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Polícia, câmera, ação

Como as Unidades de Polícia Pacificadora ocuparam dez favelas e todo o noticiário do Rio

por Cristina Tardáguila

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Às duas da tarde do dia 8 de julho, Dirceu Viana, um homem magro, com quase 2 metros de altura, subiu ao púlpito do auditório do quartel-general da Polícia Militar do Rio de Janeiro para uma aula de quarenta minutos sobre como os vinte policiais sentados à sua frente deveriam lidar com a imprensa. Sem microfone e com voz de comando, disse: “Boa-tarde, senhores. Entramos na reta final das eleições, e hoje venho falar sobre as restrições que as leis eleitorais impõem à divulgação do trabalho que vocês realizam.” Em quatro meses, aquela era a segunda rodada de media training dada pelo chefe da assessoria de comunicação da Secretaria de Segurança aos comandantes e vice-comandantes das Unidades de Polícia Pacificadora– as UPPs, a última voga de combate ao crime no Rio.

“Ontem, alguns jornalistas me procuraram pedindo para ouvi-los sobre as suas inclinações políticas. Neguei todos os pedidos de entrevista. Lembrem-se, senhores, que, enquanto estiverem fardados, são servidores públicos e não devem se posicionar.” Na plateia, algumas cabeças balançaram para cima e para baixo, em demonstração da mais disciplinada aquiescência.

“Façam o trabalho policial como ele tem que ser feito e fiquem atentos. A UPP é uma vitrine construída com dificuldade. Se chegamos até aqui, é porque cativamos o povo. E agora que as pessoas começaram a acreditar que é possível retomar o Rio, o cuidado tem que ser redobrado”, enfatizou Viana. Para sublinhar a gravidade da lição, arregalou os olhos e engrossou a voz: “Não guardem panfletos nas viaturas, não xeroquem nada, não permitam que o logotipo do projeto apareça em nenhum cartaz, não emprestem o telefone da UPP...” Em resumo: “Usem luvas de pelica.”

Enquanto o assessor tomava fôlego, a capitã Alessandra Carvalhaes, que comanda a pacificação no morro da Formiga, na Tijuca, levantou a mão, perguntando: “E o que devemos fazer com um candidato a deputado que tira fotos ao lado de nossos policiais?” Todos na sala riram. Na última fileira do auditório, alguém sussurrou: “Nunca antes na história deste país um político quis tirar foto ao lado da polícia do Rio.”

Criadas em 2008, as Unidades de Polícia Pacificadora são a parte mais vistosa do modelo de segurança pública adotado no Rio. Elas substituíram a velha escola do confronto armado pela cartilha do policiamento comunitário, que dá mais resultados concretos com menos estragos explícitos. Inspiram-se nos preceitos da convivência pacífica e ordeira. Pretendem retomar o controle dos territórios dominados pelo tráfico ou pelas milícias, para permitir que neles voltem a funcionar os serviços públicos e a assistência social privada.

As UPPs são unidades de policiamento com mais de 100 PMs, que entram nas favelas para ficar e impor a mesma ordem vigente no resto do país. Sua meta é a normalidade. Não prometem erradicar o tráfico de drogas. E, assim, com passos cautelosos, vêm derrubando de mês a mês os índices de violência no Rio de Janeiro. Em maio, registrou-se uma queda recorde na taxa de homicídio que não se via no estado desde 1991. Não houve sequer um assassinato em Copacabana ou na Tijuca, bairros que juntos somam mais de 300 mil habitantes.

Até dezembro, o Rio deverá ter quinze UPPs. Juntas, elas manterão 3 850 policiais militares nas favelas, quase dez por cento da tropa. Até 2014, serão quarenta UPPs, com 12 500 soldados. No fim de julho, dez estavam implantadas e a polícia já havia entrado no morro do Salgueiro para instalar a décima primeira. Mas o comando de Dirceu Viana é de outra natureza. Ele chefia a equipe de jornalistas da Secretaria de Segurança desde a posse do governo Sérgio Cabral, em janeiro de 2007. Apesar de não ter posto de subsecretário, frequenta reuniões de cúpula, opina na escolha de comandantes e dirige com desenvoltura a política de comunicação das UPPs. Sinal de prestígio na função, no fim do ano passado, o Diário Oficial do estado publicou um decreto ampliando o orçamento relativo a “serviços de comunicação e divulgação” de 66,9 milhões para 91,7 milhões de reais. Foi Dirceu Viana quem fincou pé na ideia de compor as unidades apenas com policiais recém-formados. Até criou um slogan: “O novo é o novo.”

Num encontro realizado em seu gabinete dois dias antes da sessão de media training, Viana coletou no computador dados para ilustrar o que tem feito para aproximar da opinião pública o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, um gaúcho oriundo da Polícia Federal. Por sugestão de Viana, desde a posse, Beltrame encarou 138 almoços com “formadores de opinião” e jornalistas. A média – mais de uma refeição semanal na Secretaria com, no mínimo, três comensais –, ficou tão acima da rotina das gestões anteriores que foi preciso adicionar uma cozinheira à equipe do gabinete. Beltrame franqueou as portas e as cordas vocais para nada menos que 223 entrevistas. Delas, 39 foram para repórteres de órgãos internacionais como o jornal The New York Times, a revista National Geographic ou a rede de tevê Al Jazeera. Na tarde em que Viana preparava o sermão para os PMs, três repórteres japoneses ligavam as câmeras para gravar uma entrevista sobre UPPs.

O investimento em comunicação é tão inseparável das unidades que, em todos os eventos oficiais de que participa, Beltrame fala com jornalistas. Viana convenceu-o de que “é melhor falar antes e bem, do que deixar que alguém fale por você”. Por isso, dez dias antes da chegada das UPPs aos morros da Tijuca, um dos bairros mais tradicionais da Zona Norte, Beltrame, acatou a recomendação do assessor de comunicação e conversou por quatro horas com sete blogueiros que escrevem sobre segurança pública e cidade. A repercussão do encontro – com vídeos e fotos que transbordaram para as redes sociais da internet – rendeu duas semanas de repercussão virtual e salpicou de notícias os jornais O Globo, O Dia e Extra, os principais da capital.

Viana é pós-graduado em marketing. Acha que o sucesso de qualquer projeto passa por um plano de comunicação robusto. Além das sessões de media training, criou um site sobre as UPPs em português e inglês, e abriu uma conta no Twitter para divulgar os êxitos do programa. Contratou uma publicitária especializada em mídias sociais para cuidar dessas páginas. E segue o noticiário com lupa. No clipping de notícias de jornal feito por sua equipe sobre as UPPs há, desde o início deste ano, 292 reportagens a favor e 43 contra. Para Viana, que tem 44 anos, o preço dessa vigilância foi altos índices de colesterol – há tempos come mal e às pressas.

Em 2007, o governador Sérgio Cabral aterrissou na Colômbia com os ex-governadores de Minas Gerais, Aécio Neves, e do Distrito Federal, José Roberto Arruda, preso em fevereiro por corrupção, prova eloquente de que não é só na favela que legalidade e ilegalidade se confundem. Os três foram ver de perto a receita de mano dura e obras públicas que reduzira a violência em Bogotá e Medellín. No primeiro dia, a comitiva conheceu o sistema de rastreamento de delitos da capital colombiana. Na central que processa os dados colhidos na rua para convertê-los em ações pontuais da polícia, o secretário Beltrame ouviu que o sucesso do sistema depende do apoio da população. Taxistas, seguranças privados e associações comerciais tinham que fazer sua parte, como delatores, em Bogotá.

Logo depois, o grupo foi à Central de Polícia e assistiu a uma palestra de Hugo Acero, o sociólogo cujas ideias forneceram o arcabouço teórico do projeto de pacificação. Num auditório com cerca de cinquenta pessoas, Acero repetiu inúmeras vezes que a solução para a violência implicava a chamada “segurança pública com cidadania”. Explicou, passo a passo, como dosar a mistura. Falou da importância de se retomar o espaço físico da favela, como pré-requisito para conquistar o apoio da população. Disse que era preciso estimular o povo a colaborar com a repressão. E frisou que, sem projetos sociais nas áreas retomadas, de nada valeriam as medidas anteriores. Acero foi secretário de Segurança de Bogotá por nove anos. Suas iniciativas derrubaram a taxa de homicídio de 80 por 100 mil habitantes, em 1993, para 18 por 100 mil habitantes em 2005.

No dia seguinte, em Medellín, a comitiva sobrevoou de helicóptero as favelas de Andalucía e Santo Domingo, onde, à época, 500 policiais mantinham a ordem de 500 mil habitantes. Do alto, via-se um imenso canteiro de obras, do qual despontava um monumental teleférico. Numa pequena sala no alto da favela, Cabral encontrou o então prefeito Sergio Fajardo, e ouviu dele uma pregação sobre o binômio trabalho policial e reforma urbana de impacto. “La mejor arquitectura a la población más pobre”, repetia Fajardo. De volta ao Brasil, Cabral anunciou que adaptaria o modelo da Colômbia ao Rio. Meses mais tarde, o pac das Favelas abria canteiros de obras na Rocinha, em Manguinhos, no Cantagalo e no Complexo do Alemão – que, por sinal, ganhou um teleférico semelhante ao de Medellín. Pouco depois, as três primeiras UPPs – no Santa Marta, na Cidade de Deus e no Jardim Batam – tomaram forma.

Numa sala do 4º andar da Secretaria de Segurança, o superintendente de Planejamento Operacional, Roberto Alzir, delegado da Polícia Federal, exibiu uma sequência de slides sobre a gênese das UPPs. De terno e gravata e com voz pausada, disse que o primeiro passo foi acionar o setor de Inteligência da Secretaria, que elaborou uma relação de todos os pontos do Rio que padeciam de três mazelas diferentes: o Estado não se fazia presente, havia domínio ostensivo de traficantes ou milicianos armados e estavam sob o controle de uma ideologia de facção. “O relatório apontou 97 áreas – um número grande – e nós vimos que deveríamos priorizar”, explicou Alzir, avançando os slides. A Secretaria então determinou que a Polícia Civil, a Polícia Militar e a Inteligência dessem notas de 1 a 3 para todas as áreas listadas, sendo 3 a de maior periculosidade. A Secretaria faria o mesmo e depois somaria os pontos. Todas as favelas ou complexos de favelas com notas 12, 11 e 10 passaram à segunda fase. “O total caiu para 47, mas ainda era muita coisa.”

Para passar o ranking na peneira fina, o Instituto de Segurança Pública e a seção de Inteligência montaram um relatório-padrão com informações socioeconômicas e criminais sobre cada área e os somaram a uma base cartográfica que apontava possíveis alvos de projéteis disparados de cada uma delas. Como um tiro de fuzil alcança cerca de 4 quilômetros, a distância serviu de raio para demarcar a vizinhança. Essas conclusões foram devolvidas à Polícia Militar para que ela estipulasse, caso a caso, as táticas de ocupação. “A dúvida então era simples: se formos ocupar tal favela ou complexo, de quantos homens precisamos? Que materiais temos que usar?”

De posse dos planos da Polícia Militar, a Secretaria reorganizou a lista. Usou dessa vez as letras A, B e C, sendo A a pior. Os maiores constrangimentos à extensão do programa não eram verbas, armas, veículos nem rádios. “Era o efetivo”, lembrou o superintendente. A cúpula da segurança pública do Rio viu-se numa encruzilhada. Poderia instalar uma UPP no Complexo do Alemão, dando visibilidade máxima à nova estratégia, mobilizando cerca de mil homens e mostrando que o projeto era de grosso calibre. Ou começar por unidades menores, em áreas menos conflagradas. Ou seja, fazer uma espécie de test drive.

Num café da manhã no quartel-general da Polícia Militar, o coronel Mário Sérgio Duarte, que há um ano comanda a corporação no Rio, explicou ao longo de cinquenta minutos aquilo que nos bastidores do estado já foi batizado como “a política de uma guerra só”. Depois de encher uma xícara de café, disse: “Tínhamos duas vias de ação. Poderíamos começar pelo núcleo” – ou seja, o Complexo do Alemão – “e provocar um espalhamento de criminosos, ou partir para outras áreas, deixando que eles se reunissem num único lugar.” Explique-se: com a ocupação de áreas menores, a expectativa é de que os bandidos acabem se concentrando num só núcleo, grande e central. Para o comandante, a opção pelo segundo caminho foi acertada e condizente com o efetivo da tropa, mas comprometeu o poder público a se preparar para um confronto maior, que não poderá ser adiado indefinidamente.

Os políticos do governo estadual respiraram aliviados. Não lhes parecia atraente a ideia de inaugurar a pacificação a toques de metralhadora na Zona Norte. Adiado o desembarque das UPPs no Alemão, fez-se, por fim, o ranking final das favelas. Os critérios desse ordenamento ainda são confidenciais. Mas os locais escolhidos estão todos na rota da Copa do Mundo de 2014, dos Jogos Olímpicos de 2016 e dos maiores investimentos programados para os próximos anos na cidade.

Não há, por enquanto, UPP fora da capital. A Zona Sul, onde fica a maior parte dos hotéis e dos turistas, tem quatro unidades. O entorno do estádio do Maracanã, três prontas e uma em processo de instalação. Os estádios de competição da Barra da Tijuca ficam próximos à UPP da Cidade de Deus. E a zona portuária, objeto de uma revitalização que inclui o Museu do Amanhã, o Aquário Municipal e a Pinacoteca do Rio, está sob o guarda-chuva da UPP da favela da Providência. A unidade do Jardim Batam, em Realengo, é a exceção – a única em território dominado por milícias.

Há quem veja objetivos simbólicos nos endereços das UPPs. O morro da Providência é a favela mais antiga do Brasil. O do Borel, na Tijuca, foi bastião do Comando Vermelho. A Cidade de Deus, na Zona Oeste, e a do Santa Marta, na Zona Sul, ficaram internacionalmente conhecidas por filmes e videoclipes gravados em suas vielas. No Jardim Batam, a milícia torturou repórteres.

Nas favelas que têm UPPs, ouvem-se elogios às unidades – mesmo na Cidade de Deus, onde a opinião dos moradores ainda se divide entre o apoio à novidade e a dúvida sobre o que restará dela passado o ano eleitoral. Num salão de beleza, quando o bate-papo chegou à UPP, a cabeleireira disse: “É simples. Se não estivesse dando certo, aquele táxi que eu nunca vi antes não estaria estacionado ali.”

Há poucos meses, Fernando Barcellos, um jovem assistente de direção de cinema que cresceu na Cidade de Deus, foi ao Complexo do Alemão e levou um susto. “Há tempos não via homens armados e fiquei com medo.” Analisando a sensação que o paralisou por segundos, disse ter entendido pela primeira vez na vida que o conceito de normalidade não inclui a convivência com fuzis e comemorou o fato de morar numa favela pacificada. “De repente compreendi porque alguns amigos recusavam meus convites para ir lá em casa”, disse, referindo-se ao tempo em que o tráfico armado mandava na comunidade. Recuperara a capacidade de se espantar com o que, de fato, deve causar espanto – jovens armados na cidade.

Em maio, no alto do morro da Providência, um caminhão da Comlurb voltava a recolher o lixo das ruas. Funcionários da Cedae trocavam canos furados. Engradados de cerveja eram descarregados na porta de um bar lotado. E uma fila de pessoas aguardava para ser atendida por funcionários de uma empresa de tevê por assinatura que oferecia um plano pré-pago com quinze dias de acesso a R$ 29,90. Em duas semanas, foram 85 novos contratos.

Em junho, no Jardim Batam, funcionários da Light recebiam os moradores numa tenda montada na calçada. Tratavam de dois assuntos espinhosos: a obrigatoriedade de cada residência ter seu relógio de força e as facilidades de pagamento oferecidas pela empresa para a regularização de contas atrasadas. Ao assumir o controle territorial das favelas, as UPPs abriram um mercado consumidor antes inatingível. Nas dez favelas pacificadas moram cerca de 118 mil pessoas. A Light tem um programa para legalizar o fornecimento de luz em 120 mil domicílios no estado. Nas casas mais pobres, a empresa troca a fiação, doa lâmpadas e presenteia o morador com geladeiras.

As estatísticas policiais também impactaram o mercado imobiliário. Na rua Aboa­rá, do Jardim Batam, um muro branco e amarelo cerca um terreno de 3 700 metros quadrados que foi comprado por 170 mil reais no começo do ano. A área foi dividida em 44 lotes e se pagou em cinco meses. Em maio, dezessete deles tinham sido vendidos por 10 mil reais cada. No Santa Marta, em junho, não era possível alugar um quarto e sala por menos de 450 reais. Antes da UPP, o mesmo valor dava para dois apartamentos semelhantes. Na Providência, três bares à venda mudaram de mãos em quinze dias de pacificação.

A onda imobiliária não se restringiu às favelas. Um apartamento de dois quartos em Botafogo, aos pés do Santa Marta, saltou de 380 mil reais em outubro para 620 mil no mês passado. Em Copacabana, o dono de um imóvel avaliado em 500 mil reais recusou uma oferta de 750 mil, alegando que, com a aragem de segurança que sopra no bairro, o apartamento não pode sair por menos de 1 milhão.

Nos anos 70, o estado americano de Nova Jersey anunciou que a polícia aumentaria o patrulhamento a pé. Os críticos do projeto – chamado Safe and Clean Neighborhoods [Vizinhanças Limpas e Seguras] – consideraram que a medida seria ineficaz. Retirar os policiais das viaturas e obrigá-los a caminhar ao ar livre parecia-lhes retrógrado e punitivo. A ideia foi posta à prova. Cinco anos depois, a polícia de Nova Jersey constatou que a medida realmente não alterara a criminalidade, mas elevara de modo surpreendente a sensação de segurança nas áreas cobertas pelo programa. Os moradores entrevistados alegavam que a mera visão de policiais nas calçadas coibia a desordem urbana e reavivava os espaços públicos. Menos desordem corresponde a uma sensação de segurança maior, não necessariamente a menos crimes.

Até o surgimento das UPPs, o sentimento de insegurança de quem morava no Rio atingia níveis intoleráveis. Chacinas assombravam o estado e ganhavam repercussão internacional. Filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite refletiam e reproduziam esse estado de espírito. Falava-se de uma terra de gangues onde 3 milhões de pessoas viviam em mais de mil favelas sob as leis e a justiça de criminosos armados. Repetia-se à exaustão a imagem do menino com tênis Nike nos pés e fuzis ar-15 em punho, e dos policiais que encaravam seus distintivos como certidões de óbito. Em 2009, o vereador Alfredo Sirkis disse a um jornalista americano que “Se eles” – os traficantes – “algum dia adotarem uma ideologia, podem vir a ameaçar o Estado.”

Em maio deste ano, o Instituto de Segurança Pública do Rio registrou dados estatísticos que apontaram uma mudança drástica no cenário fluminense. Vinte e dois índices de criminalidade despencaram frente ao mesmo mês do ano anterior. Entre eles, o de homicídios dolosos (-30,5%), latrocínios (-28,6%), roubos de veículo (-29,3%) e roubos de rua, que engloba ataques a transeuntes, celulares e ônibus (-12,2%). O que separa essas duas realidades? Até onde a vista alcança, sete UPPs. As outras não entram na conta porque só chegaram depois de maio.

O professor Robert Sampson, que dirige o departamento de sociologia de Harvard, arrisca um palpite sobre o sucesso do programa fluminense. Por telefone, disse que o aparente êxito pode estar mais relacionado à mudança de comportamento dos moradores das favelas do que às forças policiais. Durante sete anos, Sampson circulou por Chicago, pesquisando delinquência, criminalidade e violência. Ouviu mais de 7 mil americanos e cunhou o conceito da “eficiência coletiva”, que nada mais é do que a disponibilidade de um grupo de pessoas a reagir contra o que incomoda. “É bem provável que os moradores das favelas do Rio estejam compartilhando uma expectativa única em relação ao controle da região e que tenham passado a se ver como corresponsáveis pela manutenção da ordem. É nesse meio que a eficiência coletiva aumenta e a criminalidade diminui.”

À primeira vista, há um paradoxo entre os resultados de Nova Jersey e a teoria de Sampson. No primeiro caso, mediu-se apenas o efeito da atuação policial sobre os índices de criminalidade e não se registrou queda. Já Sampson avaliou a influência do engajamento comunitário e usou um conceito mais abrangente de criminalidade, que inclui sinais de desordem urbana como grafite, vandalismo e atitudes antissociais. Neste caso, as taxas caem.

Dados do Disque-Denúncia do Rio de Janeiro parecem endossar a hipótese de que o envolvimento da população é indispensável ao sucesso de um projeto de segurança. Antes da UPP, a média de denúncias no morro da Providência era de dez por mês. Em março, quando o projeto fixou um prazo para entrar na favela, o número passou a 46. Em abril, após a sede ser inaugurada, estava em 36. No Santa Marta, a média mensal evoluiu de oito para 27 no mês da chegada da UPP. Mas Sampson alerta: a “eficiência coletiva” não perdura se a sensação de segurança se esvair. Pode desmoronar ao primeiro deslize. Basta que a força policial abuse da autoridade ou seja incapaz de deixar claro que não tolera corruptos em suas tropas, por exemplo.

Dirceu Viana, o assessor de comunicação que passou a devorar livros sobre como enfrentar crises na administração, sabe que na Polícia Militar essas aberturas para a catástrofe se multiplicam por quase 40 mil homens e, na Civil, por outros 10 mil. Daí insistir em que os comandantes e vice-comandantes das UPPs martelem nas cabeças de seus subordinados tudo aquilo que ouvem nas sessões de treinamento que comanda. Ao longo do media training feito no início de julho, ele repetiu essa recomendação seis vezes. “Na última sexta-feira, senhores, a produção do RJTV me pediu que uma autoridade comentasse as fotos publicadas na capa do Globo daquele dia – aquelas que foram tiradas quarenta dias atrás, mostrando venda de drogas na Cidade de Deus. Sugeri uma entrada ao vivo do coronel Robson Silva” – comandante de todas as UPPs –, “mas a tevê não topou. Preferiu mandar uma equipe à favela para entrevistar algum policial por lá. Conseguiu. Senhores, com essa postura nós corremos um enorme risco de aumentar o problema”, advertiu. “Eu sei que não faz parte da cultura do policial saber se comportar com a imprensa, mas isso pode atrapalhar o projeto, gerar um desgaste enorme. Fiquem atentos.”

No mesmo instante, o capitão José Luiz Medeiros, que comanda a UPP da Cidade de Deus, levantou a mão para se explicar. Viana mal lhe deu um minuto e voltou à carga: “O pior, capitão, foi que o policial que deu a entrevista se posicionou exatamente no local que havia sido fotografado e diante de um montão de homens armados. Conclusão: os jornalistas disseram que o policiamento na área tinha sido reforçado. Mas reforçar o policiamento por causa de uma foto tirada quarenta dias antes não faz sentido nenhum. Os senhores e suas tropas têm que entender isso.”

Para surpresa dos coronéis da Polícia Militar do Rio, os comandos das unidades foram entregues a capitães com idades entre 26 e 34 anos. São oito homens e duas mulheres que enxergam no projeto um trampolim profissional, numa carreira em que geralmente se sobe posto a posto.
“Eu tenho 30 anos e lidero 325 homens. O comandante do 18º Batalhão, que atua na mesma área, já é coronel, deve ter uns 40 anos e está à frente de pouco mais de 400 homens. Não dá para não encarar esse cargo como uma oportunidade”, assegura o capitão Medeiros, da Cidade de Deus. “Cheguei a um posto de comando dez anos antes do normal. Não posso desperdiçar a chance de fazer bonito.”

Para manter a motivação em alta, o secretário Beltrame abriu um canal de comunicação direto com os comandantes das UPPs. Liga para seus celulares e instruiu os subsecretários a atendê-los sempre que chamados. Assinou convênio com a Prefeitura do Rio para que todos os policiais da pacificação recebessem um bônus de 500 reais. Na última formatura do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças, em 20 de abril, o PM escalado para subir um morro com UPP sentia-se premiado.

Em julho, o deputado estadual Marcelo Freixo, do psol, o político que presidiu a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio, tinha lá suas dúvidas. “As UPPs estão dando certo sim”, ele reconheceu. “Mas vêm deixando as milícias intactas. As UPPs são a maior reafirmação do positivismo republicano que eu já vi. Nunca se buscou tanta ordem e progresso nesta cidade como agora e, como as milícias trabalham dentro da lógica da ordem, ainda não viraram alvo.”

Opinião semelhante tem o sociólogo Cláudio Beato, diretor do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais. No ensaio intitulado “A estruturação de atividades criminosas: um estudo de caso”, ele alerta para o risco de o Rio estar se sentindo pacificado não só por causa das UPPs, mas também pela expansão das milícias. Segundo ele, há, na atividade criminosa mundial, quatro fases de desenvolvimento. A primeira é o confronto de gangues, com motivação mais societária do que econômica. A segunda acontece quando os grupos passam à competição armada. Na terceira, as gangues dominantes entendem que o confronto é ruim para o controle territorial e adotam políticas assistencialistas.
A quarta é quando se institui a máfia politizada. Para Beato, o Rio migra, nesse exato momento, da segunda para a terceira fase, à sombra tranquilizadora das UPPs.

Uma análise da segurança pública de Medellín dois anos depois da implantação da mano dura também dispara alertas sobre o futuro da pacificação. A taxa de homicídio voltou a subir – ronda os 94 homicídios por 100 mil habitantes. Em dois anos, um aumento de 109%. Crimes como a pirataria e a prostituição seguem o mesmo caminho. Especialistas no assunto atribuem a recidiva ao papel que o Estado colombiano, apesar das promessas, deixou de exercer, não atuando para diminuir o desemprego e aumentar a oferta de serviços de saúde, de educação e novas perspectivas de vida para os jovens das áreas retomadas. A Comuna 13, região administrativa de Medellín que recebeu mais reforço policial e militar e serviu de vitrine ao governador Sérgio Cabral, lidera novamente os índices de violência. Passou a servir de exemplo para mostrar que polícia, só, não resolve. Pela experiência colombiana, quando há segurança, as outras faltas ficam mais evidentes. E a insatisfação popular se volta contra a polícia, que passa a marcar para os moradores o começo e o fim do Estado.

Fazia 12 graus no Rio quando o assessor de imprensa Dirceu Viana abriu as portas do gabinete do secretário Beltrame. Numa das mãos, o gaúcho trazia uma cuia de chimarrão. Na outra, uma garrafa térmica com água quente. Sobre a mesa de trabalho, havia uma minigranada. No aparador situado ao lado do sofá, uma estátua de Dom Quixote em metal. Aos 53 anos de idade, Beltrame é o homem que mais tempo chefiou a segurança pública do Rio. Em 30 de abril, completou 1 212 dias no cargo.

À vontade no sofá, disse já ter lido sobre os revezes na Colômbia. Preferiu falar do Rio: “Quando implantamos as UPPs, eu disse ao governador que o policial na escadaria da favela não resolveria o problema da violência, que ele só permitiria que o Estado cumprisse o resto de suas missões, que é dar água, saúde, educação, escola e emprego. A segurança, já dizia Tony Blair, é o primeiro dos direitos, e eu garanto que não há riscos de faltar policiamento.”

Beltrame sabe que a Polícia Militar perde anualmente uma média de mil homens – por morte, aposentadoria, doença ou afastamento. Na maioria dos casos, esses policiais ou seus familiares continuam recebendo salário ou pensão. Se, até o fim do ano, as quinze células de pacificação previstas no projeto forem mesmo inauguradas com o mínimo de 100 homens por UPP, à folha da PM se juntarão em 2010 mais 2 500 soldados. A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro autorizou a contratação de 4 mil policiais militares por ano até 2014.

O problema, agora, é encontrá-los. Os três últimos concursos da PM no Rio deixaram mais da metade das vagas abertas. Em 2009, 42 mil inscritos disputaram 4 mil vagas. Só 1 608 tiveram nota e condições físicas suficientes para passar. Para remediar o problema, o concurso deixou de exigir a prova de matemática. Beltrame diz que com a UPP haverá mais interessados em entrar na corporação – lembrou o bônus da Prefeitura e o aumento no número de vagas para mulheres. Acompanhando a entrevista do outro lado da sala, Dirceu Viana comentou: “É, secretário, mas isso aí ainda é um desafio.” O secretário concordou.

Para Beltrame, o projeto UPP ainda está incompleto. Falta-lhe controle técnico de qualidade. Mas não há volta. Hoje, não há convidado estrangeiro célebre que não visite uma favela pacificada. Entre eles: o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, o ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, o ministro de Segurança de Israel, Yitzhak Aharonovitz, a primeira-dama do Líbano, Wafaa Michel Sleiman e as pop stars Madonna e Alicia Keys. A UPP parece estar para o Rio como o Bolsa Família para o Brasil. “Os políticos não vão mexer porque perderiam votos”, concluiu o secretário.

Em maio, um PM franzino de 22 anos enfiado num colete à prova de balas tamanho GG ocupava a recepção da unidade da Providência. Cadeiras de plástico branco mobiliavam a sala de espera, que permanecia às moscas. O telefone mantinha-se mudo. O prédio, de seis andares, pintado de branco e azul poucos dias antes, ainda guardava os vasos sanitários para crianças da creche que antes ocupava o edifício. O elevador que levava à cobertura com vista de 180 graus para a favela estava enguiçado. Uma tevê com interferências dava receitas culinárias. Mas a cozinha ainda não alimentava os policiais, que, na hora do almoço, encomendavam quentinhas por telefone ou recorriam ao batalhão mais próximo.

“Ainda precisamos nos organizar”, disse o capitão Glauco Schorcht, um jovem de olhos verde-claros e cabelos curtos, que assumiu o comando da UPP da Providência aos 34 anos de idade. Glauco fala baixo e se diz tímido. Recebeu o convite para assumir aquela célula de polícia comunitária com um aviso: “A Providência é uma pedreira.” Topou na hora. Num giro pelo prédio, contou que, antes de virar policial, trabalhou no McDonalds e em um banco, vestindo aquele colete que diz: “Posso ajudar?” Passou no vestibular de física, mas largou o curso. Começou a fazer direito, mas trancou a matrícula porque a mensalidade ficou cara. Nas duas primeiras semanas de UPP, Glauco só fez três refeições completas. Não viu a namorada nenhuma vez. Por ordem de Dirceu Viana e sua equipe, passou dias e noites diante de microfones, atendendo à imprensa.

Em 14 de agosto, Glauco será príncipe num baile de debutantes do morro da Providência. Na noite do evento, usará farda de gala e dançará com uma das quinze aniversariantes diante de aproximadamente 200 convidados. Não tem a menor dúvida de que a imprensa estará presente. Dirceu Viana não deixaria passar em branco a oportunidade de “mostrar que os PMs tomaram até o lugar que os traficantes ocupavam no coração das meninas”.

 

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