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II CONCURSO LITERÁRIO

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Os interessados em participar do concurso devem enviar um texto inédito com o máximo de 3.160 caracteres com espaço. Os textos deverão ser enviados à redação até as 18 horas da sexta-feira, 22 de maio, para o e-mail: encaixe@revistapiaui.com.br, com nome e sobrenome do autor, cidade e estado de procedência.

Para o próximo mês, escolhemos uma frase escrita, originalmente, em verso. Transposta para a prosa, ela abre um leque infinito de vôos possíveis. Decolem, pois: "Não posso mover meus passos por esse atroz labirinto."
Cecília Meireles, em "Fala inicial" (do Romanceiro da Inconfidência)

A meteórica irrupção da escocesa Susan Boyle como fenômeno musical planetário parece ter despertado talentos escondidos também deste lado do Atlântico. Dos quase oitenta participantes que pelejaram para encaixar uma frase de Nietzsche ("Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo."), três finalistas disputaram palmo a palmo a preferência da redação. Sim, da redação, e não somente do nosso amado diretor-ditador, que se encontra no merecido gozo de férias. Desta feita, excepcionalmente e com poucas chances de se repetir, a escolha do texto vencedor se aproximou perigosamente de uma escolha democrática.

Os louros recaíram sobre Marcel Godoy, gaúcho de Alvorada. Mandaste bem, tchê.



NIETZSCHE ESMORECIDO_Marcel Godoy

Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. Talvez então este livro sequer esteja sendo lido. Talvez eu não devesse sequer ter pensado em tê-lo escrito. Talvez tudo o que eu vejo já não faça mais sentido. Talvez a Terra com a Lua tenha se colidido. Talvez seja apenas meu pobre coração partido. Talvez perceba meu vocabulário se esvaindo. Talvez sinta pena por tudo o que eu sinto. Talvez tenhamos sido cúmplices nesse homicídio. Talvez venha amparar meu trôpego raciocínio, de que a vida sem nenhum claro desígnio nos entrega ao torpor do niilismo. Talvez não tão adiante eu seja por alguém interpelado e corrigido. Talvez eu devesse escrever sobre como alçar-nos às profundezas do infinito. Talvez eu já esteja lá sozinho sonhando contigo. Talvez seja talvez apenas para disfarçar o que sei desde o princípio: nenhum homem raro sequer algum dia esteve vivo. São tão-somente homens, até mesmo o anticristo.



Fernando Tadeu Franceschi Moraes
UMA OBRA EM TRÊS TEMPOS 

"As reflexões aqui contidas talvez só sejam compreendidas por aqueles que, por si próprios, já tenham cogitado esses mesmos pensamentos, ou ao menos, pensamentos semelhantes. Para os que não tiveram tal impulso, a surpresa será tanta que há de embaçar-lhes a boa compreensão. Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo." 



Comecei há muito um livro com essas palavras. Tomou-me tempo, algum suor e uma mulher.
Ao escrevê-lo, assaltado de extrema convicção, tomei para mim a tarefa de resolver os problemas da filosofia. Todos. De tão óbvia, a solução pareceu-me de inescapável verdade, obra da sabedoria de que só aqueles que enxergam no comum o extraordinário são capazes. Por isso mesmo, afigurou-se impositiva uma última conclusão. Era um livro para poucos, muito poucos; quiçá para nenhum. Não pude fugir à lógica implacável dessa assertiva. O livro era somente meu. Que assim fosse. 

II 

Observo, agora, o pequeno calhamaço de folhas amarelas datilografadas. As reflexões ali contidas continuam irrepreensíveis, claras, imediatas. Como antes. Eu, contrariamente, já não sou o mesmo. Espírito mutilado, perdi a capacidade de filosofar. Permito-me no máximo alguns devaneios bobos e o passear incerto dos olhos pela vida. Custa-me admitir, mas nem a mim mais este livro pertence.
Anoitece. 

III 

O crepitar do fogo é vagaroso, quase delicado. Uma língua curta engolfa o canto da página e vai progredindo até o centro. Logo não restará nada. Não estou feliz nem triste. Folha por folha, dedico a madrugada a cumprir minhas próprias palavras.
Amanhece.




Karina Carvalho
Quarta geração

Os termômetros marcavam -10ºC quando Anne saiu da lanchonete a muitos quilômetros de sua casa. Esquivando-se do forte vento, entrou em uma casa abandonada e deparou-se com uma estante de livros empoeirados. Um deles lhe chamou a atenção e assim que leu a última página, ouviu uma voz que lhe disse:

- Olá menina, o que fazes aqui em minha casa?

- Me desculpe, não tive a intenção de ser inconveniente, me envolvi com a história.

- Não tem problema, todos acham que não há ninguém nesta casa. E nunca há mesmo, só eu e meus queridos livros.

- Anne sorrindo, confessou adorar histórias, e com aquele frio, não havia nada melhor para se fazer.

- Vou lhe preparar um chá de maçã bem quente e se quiser lhe conto uma história, dessas de cinema.

- Sim, eu adoraria.

Afinal de contas, a nevasca perduraria durante toda a noite.

E então elas se sentaram e a velha começou a contar:

- Esta casa era a livraria de meus avós, e mamãe era filha única.

Um dia, um homem entrou vendendo um exemplar raríssimo por um preço acessível, vovô o comprou sem titubear.

Ele seguiu arrumando as estantes e pensativo pegou aquele livro nas mãos e sentiu uma força incontrolável que não o deixou distrair-se com qualquer outra coisa. Naquele dia vovó disse que ele não almoçou, não jantou e nem dormiu. Ela tentou fazê-lo parar, mas não conseguiu, desistiu e adormeceu.

Ao amanhecer, tentou despertá-lo, mas era tarde demais. Seu coração estava parado assim como suas mãos que seguravam firmemente o livro aberto na última página.

Alguns anos se passaram e vovó sem saber o porquê, guardara o tal livro em uma caixa no armário, sem nunca ter tido coragem de abri-lo.


Depois deste fato, mamãe se tornou uma menina revoltada. Aos 17 anos conheceu um rapaz, e por descuido, engravidou.

Oito meses depois procurando um vestido no armário de vovó, ela encontrou a caixa com o livro. Um filme se passou em sua cabeça, ela tentou fechar a caixa, mas não conseguiu. Pôs-se a ler, a ler e nem percebeu o dia passar.

Vovó encontrou-a deitada com os olhos fechados e o livro em cima de sua barriga e gritou desesperadamente por socorro.

Eu nasci, porém, mamãe não teve a mesma sorte.

Quando completei 15 anos, vovó com o livro nas mãos, muito doente disse:

- Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. E me fez jurar que eu me vingasse e destruísse a família de quem trouxe a maldição para nossa família, causando toda essa desgraça.

- E eu prometi.

- Fim, disse a velha gargalhando.

Anne assustada olhou para ela e disse:

- A senhora tinha razão esta história parece mesmo de cinema, parabéns pela sua criatividade.

- Mas quem disse que foi invenção, Anne Malborne?

- Em pânico, Anne questionou como a velha sabia seu sobrenome.

- Eu sempre soube. Você é a bisneta de Jonh Malborne, o verme que matou a minha família, mas agora chegou a sua vez.

- O chá estava gostoso, querida?

Anne com a visão turva e insuportáveis cólicas abdominais tentou correr, mas sem forças, caiu ao chão e começou a se debater com o efeito do cianureto.

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