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Bem-vindos à Tartarugolândia

Superlativa concentração de quelônios no Paraná

por Vanessa Barbara

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O caminho de Curitiba a Morretes, no Paraná, pela antiga estrada da Graciosa, é mal sinalizado e tortuoso, como se quisesse espantar os visitantes indesejados. As indicações para a estrada de chão que leva à Fazenda Reserva Romanetto dão uma ideia da complexidade da expedição: na estrada da Ponte Alta s/nº, deve-se entrar numa saída para a chácara de orquídeas Yu Fang, próxima à empresa de celulose CTM, no quilômetro 2 da Graciosa (Reta do Porto). Depois, é preciso perguntar aos moradores “das casinhas da esquerda”, que costumam empunhar vistosos facões, onde fica a reserva. Aí é só virar à direita numa bifurcação antes da ponte e seguir as instruções de uma placa – dobrada em dois, enferrujada e ilegível.

Enfim se chega à Reserva Romanetto, um dos maiores criadouros comerciais de quelônios do Brasil, onde vivem cerca de 2 mil tartarugas dos mais diversos tamanhos (segundo a última contagem, são 1 250 tigres d’água e 700 jabutis). Todas são legalizadas pelo Ibama, microchipadas e alimentadas diariamente por um solitário tratador, Anderson Gonçalves Siqueira, de 26 anos. A reserva, de 50 hectares, está encravada em plena Mata Atlântica e é propriedade do comerciante paulista Ricardo Romanetto, de 47 anos, que há mais de uma década investe na criação de portentosos cágados.

A tigre d’água brasileira (Trachemys dorbignyi) é uma graciosa tartaruga de água doce muito procurada como animal doméstico. O nome deriva de suas listras amarelas, embora alguns atribuam o epíteto à ferocidade do animal, que, ao morder, “só solta quando quiser”. A brutalidade lendária é confirmada por Anderson, que aproveita para fazer chacota dos biólogos que visitam ocasionalmente a reserva e são sempre mordidos no cotovelo por uma ávida cascudinha. O que poucos sabem é que as minúsculas e delicadas tartaruguinhas vendidas nos pet shops podem alcançar um diâmetro de até 35 centímetros e 3 quilos de pura fúria, podendo sobreviver aos seus donos.

Passando entre dois grandes lagos, onde o proprietário tenta estabelecer uma criação comercial de pirarucus, chega-se ao tanque das temidas tigres d’água, que se aglomeram nas beiradas para tomar sol e botar os assuntos em dia. É uma infinidade de cascos verde-amarelos das mais diversas compleições, amontoados ou enfileirados, com pescoços e patas uniformemente esticados, na ânsia de aquecer as mais recônditas dobrinhas. Diante da aproximação de seres humanos, as tartarugas efetuam um mergulho abrupto e sincronizado, emitindo sonoros clops ao cair na água. São todas crescidas e volumosas, lembrando saudáveis calotas de Fusca.

Todos os anos, nascem na reserva cerca de 8 mil filhotes. Os ovos são depositados em bandejas cheias de areia grossa, numa sala com umidade controlada e temperatura a 29 graus centígrados, onde eclodem num período médio de 72 dias. O processo é mais rápido do que na natureza, onde pode levar até quatro meses. Para quebrar o ovo, a tartaruga usa um dentinho, que cai depois de uma semana de nascimento. Anderson conta que o aproveitamento é de quase 100%, ou seja, é raro que uma tartaruguinha não consiga sobreviver num berçário de luxo com pinta de resort. No período da desova, há dias em que a quantidade de ovos coletados chega a 400.

Se a aproximação humana assusta os quelônios expostos fora d’água, ela também provoca curiosidade subaquática e a expectativa uníssona pela chegada da ração. Após o mergulho apavorado, portanto, o que se vê são centenas de narizes para fora, nadando afobadamente em direção às visitas. A aglomeração é tamanha que chega a fazer barulho: os cascos batendo uns contra os outros emitem clops aterrorizantes.

Felizmente, conseguimos sair ilesos da avalanche quelônia que se prenunciava. Com a ajuda de Anderson, partimos para a área das tartarugas terrestres, os jabutis, estes sim inofensivos répteis de olhar ancestral e alfacinhas penduradas na boca. Todos ali pesavam mais de 10 quilos e podiam servir de banco ao visitante mais distraído.

Logo na chegada à arena, Anderson tem que acorrer a um chamado de emergência: o jabuti número 8, que aqui vamos chamar de Moisés, estava virado de ponta-cabeça e esperneava, apavorado, num dos cantos. Os amigos de Moisés não pareciam fazer caso de toda a sua angústia. Anderson retorna o tartarugão à posição normal e diz que há muitos incidentes assim durante o dia. Como os animais só aguentam poucas horas de pernas para cima e geralmente não conseguem se desvirar sozinhos, é preciso haver socorro imediato.

Na fazenda, há ainda uma dezena de ovelhas, contratadas para aparar a grama. Seus estranhos balidos monocórdios, sem nenhum vibrato, se assemelham a uma imitação ruim de ovelha. Também lá residem dois ou três galos relegados à coadjuvação, e duas cadelas que convivem com as tartarugas num regime de paz permanente.

Ao contrário do que possa parecer, a Reserva Romanetto não é aberta a visitações. Só logram o acesso aqueles que realmente se esforçam, implorando de joelhos ao senhor Romanetto, e usando termos técnicos de quelonicultura, a fim de se provarem merecedores de tal honraria. Então, e só então, o feliz agraciado poderá conhecer quelônios tão vetustos que chega a nascer planta a partir de seus cascos. E se der sorte, Anderson falará sobre o sonho das tartarugas albinas, mostrará o saco vitelino de um jabuti recém-nascido e contará que fim levou Bituga, uma tartaruga que nasceu em 2007 e tinha duas cabeças.

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