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A vida não tem agenda própria

por Zulmira Ribeiro Tavares

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INSTRUÇÕES AMOROSAS

Telefona-me a horas mortas

e em tempo de frio.

Estarei hibernando como as marmotas

ainda que cave meu abrigo sob edredons

fêmea que sou de um outro hemisfério.

 

Meu celular, 

pequeno como o lóbulo de minha orelha,

ficará aberto o tempo em que as marmotas dormem 

no subsolo do mundo.

 

E no celular que te envio, 

do tamanho da unha de teu polegar,

digita o meu número,

acessa o meu nome.

 

MULHERINHA MULHERANDO

Três coisas nela são frias:

– o dedo dos pés

– a ponta do nariz

– o bico das tetas.

De quente ela traz o hálito

... e ofega.

O que tem de quente

e o que tem de frio

fazem as duas metades da noite.

Ela espanta as dores do mundo 

e acende as luzes da cidade.

 

OS HOMENS DA PREFEITURA

Um poema escondido atrás de caixas

como ratos espreitando por baixo de fogões.

 

É um poema, e o seu pelo docemente cai

ao sopro do veneno que os homens põem

no coração das coisas.

 

Não são os homens da Prefeitura

chegando com suas pérolas confeitadas 

que matam dentro do doce – Ouça

o poema uma vez e outra

 

como ratos miúdos e prolíficos

sujos da miséria de seus ventres envenenados

ao morrer.

 

MODO

Viveu a dura vida – 

a dura vida calada.

Como um sapato vazio

sem cadarço viveu.

Um sapato cambaio

à deriva

sem ele dentro. Viveu

fora de si

a dura simples vida.

Descalçou-se para dormir

na pedra. Sem um ai –

um som de queda.

 

AGENDAS

O que me intriga na vida

É ela não ter agenda própria.

 

Escrevo eu em uma agenda

Ela por cima escreve a sua.

 

Por isso eu gosto da vida.

Porque não se leva a sério.

 

Porque me atraiçoa.

 

O ARQUITETO E A BAILARINA 

Como um compasso

as pernas de aço abertas

 

Primeiro uma perna no chão

a outra perna na barra

 

Depois a troca das duas

pontas da sapatilha

 

Com os pés em ponta ela faz

aquilo que ele lhe ensina

 

O compasso nas mãos que o seguram

se abre e desenha um círculo

 

No umbigo ele a beija com a língua

como ajusta um parafuso

 

Sem exasperar a pressão

insiste e abre caminho

 

Avança seguro e cego –

na reta o ponto de fuga

 

Depois com mãos que arquejam

desenha a planta do mundo.

 

TRAVESTI

Prendeu a roupa no varal

e do outro lado dos lençóis

o mundo.

 

Esconde-se no branco lavado.

Não quer que o mundo, os outros a revelem

 

no sol que a incendeia.

E o seu nome é Radiância.

 

Quem o deu foi o doutor do Abrigo

sabedor dos que trazem na matalotagem 

assombramento e luz. 

 

Tendo por nome de chegada Cipriano

vindo da Paraíba ele

para São Paulo – Hoje 

 

...Radiância ela, 

no lusco-fusco das esquinas

Rainha.

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