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A onda turbulenta veio para ficar

Com nome de batismo inspirado em um verso de Virgílio, a Undulatus asperatus aguarda no céu o reconhecimento oficial das Nações Unidas

por Clara Becker

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Seu nome sugere mais devaneio do que rigor científico. A Cloud Appreciation Society, a Sociedade de Admiração das Nuvens, foi fundada em 2005 num país cujos céus não são exatamente de brigadeiro, a Inglaterra. O que para os 19 180 membros da entidade, que se espalham por 77 países (37 são brasileiros), é um bálsamo. Basta ver o que proclama o seu manifesto:

Cremos que nuvens são injustamente amaldiçoadas e que a vida seria incomensuravelmente mais pobre sem elas. Para nós, elas são os poemas da Natureza, a mais igualitária de suas criações... Nos comprometemos a combater a "mentalidade do céu azul" onde quer que ela exista. A vida seria tediosa se, dia após dia, tivéssemos de olhar para uma monotonia sem nuvens.

Pois foi dessa associação de apaixonados que olham para os céus em busca de beleza, e não de ciência, que partiu o primeiro aviso: havia algo de novo no ar. Ao longo dos últimos quatro anos e dez meses, Gavin Pretor-Pinney, diretor da entidade e autor do best-seller internacional Guia do Observador de Nuvens, passou a receber imagens que não se enquadravam em nenhum dos dez tipos e subtipos catalogados no Atlas Internacional de Nuvens, da Organização Mundial de Meteorologia das Nações Unidas, a omm. Pretor-Pinney alcunhou-as de "Jacques Cousteau" por terem o aspecto de um mar agitado visto de baixo.

À medida que recebia mais e mais imagens da anomalia atmosférica, Pretor-Pinney achou que ela merecia ser batizada. E como nuvem que se preza tem que ter nome em latim, nasceu a Undulatus asperatus. Undulatus quer dizer ondulado. E asperatus, turbulento, caótico, violento, áspero. O padrinho foi buscar a expressão na poesia de Virgílio, que dela se serviu para descrever o mar em dias de intempérie.

Em dezembro de 2008, o nefelibata-mor mostrou as fotos para os membros da Sociedade Real de Meteorologia, do Reino Unido, que confirmaram o ineditismo da nuvem. Ainda assim, para ela adquirir legitimidade plena e se juntar às oitenta variantes reconhecidas pela comunidade científica, será preciso que receba a chancela da omm. Pretor-Pinney encaminhou o dossiê do novo rebento atmosférico para a sede da organização, em Genebra, e espera que o veredito saia antes do final do ano.

Caso passe pelo crivo, pela primeira vez após meio século uma nova nuvem será reconhecida oficialmente. A última a percorrer esse caminho foi a Cirrus intortus, em 1951. Para os membros da Sociedade de Admiração das Nuvens a expectativa é colossal. Apesar de nada discreta, a Undulatus asperatus passou anos desconsiderada por meteorologistas do mundo inteiro, e talvez continuasse assim não fosse o olhar sonhador daqueles que andam com a cabeça nas nuvens.

Para cientistas, uma nuvem não é uma frivolidade. É uma mistura de duas massas de ar, uma quente e úmida na parte superior, e outra fria e seca na inferior. Dura uns minutos ou se mantém por horas. Sua coloração decorre da presença de detritos no vapor condensado dentro da nuvem.

O sistema de classificação de nuvens vigente é o mesmo desde sua criação, em 1802, pelo químico e meteorologista amador Luke Howard. De acordo com a aparência, elas podem ter três aspectos: as fibrosas, altas, brancas e finas são denominadas Cirrus; as formadas em grandes camadas, Stratus; e as que se assemelham a uma couve-flor são chamadas de Cumulus. Esses tipos são divididos em outros subtipos, dependendo da forma, estágio e altitude da nuvem.

As nuvens mais raras e, por isso mesmo, menos conhecidas do público e que vêm sendo estudadas pelos meteorologistas, são espetáculos a céu aberto. Mostramos aqui uma seleção de espécies estranhas, que podem parecer misteriosas para um amador, mas são perfeitamente explicáveis para os especialistas. É um convite à pareidolia, categoria de ilusão que consiste em dar significado a algum estímulo aleatório, como ouvir mensagens gravadas ao contrário em músicas. Ou ver figuras em nuvens.

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