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Traumatizados do trânsito

Uma autoescola para medrosos

por Clara Becker

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Andreia Ramos arrancou o carro bem devagar, esticou demais a primeira marcha e pediu desculpas. Não estava acostumada com o Gol, geralmente pegava um Celta. Era a sua trigésima aula na Dirigindo Bem, centro especializado no treinamento de motoristas com fobia no trânsito. Assim que tirou a carteira de habilitação, Andreia pegou o Fusca do pai para passear. Entrou numa rua sem saída e perdeu o controle do volante ao fazer o balão. A curva era acentuada demais, ela bateu com o para-lama numa pedra e foi parar contra o muro. O carro sofreu alguns arranhões – menos do que a motorista, que desde 2005 não consegue dirigi-lo, com medo de se envolver em outro acidente.   

Naquela quinta-feira de maio, Andreia completava 27 anos de vida. Seu objetivo era dar uma volta por Vila Valqueire, na Zona Oeste carioca, para praticar a direção em trânsito médio. A jovem mignon acomodou-se quase colada ao volante. No primeiro quebra-molas, freou bruscamente, esqueceu-se de reduzir a marcha e mais uma vez pediu desculpas.

“A maioria dos nossos alunos são muito perfeccionistas, não aceitam errar”, comentou calmamente Márcia Lima, a instrutora. Márcia é especialista em acalmar motoristas inseguros. Repetir palavras, ela explicou, é proibido. Nada de exclamações do tipo “Freia! Freia!” ou “Vira! Vira!”. Quando Andreia subiu no meio-fio, limitou-se a perguntar: “De zero a dez, quanto você diria que está sua tensão agora?” 

“Antigamente, o carro já teria morrido e eu estaria muito nervosa”, disse Andreia, parada entre um ônibus e um caminhão, dois fantasmas recorrentes entre os que procuram a Dirigindo Bem. Mas são a marcha a ré e as ladeiras que garantem o ganha-pão da empresa. Andreia fez oito aulas só de ré, seu calcanhar de Aquiles. “A impressão que dava era de que o carro não obedecia, eu queria ir para um lado e ele ia para o outro”, ela disse. “Agora entendi que sou eu quem controla a máquina.”

A Dirigindo Bem nasceu, em 1999, em decorrência de um questionário que Sergio Santos distribuiu entre os ex-alunos das suas três autoescolas. A pesquisa revelou que 80% dos seus pupilos eram aprovados no exame, ganhavam a carteira, mas depois não dirigiam: tinham medo. Doze anos depois, sua empresa abriu 35 franquias e já “reabilitou” quase 40 mil motoristas. A ideia de ficar engarrafado em aclive, ou ter de fazer baliza, apavora brasileiros do Oiapoque ao Chuí.

Renan Alves Pinheiro é o franqueado no Rio. Num domingo, às sete e meia da matina, ele assistia ao programa Pequenas Empresas & Grandes Negócios quando viu uma reportagem sobre Sergio Santos. Lembrou-se imediatamente da mãe, que não dirigia há dez anos, de tanto que o marido lhe enchia a paciência quando tentava dirigir. Conversando com amigos, descobriu mais dez casos parecidos. Ligou para franquias de treze estados do Brasil e constatou que todas tinham boa clientela.

Pinheiro subestimou o poder aterrorizante da Avenida Brasil e do Centro da cidade. Esses dois pontos, permanentemente conturbados, traumatizam profundamente motoristas de primeira viagem. Ele tem hoje cinquenta novos alunos a cada mês, mais que o dobro que estimara. Recebe 300 ligações por dia – e não 160, como havia previsto.

Dentro do esperado estava apenas o gênero do público: quase 90% é do sexo feminino. “Nossa clientela é de mulheres bem-sucedidas, muitas solteiras e separadas”, disse. “Acho que as casadas se acomodam e até gostam que os maridos tenham que levar e buscar. Já tivemos caso de uma mulher que voltou a dirigir sozinha e largou o marido.”

Renan Pinheiro abandonou a faculdade de química para se dedicar exclusivamente aos temerosos do trânsito. De outubro para cá, devolveu 67 habilitados às ruas – incluindo na conta vítimas de acidentes graves, que não conseguiam nem entrar no carro e precisavam de uma psicóloga no banco de trás. Entram na conta também motoristas com dificuldades motoras, para quem pisar no pedal e mudar a marcha ao mesmo tempo é um procedimento por demais complexo. 

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