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A clonagem

Sem vergonha, o Brasil continuará sua rota na direção do capitalismo total. Mas seguirá batendo recordes de desigualdade moderna

por Francisco de Oliveira

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Luiz Inácio Lula da Silva, então no auge da popularidade, acreditou em suas virtudes mágicas, e daquela popularidade clonou sua candidata à Presidência da República. Ela, afinal, ganhou sem muita dificuldade de José Serra, a caminho de ser conhecido como Zezinho Três Quedas.

Mas, se mesmo em biologia a clonagem tem vida curta – a ovelhinha Dolly, copiada geneticamente pelo cientista Ian Wilmut, por exemplo, não durou muito tempo –, em política ela é um expediente cujo artifício se desmancha com rapidez.

Assim, todas as dificuldades até aqui enfrentadas pela presidente Dilma Rousseff não são mais que a morte precoce da clonagem efetuada por Lula da Silva. Mas ela acreditou e aceitou o truque, até porque a tramoia integrava a montagem da sua imagem pública, que resultou na figura de todo-poderosa ministra-chefe da Casa Civil.

O truque não consistiu em tirar do bolso do colete uma candidata cuja história prévia no Partido dos Trabalhadores praticamente não existia. E tampouco lhe assegurava imunidade às trapaças internas que caracterizam hoje o partido que um dia foi a esperança de renovação da política brasileira. O mandato inicial do PT era o de levar mais adiante um tímido programa social-democrata, cujo arremedo já era ensaiado desde os dias em que Ulysses Guimarães elaborou o programa do antigo MDB.

Na verdade, apesar da retórica, desde o Bolsa Família e agora o Brasil sem Miséria, a política social sob Lula da Silva tem andado em franca regressão. Ela decaiu do patamar de política pública para o da caridade estatal. Deixou a tutela de são Marx para regressar às bênçãos de são Francisco. Nada contra, como diz frequentemente Clóvis Rossi. Até porque o grande santo de Assis, na Itália, dificilmente é ultrapassado por qualquer outra personalidade histórica, e se Lula da Silva tem essa pretensão, então a sua necessidade de psicanálise é ainda mais urgente.

É bem verdade que a celebrada intuição do ex-presidente sindicalista disse-lhe ao pé do ouvido, como faziam as antigas raposas do PSD mineiro, que o mensalão liquidou com as lideranças mais importantes do PT. E, portanto, convinha sair-se com outra esperteza para prolongar a Era Lula – Sérgio Motta, o gordo sinistro que já se foi, pensava num domínio tucano por vinte anos, e tudo durou tão somente os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso.

Sem discutir nenhum dos méritos pessoais de Dilma Rousseff, é evidente que as suas dificuldades no Planalto decorrem da clonagem que Lula da Silva efetuou. Tal clonagem não consiste em tirar “ovelha” da cartola, como fez Ian Wilmut, mas em tentar anular a política por meio de uma simulada coalizão de interesses que negava a luta de classes, da qual Lula nunca gostou, apesar de ter crescido dentro dela.

 

ão é o arco nominal de alianças, que vai desde ele mesmo até seu antigo desafeto Fernando Collor de Mello, passando por José Sarney e Paulo Maluf, que explica a situação do ex-presidente, mas a mágica de transformar a miséria em ativo financeiro. É isso o que o Bolsa Família faz. Oito anos de governo liderado pelo PT destinaram ao ano cerca de 14 bilhões de reais para os pobres, e mais de 200 bilhões de reais para os detentores de títulos da dívida pública interna.

Marcio Pochmann, que presidiu o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, naqueles tempos e hoje, fez os cálculos: umas 15 mil famílias detêm os tais títulos brasileiros; e os que estão nas mãos de estrangeiros, entre os quais grandes instituições financeiras mundiais, constituem uma das fatias mais importantes. O mundo todo se rendeu a Lula da Silva.

Os profissionais, contudo, sabem: o pior mágico é o que pensa que faz mágicas. O avalista dos títulos da dívida pública interna, esse milagre brasileiro, é o Bolsa Família – isto é, os pobres. E agora são os miseráveis. Quem diz isso é André Singer, o ex-porta-voz do presidente e professor de ciência política que, numa investigação que requer coragem intelectual e política, dedicou-se a estudar o que ele mesmo chama de “as bases sociais do lulismo”.

Assim, a Presidência de Dilma Rousseff saiu de uma crise para capotar na seguinte. Não é a sua inabilidade, nem a proclamada dureza, ou mesmo a falta de charme, que lhe causam dificuldade, mas o artificialismo da coalizão de interesses que Lula da Silva armou. Na sequência da Presidência FHC, que lhe deu de presente a estabilidade monetária, sem a qual nem os pobres nem os ricos receberiam uns as migalhas e outros os bilhões que Lula os presenteia, nem a coalizão resistiria aos oito anos e agora aos prováveis mais oito de Dilma Rousseff – ou equivalente. A coalizão se baseia nessa esdrúxula somatória que Lula da Silva pensa que inventou.

A ignorância histórica é uma má conselheira: o PRI, o Partido Revolucionário Institucional, do México, que nasceu da liderança de Lázaro Cárdenas, já havia realizado façanha semelhante desde 1935, criando um esquema que durou quase meio século. Depois, o que sobrou para os mexicanos? Sobrou uma direita superagressiva, a corrupção disseminada, um país dominado pelo narcotráfico, o desmonte do Estado, uma perda de independência quase total do México, que segue preso entre as engrenagens da dependência dos Estados Unidos, nos marcos do Nafta, o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio. Já dizia Porfirio Díaz,que conhecia o assunto, pois governou o país por três décadas com mão de ferro: “Pobre México, tão perto dos Estados Unidos e tão longe de Deus.”

Não há nenhum catastrofismo pela frente. O Brasil continuará em sua rota na direção do capitalismo total, sans ambages, sem vergonha diríamos melhor, já a sexta economia capitalista do mundo, caminhando para superar várias potências europeias, ante as quais antigamente nos curvávamos. Ingressamos, finalmente, no clube dos ricos. Não sem paradoxos muito fortes, como acontece frequentemente: Carlos Slim, do México, quase sempre está à cabeça dos mais ricos, e o Brasil já tem dois ou três capitalistas nesse time. Par contre, como dizem os franceses, continuamos a bater recordes de desigualdade moderna, e não à antiga, que, como é de bom-tom, atribuíamos às nossas heranças históricas.

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