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Judaísmo em trânsito

No caminho das Índias, jovens israelenses redescobrem a religião

por Willian Vieira

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Numa encosta aos pés do Himalaia, um menino indiano toca o calcanhar no chão: “Até aqui vai o casaco deles, preto.” É na casa dez passos adiante, repleta de placas em hebraico e fotos de rabinos, que eles vivem — na beit Chabad, um centro comunitário judaico em plena vila de Baksu, distrito de McLeod Ganj, cidade de Dharamsala, norte da Índia, entre casebres laranja com santuários hindus e o vaivém bordô dos budistas. “Entra e sai gente de preto, chapéu preto, sapato preto e um cabelo assim...” No espanto dos 8 anos, o menino gira os indicadores na altura das orelhas, desenhando os judeus ortodoxos de Baksu. Na terra da cor, o preto é novidade.

De contrastes vive McLeod Ganj. Aqui está instalado o governo tibetano no exílio, com o Dalai Lama, uma multidão de monges e outro tanto de turistas new wave, terços budistas na mão e ideias anti-China na cabeça. Com suas ONGs e seu exército de voluntários que ensinam desde inglês a “técnicas de não-violência” aos refugiados, o lugar virou um ponto de peregrinação pós-hippie para interessados em melhorar o carma ou o lado social do currículo. Vinte minutos morro acima, contudo, mudam os ares. Nas vilas de Baksu e Dharamkot, a fumaça do haxixe envolve a aspereza bíblica do hebraico e redes preguiçosas rangem alheias a China, Gaza, Tibet. A frase branca sobre o azul da porta de um café anuncia: Bem-vindo ao “pequeno Israel”.

A população de indianos e tibetanos em Baksu e Dharamkot é de 1 200 pessoas. Pelas estimativas de agências de turismo, dificilmente há menos de 2 mil israelenses em circulação nas duas vilas – o que explica o vaivém de pedreiros indianos na beit Chabad, que vai ganhando um, dois, três andares. “Nossa missão é levar conforto a qualquer lugar no mundo abençoado pela presença de judeus” – Nova York ou uma vila no Himalaia –, explica o rabino Dror Moshe Shaul, responsável pela casa.

Balançando um filho nos braços, Dror atende o celular. Outro chega, e mais um, e logo a mulher, com outra criança no colo e uma gravidez avançada sob o vestido azul até a panturrilha. “Paramos de contar”, diz Dror, sempre em voz baixa, a barba negra até o peito, cofiada enquanto ele recebe dois jovens judeus. A conversa dura cinco minutos. O que queriam? “Nós damos o que vierem procurar. Comida, remédios, conselhos... Agora, o que queremos oferecer é ajuda para que encontrem a alma divina. Muitos buscam aqui o que não têm em casa.”

A atual odisseia da juventude israelense pelo mundo, diferentemente das frequentes diásporas judaicas ao longo da história, não decorre de perseguição étnica ou de um chamado bíblico. O chamado, hoje, tem a ver com a liberdade de fazer o que bem quiser com alguns milhares de shekels ao longo de um ano de férias. Completados os três anos de serviço militar obrigatório (dois para as mulheres), “a grande viagem” se torna um imperativo. Lugares como Bolívia, Camboja e Índia, mais baratos e menos regrados do que a Europa, por exemplo, viraram destinos de eleição de boa parte dos mochileiros israelenses. Sexo, drogas e rock’n’roll são atrativos. Para muitos, a viagem será também uma “busca da espiritualidade” – e, nesse caso, a Índia é imbatível.

É quase uma fórmula: antes de achar o rumo na vida, eles viajam, curtem adoidado, despem-se da autoridade, do nacionalismo e da religião e voltam renascidos à terra-mãe. “É como descobrir outro lugar além de Israel onde Deus existe, só que sob formas mais liberais. A Índia é o melhor lugar para estar perto do divino”, diz Elhanan Nir, um rabino de 30 anos que percorreu o país, redescobriu ali o hassidismo – a corrente mística do judaísmo abraçada por Dror Moshe Shaul –, escreveu um livro e hoje leciona no trailer onde mora, num assentamento na Palestina. Seu livro mescla nirvana, hinduísmo e Torá para explicar por que, afinal, um judeu vai à Índia atender ao “chamado”.

É o que parece estar acontecendo com Sheer, de 22 anos. “Ela entrou num barato religioso”, diz a amiga que divide com ela um baseado num café em Rishikesh. Antes iconoclasta, relax, Sheer terminou o Exército e pegou a estrada. Está há três meses na rota, mas ainda vive no tempo em que entrevistava palestinos na fronteira, carregava o fuzil como uma bolsa e chapava. (“Eles nos testam com exames, mas sem haxixe a gente enlouquece.”) Após a terapia diária com Cannabis sativa e narrativas de viagem de Paul Theroux, a experiência militar e o futuro de incertezas se chocam. Sheer respira fundo e anuncia: “Preciso de ajuda. O rabino vai me ver amanhã, dar conselhos. Deus veio até mim. Chega de viagem.”

Se ela quisesse arriscar, achar companhia provavelmente não seria problema. Bastaria lembrar que o consulado indiano em Tel-Aviv emite até 50 mil vistos por ano, num país de 8 milhões de habitantes. A rota israelense liga McLeodou Ladakh, no extremo norte da Índia, a Goa, no sudoeste, passando pela capital mundial da ioga, Rishikesh, e pela capital mundial das vacas de rua, Nova Delhi. No trajeto, haverá placas em hebraico oferecendo um hotel em conta e algum compatriota para dar as dicas de onde, como e quanto. As vilas pelo caminho vêm se amoldando à demanda. Agricultores deixam a fazendola para abrir uma pensão, que terá também um café, um cibercafé, uma lavanderia, tudo aquilo de que a clientela possa precisar. Garçons e taxistas aprendem frases em hebraico, assim como crianças que pedem esmola.

Por pragmatismo, não por diplomacia, as portas se abrem para o que der e vier. Pode-se entrar num café e ficar ali ouvindo jazz nas almofadas, em meio ao pessoal do rastafári, dreadlocks, camisas e calças largas de cores gritantes. De repente, o cara que burilava com um bisturi algo semelhante a um bastão de beisebol leva o isqueiro a uma extremidade e os lábios à outra e traga a baforada de Cannabis. Alguém grita: “Lehaim!” Saúde. Hoje, qualquer jovem israelense pode se sentir à vontade na Índia.

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