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Coreógrafa de percursos

Uma jovem arquiteta brasileira em ascensão revisita o passado

por Bernardo Esteves

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A série de desenhos mostra um conjunto de pontes e caminhos cobertos que atravessam uma paisagem bucólica em plena floresta boreal canadense. Um dos percursos que corta o rio é protegido por paredes altas de aço, com uma abertura no topo que permite entrever o céu e a copa das árvores ao redor. A estrutura é vazada no chão em alguns pontos, de forma a deixar entrar o som e o reflexo das águas. Em intervalos regulares, pequenas escadas dão acesso a pontos com vista panorâmica para a paisagem. “A ideia é que as pontes funcionem como lentes através das quais podemos interpretar o local”, explicou a autora do projeto, a arquiteta Leticia Wouk Almino. “É um percurso coreografado”, definiu.

Um esboço do projeto foi reproduzido na edição de dezembro da revista A primeira infância vai ao teatro, a bíblia do design, moda e artes gráficas. Ilustrava um perfil de Leticia, numa seleção de jovens talentos apontados pelos editores de várias áreas. Dentre as trinta apostas da revista para a arquitetura, ela é a única brasileira.

 

Leticia Wouk Almino se formou em arquitetura pelo Barnard College, ligado à Universidade de Columbia, em Nova York, e acaba de concluir o mestrado pela Universidade Yale – tudo isso aos 25 anos. Mora no Brooklyn, em Nova York, e trabalha desde agosto último no escritório do americano Robert A. M. Stern, figura de proa da arquitetura pós-modernista. Elabora atualmente o projeto de uma capela para uma universidade na região de Washington.

 

eticia nasceu em Curitiba e é filha do escritor João Almino e da artista plástica Bia Wouk. Por influência da mãe, cresceu em meio a lápis e pincéis e desenha desde pequena. “Foi por aí que comecei a me interessar por arquitetura”, contou. Ainda hoje, o desenho é para ela a mais prazerosa atividade da sua prática profissional, que ela exerce também como hobby.

Como o pai era também diplomata, Leticia teve uma vida nômade. Morou em Brasília, Washington, São Francisco, Lisboa, Londres e de novo na capital federal, antes de se fixar nos Estados Unidos para os estudos. Fala um português fluente, embora a hesitação na busca de algumas palavras revele maior familiaridade com o inglês.

Também devido às sucessivas mudanças na infância e na adolescência, as referências espaciais que marcaram seu imaginário são incomuns. “A maioria dos arquitetos se lembra dos espaços onde nasceu e se criou, mas para mim isso é meio confuso”, contou. Para ela, as imagens mais marcantes vêm do cinema, de filmes de Hitchcock, Fellini e Truffaut. “L’Avventura, do Antonioni, tem vários espaços abertos com sombras contrastantes que ficaram na minha cabeça”, disse. “Filmes como esse são uma influência difusa nos meus desenhos.”

 

m abril de 2010, Leticia Wouk Almino ganhou uma das quatro bolsas oferecidas anualmente pelo KPF, um dos maiores escritórios de arquitetura do mundo. A bolsa é concedida a estudantes em vias de obter o diploma, para uma viagem de formação. A brasileira escolheu fazer uma jornada em busca de suas origens e passou três meses no Brasil. A ideia era entender a organização do espaço público nas três cidades que já serviram de capital – Salvador, Rio de Janeiro e Brasília –, tendo Lisboa como referência.

Durante três meses, ela bateu perna, fotografou e tomou notas. “Depois que voltei, passei o último ano escrevendo, fazendo mapas e colagens com as fotos que tirei durante a viagem”, contou. O material foi organizado na forma de um livro, que reunirá textos, imagens e mapas elaborados por ela. “O material está em inglês, mas gostaria que fosse publicado também no Brasil”, ela disse.

Aos seus olhos, Brasília assume, na época da seca, ares da capital de um império decadente: “Com todos os prédios cobertos por aquela terra vermelha, parece que você está visitando uma grande metrópole de 2 mil anos atrás.”

Letícia se interessou especialmente por entender como as pessoas se apropriam das praças nessas três cidades, e se os prédios em torno delas configuram um espaço convidativo ou intimidador. “Quando o Rio e Salvador eram capitais, a população se reunia mais nos espaços públicos, mas as praças hoje estão num estado péssimo”, constatou.

Seria um sinal de que a praça não é mais do povo? “A praça é o espaço do público para divulgar e trocar ideias, mas é ao mesmo tempo um espaço controlado pelo poder”, disse. “É mais fácil controlar o povo em grandes espaços abertos. É difícil fazer uma manifestação em Brasília, porque a escala é monumental. Quinhentas pessoas juntas parecem um pingo no meio do oceano.”

Para a arquiteta, a viagem funcionou como uma redescoberta do Brasil. “Eu passava os dias sozinha, caminhando e fotografando as cidades, e à noite jantava com velhos amigos de família com quem tinha me hospedado”, contou. “Foi um reencontro com meu passado.”

Mas não se deve aguardar para breve um retorno de Leticia Wouk Almino ao Brasil. Ela tem essa perspectiva no horizonte, mas antes disso espera trabalhar na Europa. Numa eventual volta, gostaria de se instalar em São Paulo, onde “a arquitetura é muito interessante, apesar de ser uma cidade complicada”. J

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