditadura militar estava no apogeu. No próprio número em que foi suspensa a censura, escreveu um editorial alertando: “Sem censura não quer dizer com liberdade.” Quando achou que seus direitos trabalhistas haviam sido violados, processou O Cruzeiro, a Rede Globo e a Veja.

Millôr foi também um jornalista generoso. Entusiasmou-se com piauíquando a revista era ainda uma ideia, ajudando a defini-la. Com a revista criada, foi um colaborador e um crítico que nos tratava de igual para igual. Fez artigos, capas e desenhos para ela. Telefonava todo início de mês e anunciava: “Lá venho eu com minhas admoestações.” Dizia o que achara da edição, apontava bobagens, elogiava e sugeria reportagens e artigos. Fazia isso por coleguismo e amizade, sem querer dar lições. Não falava nunca “no meu tempo”. Millôr queria uma revista bem-feita no presente.

Ele tinha horror às estátuas de jornalistas que enfeiam a orla carioca. Achava-as o cúmulo da vaidade e do ridículo. Uma vez, avisou: se quiserem me homenagear postumamente, não me venham com estátua. Façam no máximo um banquinho e o ponham no alto da pedra do Arpoador. Para que alguém possa sentar e ver com calma o pôr do sol em Ipanema.

Millôr Fernandes morreu no dia 27 de março. Tinha 88 anos. 

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