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O centro do universo

por SIMON RICH

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No primeiro dia, Deus criou o céu e a terra. “Faça-se a luz”, Ele disse, e a luz se fez. E Deus viu que isso era bom. E logo anoiteceu – a primeira noite.

No segundo dia, Deus separou os oceanos do céu. “Faça-se o horizonte”, disse Ele. Eis que surgiu um horizonte e Deus viu que isso era bom. E aí anoiteceu – a segunda noite.

No terceiro dia, a companheira de Deus apareceu e disse que Ele andava meio distante nos últimos tempos.

“Desculpe”, disse Deus. “Essa semana tá uma loucura lá no trabalho.”

Ele sorriu para ela, mas ela não sorriu de volta. E Deus viu que isso não era bom.

“Não vejo mais você”, ela disse.

“Não é verdade”, disse Deus. “A gente foi ao cinema na semana passada.”

Aí ela disse, “Mas isso foi no mês passado.”

E aí anoiteceu – uma noite tensa.

No quarto dia, Deus criou as estrelas, para dividir luz e escuridão. Ele estava quase terminando o serviço quando bateu o olho no celular e se deu conta de que eram quase nove e meia.

“Putz”, Ele disse. “A Bebel vai me matar.”

Ele acabou de fazer a estrela na qual estava trabalhando e voltou de táxi para o apartamento.

“Desculpe o atraso!”, Ele disse.

E eis que ela nem respondeu.

“Tá com fome?”, Ele perguntou. “Faça-se o iogurte!” E fez-se aquele iogurte esquisito de baixa caloria que ela tanto gosta.

“Não vai funcionar dessa vez”, ela disse.

“Olha”, Deus disse. “Tô sabendo que tá difícil pra gente. Mas é um trabalhinho temporário. Assim que eu conseguir pagar minha bolsa de estudo, vou procurar alguma coisa com horário mais decente.”

Ela disse para Ele: “Euzinha aqui faço horário integral no serviço. E, mesmo assim, sempre arranjo tempo pra você.”

E Ele disse para ela: “Mas seu trabalho é diferente.”

E eis que Ele percebeu que tinha acabado de dar uma tremenda pisada na bola.

“Você tá querendo insinuar que o meu trabalho é menos importante que o seu?”, ela disse.

“Não!”, Deus disse. “Claro que não! Eu sei a barra que é trabalhar com moda. Fico totalmente besta de ver o que você faz!”

“Hoje tive que encarar catorze clientes, por causa da Fashion Week. Nem tive tempo de almoçar.”

“Caramba”, Deus disse. “Você trabalha pra caramba.”

“Como é que você sabe? Você nunca pergunta como foi meu dia! Fica aí só falando do seu trabalho, horas e horas, como se você fosse o centro do universo!”

“Faça-se uma massagem nas costas”, disse Deus.

E Ele começou a fazer uma massagem nas costas dela.

E ela disse para Ele: “Dava pra você tirar uma folga amanhã,  por favor?”

E Ele disse: “Mas você não tem que trabalhar amanhã? E a tal Fashion Week?”

“Posso ligar lá e dizer que eu tô doente.”

E Deus teve ganas de dizer: “Se o seu trabalho é assim tão importante, como é que você pode tirar folga quando te dá na veneta?”

Mas Ele sabia que essa não era uma boa ideia. Por isso, Ele disse para ela: “Tô de folga no domingo. Vamos sair, domingo.”

 

o quinto dia, Deus criou os peixes e as aves para que nadassem no mar e voassem pelos ares, cada qual de acordo com sua espécie. Daí, para ganhar uns pontinhos com a patroa, encostou a porta da sala e ligou para a Bebel.

“Que alegria ouvir sua voz”, ela disse. “Hoje tá impossível aqui.”

“Me conta tudo”, Ele disse.

“A Carol vai dar uma festa semana que vem para a Tati, mas o caso é que a Tati não tá nem aí, e eu tô agoniada porque nem sei se a festa vai rolar mesmo.”

“Nossa, que loucura”, Deus disse.

E a Bebel seguiu contando para Ele sobre as amigas dela, que elas tinham brigado umas com as outras, cada qual de acordo com sua espécie. E, enquanto ela repetia sei lá o quê que a Tati tinha dito para a Carol, Deus teve uma ideia sobre uma das criaturas que deveriam povoar a terra. Mas não podia largar o telefone, pois a Bebel não parava de falar. Daí, Ele cobriu o bocal e sussurrou: “Façam-se os elefantes.” E fizeram-se os elefantes, e Deus viu que isso era bom.

Mas eis que ela ouviu Deus criar os elefantes.

“Deus do céu”, ela disse. “Você não tá prestando a menor atenção em mim.”

“Bebel...”

“Lógico!”, disse ela. “Você tá muito mais preocupado com esse seu planeta idiota aí do que comigo!”

Deus teve ímpetos de corrigi-la. Não era só um planeta que Ele estava criando. Era todo um universo. Ele sabia, porém, que não era boa ideia dizer um troço desses naquela hora.

Daí, Ele disse: “Foi mal. Escuta. Me perdoa, vai!”

Mas eis que ela já tinha desligado na cara Dele.

No sexto dia, Deus ligou para o escritório dizendo que estava doente e fez uma surpresa para Bebel na loja dela, no Centro. Ela estava nos fundos, lendo uma revista.

“O que você veio fazer aqui?”, ela perguntou.

“Matei o trabalho”, Ele disse. “Quero passar o dia com você.”

“Mesmo?”, ela disse.

Mesmo”, Ele disse.

E ela abriu um sorriso tão luminoso que Ele sacou que tinha feito a coisa certa.

Eles compraram umas cervejas e foram beber numa esquina do Baixo Gávea. Bebel ensinou para Ele um joguinho que a Tati tinha ensinado para ela, chamado “Verdade ou Desafio”.

“Não sei se eu tô muito a fim de joguinho”, disse Deus. Mas ela acabou fazendo com que Ele jogasse e, depois de alguns lances, Ele viu que isso era bom. Eles jogaram a tarde toda, rindo muito das respostas que o outro dava. Quando começou a esfriar, Deus esfregou os ombros dela, e ela o beijou no pescoço.

“Sabe o quê que eu gostaria de fazer agorinha mesmo?”, disse Bebel. Deus ficou de orelha em pé.

“O quê?”

“Ir ao cinema”, ela disse.

E Deus riu, porque era exatamente isso que Ele queria fazer. Eles decidiram ver Os Normais, porque tinham ouvido falar bem do filme. Curtiram adoidado e, no fim, pegaram um táxi, por conta de Deus, que era para não terem de esperar a noite toda pelo circular Gávea-Leme.

“Te amo”, disse Bebel, sonolenta, no banco de trás. “Te amo pra caramba.”

“Também te amo”, disse Deus. “Pra caramba.”

E ambos viram que isso era bom.

No sétimo dia, Deus largou o emprego. Não acabou nunca de fazer a terra. 

 

Tradução de Reinaldo Moraes

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