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Assembléia e onomatopéias

Os olhos não servem para ver as almas. Já notei isso

por João Inácio Padilha

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Na cavidade bucal, inicia-se laboriosa faina. Os lábios se tocam e a parte posterior da língua eleva-se em direção ao palato. A ponta da língua estala contra os dentes e escorrega até o alvéolo para friccioná-lo, enquanto os lábios se arredondam. A mesma língua tange o mesmo alvéolo, com o véu palatino um tanto rebaixado, antes de arremeter contra os dentes. Volta a ponta da língua ao alvéolo, para de lá buscar alento, subir ao palato e quase simultaneamente liberar um tanto de ar. Rebaixada, a língua ataca de novo os dentes, e ainda rebaixada pressente o movi-mento dos lábios, que afinal se tocam. Uma vez mais, a língua avança contra os dentes. Os lábios se juntam novamente e a retaguarda próxima à garganta é acionada antes que a língua se projete contra os dentes para um último estalo, culminado por uma emissão sibilina.

Do mundo exterior, um aparte:

– É assim que se fala!

Exclamam:

– É isso aí!

Um clamor unânime:

– Muito bem!


ONOMATOPÉIAS FRANCESAS

Of cypress, with Psyche, my Soul.

Poe, “Ulalume”

Os olhos não sabem ver. Não conseguem diferenciar pó de neblina, e isso é grave – é quase dizer que os olhos não reconhecem as almas, quando as enxergam.

Tive esse pensamento enquanto folheava o Dictionnaire des Onomatopées Françaises, de Charles Nodier, edição de 1828. Pus os olhos no verbete âme e aprendi que o nome da alma, na maioria das línguas, é uma onomatopéia da respiração, uma derivação do fôlego, e deve ser pronunciado como se o falante arfasse (“Ce qu’il y a de certain, c’est que les differents noms de l’âme chez presque tous les peuples, sont autant de modifications du souffle et d’onomatopées de la respiration, diversement modulées.”). Fiz um test-drive: suspirei a palavra “alma”, assim mesmo em vernáculo, com o A alongado pelo L, premeditado pelo M e recuperado na última vogal. Experimentei outras línguas: âme, soul, anima, psyché. Cada palavra dessas soou como suspiros derradeiros, que se emitem quando as almas se põem a transitar desta para outra vida.

Nodier acrescentou o seguinte parecer:

A letra labial M é uma consoante que resulta, como se sabe, da junção dos lábios, de forma a que a boca bem aberta produza, ao fechar, o som composto pela raiz am – obtido pela vogal por meio do sopro emitido quando o órgão está aberto – e pela consoante, mediante o contato das duas partes, no momento em que a boca encolhe. A isto se chama “dar a alma” (rendre l’âme), sendo esta a representação da expiração humana, e o espírito dessa raiz. Ao contrário, para pronunciar o M inicial seguido de uma vogal, é preciso que as duas partes do encontro labial atuem mutuamente uma sobre a outra e se separem para a emissão do som de vogal que sucede ao som de consoante. Assim se pronunciará ma – raiz cujo espírito é diametralmente oposto ao da raiz am, pois em lugar de exprimir o último ato físico do homem, exprime, pela representação e pelo som, o primeiro ato e, de alguma maneira, a tomada de posse da vida.

Fiz os movimentos labiais prescritos por Nodier, fechei o dicionário e respirei. Às vezes, quando respiro, tenho a sensação de que o ar entra em mim em forma de neblina e sai em forma de pó. A ordem pode inverter-se, mas só na morte: tragarei pó nessa hora, e de-volverei à atmosfera uma neblina -definitiva.

Na expiração do momento último (tchauzinho pneumático que darei ao mundo), desejo que os meus olhos enxerguem a neblina a ser exalada. Mas os olhos não sabem ver. Não sabem distinguir pó de neblina, e por isso, na hora do êxtase final, não verei alma alguma saindo do meu corpo.

Os olhos não servem para ver as almas. Já notei isso.

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