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A dúvida, a falha

por Gastão Cruz

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Gastão Cruz estreou em 1961 com A Morte Percutiva. Hoje, com duas dezenas de livros publicados, abarcando antologias e obras reunidas, encontra-se entre os grandes poetas surgidos naquele que é considerado o "Século de Ouro" da poesia portuguesa.

Essa série de poemas inéditos é uma espécie de breve concerto, a uma só voz, sobre vozes e concertistas. Seus versos não se ocupam das composições (como acontece em Arte da Música, de outro grande poeta português, Jorge de Sena) e tampouco dos compositores. Assim, em vez de se voltarem para os mestres imortais - Mozart, Bach ou Beethoven - e suas obras, os poemas vão buscar personagens bem mais próximos de nós: os intérpretes. E, com eles, entram em cena a dúvida, o esforço, a falha, o gesto cotidiano, a finitude, marcas da condição terrena, mas que não impedem o salto para os vastos domínios da expressão e da beleza. É essa natureza dual - habitar um plano "baixo" e poder alcançar as esferas mais "altas" - que define "os grandes artesãos", como se lê em "Glenn Gould". Os poemas encerram, portanto, um conjunto de poéticas: modos de entender, de fazer, habilidades, experiências e idiossincrasias. Estamos frente ao que se poderia definir tão-somente como o empenho - ou o trabalho - para se chegar a um determinado fim: a música, apresentada não como entidade abstrata, mas no contexto de sua execução. É aí que se dá o salto: esse ofício guarda a dimensão erótica de nos poder levar - aquele que toca, aquele que canta e quem os ouve - a um gozo pleno, quando os estados de alma são um prodígio do corpo.

Onde se lê música, pode-se ler poesia.

Eucanaã Ferraz

UN BALLO IN MASCHERA

(Montserrat Caballé, roh Covent Garden, 2 de janeiro de 1981)

Pouco tempo depois de estar no palco

quem sai? Pelo amor à personagem

torturada, ou quem sente a ameaça

de qualquer mal ao canto vulnerável?

 

(Madame Caballé is unwell veio

dizer alguém à boca de

cena interrompido o primeiro acto)

 

O amor e o canto são metades

iguais do ser da arte confundíveis

por quem o canto escuta não porém

pelo cantor, digo, também por

 

ele: a voz às vezes com a dor confunde

a sua natureza, então no palco fica

uma súbita pausa um som de morte

a incerteza do que viver seja

 

 

HOROWITZ NO FESTIVAL HALL

 

Talvez ele só volte

daqui a outros vinte e cinco anos,

disse na bilheteira o vendedor;

não precisava de ser convencido

e é claro que paguei as vinte libras,

quanto custava ter a sensação

de a música ser pedra sob a onda das mãos

 

ALGUNS PIANISTAS

 

Emil Gilels tocava

como se detivesse fogo ou água:

em torno dele a luz formava um laço

de ouro líquido jorrando do teclado

 

A cabeça potente assemelhava-se

à do autor do som que se expandia

como de ouro fundido um

largo rio

 

Sviatoslav Richter imitava

o rigor da poesia ou da leitura

que dela fazem os que lêem nela

do universo a explosão futura:

 

em cada nota morre o universo

tal como em cada sílaba

da poesia, por isso ele tocava

em sala escura

 

e uma pequena luz mostrava a pauta

somente, para que não se perdesse

nenhum quinto de som, sua vogal,

e, ele e o público, nada os distraísse

 

Arturo Benedetti Michelangeli

vinha segundo a lenda acompanhado

de dois pianos e não agradecia

aplausos: só a música

 

e os autores dela deveriam

merecer o aplauso que era a escuta

apenas, uma arte tão difícil

e rara de que tanto necessita

 

também a poesia; a perfeição

parecia o limite inatingível,

por vezes atingível mito fixo

num céu longínquo como a arquetípica

 

imagem do pianista, este ou outro

dos que cantei ou já cantara quando

os vira como exemplos do domínio

dos braços e da mente sobre o rio,

 

em vertigem,

do som feito sentido,

assim sobre o teclado as evidentes

mãos de Horowitz

 

 

ANDREA CHÉNIER

 

 (Plácido Domingo, roh Covent Garden, 27 de abril de 1985)

 

O cantor sai de cena logo após

o começo do canto depois volta

e recomeça a ária; por alguns

minutos foi preciso acreditar

 

que a música findara ou duvidar

de que continuasse, como vaga

roubada pelo mar indiferente

em impossível suspensão parada

 

O canto pára às vezes indevida-

mente, e o cantor sai do palco inóspito

temeroso talvez da própria voz

 

um castelo de areia como a escrita

mas volta sempre à ânsia interrompida

tal como a vaga volta à praia lisa

 

GLENN GOULD

 

Depois de sete anos recolheu-se

à comedida sombra dos estúdios;

não queria exceder o som exacto

 

que devia criar, o seu volume:

só assim pronunciaria

convictamente, sobre o que saía

 

das teclas percutidas,

como se já cantasse, soltas sílabas;

exemplo para poetas poderia

 

ser o deste pianista ao recusar-se

a forçar o seu som até que enchesse

enormes salas (ele próprio o disse):

 

os grandes artesãos sempre algo ensinam

ao verso como outrora manolete

a joão cabral de melo neto

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