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O palhaço trágico

Ferreirinha parou de achar graça na alegria

por Bruno Moreschi

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De iPod nos ouvidos e mergulhado em si mesmo, Ronaldo Ferreira se maquia ao som da bela e desconsolada Gymnopédie I de Satie. Os radiantes potes de tinta amarela, azul e verde não foram nem retirados da mochila. No reflexo do espelho, surge um rosto tisnado de melancolia. O sorriso é negro, levemente côncavo, propositadamente borrado. Escuridão também nas pálpebras. Nas bochechas, a palidez da tinta branca. Cor viva, só mesmo o vermelho de duas lágrimas, uma em cada face. O palhaço Ferreirinha não vê mais motivos para rir. Dramático, sintetiza: “Agora ele chora sangue.”

Sentado numa cadeira de lata, um Ferreirinha cabisbaixo dá início ao espetáculo. Era a festa de aniversário do menino Humberto Farins, que fazia 7 anos. A excitação tomava conta da jovem platéia. Passado um instante de silêncio, Ferreirinha ergue a cabeça e lança uma questão existencial: “Há motivo para eu me levantar, crianças?” Já engatilhadas, umas poucas gargalhadas atravessam o ambiente. São logo seguidas de outra dose de silêncio. As crianças não se mexem, prontas a explodir de felicidade. Ferreirinha volta à carga: “Há de fato motivo para o palhaço se levantar, meus queridos?” Aqui e ali alguns insistem em rir, certos de que no próximo compasso a cadeira se desmanchará e o tombo do palhaço será uma alegria só.

Mas não foi o que aconteceu — e na sala transfixada houve a sutil metamorfose da expectativa em apreensão. Uma névoa de espanto baixou sobre todos. Assustadas, as crianças não responderam à pergunta do palhaço. Do que seriam as risadas, sobrou apenas o inútil conjunto de boquinhas abertas.

Ferreirinha se levantou e abriu os braços em cruz. Olhou para o céu e, perante o silêncio das esferas, soltou uma gargalhada de desespero: “Por que não chove mais?!” E, virando-se para o aniversariante, lamentou: “Mais um ano, Humbertinho. Mais um ano que se foi para você.”

Na noite desse mesmo dia, Ronaldo Ferreira teve de enfrentar a indignação de sua mulher, Suzana Ferreira, 34 anos: “Se você continuar com essa mania de não sorrir, vai faltar dinheiro no fim do mês.” O marido permaneceu calado no sofá. Na manhã seguinte, deixou um bilhete ao lado da caneca de leite de Suzana: “Seria inexplicável explicar o explicável. Sei que você está decepcionada. Isso vai passar. Ainda serei o palhaço lúdico pelo qual você se apaixonou.”

Escreveu só para ganhar tempo. Não pretendia voltar a ser o palhaço que durante anos animara exemplarmente os aniversários chiques dos bairros de Higienópolis, Jardins e Jardim Paulistano, em São Paulo.

Ferreirinha foi sempre um palhaço atualizado. Começou com o tradicional aperto de mão que dá choque e com a flor na lapela que esguicha água, mas logo se adiantou à concorrência. Quando apareceram os estojos de mágico, pediu à irmã que trouxesse dos Estados Unidos o mais completo que havia. Fez curso de malabares com tocha quando percebeu que a pirotecnia deslumbra as crianças. Comprou luzes de néon para iluminar o palco. Não mais: “Hoje eu quero a tristeza sem truques.”

A desolação chegou em novembro do ano passado, precisamente na hora em que cortou o bolo dos seus 37 anos. Estavam ele e a família. Quando todos foram dormir, ficou para trás e se pôs a assistir, pela décima sétima vez, seu filme predileto: O Homem Que Ri, de 1928, um clássico do cinema mudo alemão. Chorou como sempre ao ver o ator Conrad Veidt no papel do trágico palhaço Gwynplaine, em cujo rosto fora talhado à faca o perpétuo esgar de um sorriso. Ferreira se deu conta de que a alegria não se dissociava da tristeza. Um verdadeiro artista não tinha como abrir mão de um dos lados da moeda da vida.

Rendeu-se então ao abismo da condição humana. Fez as contas: depois de quase duas décadas de riso, era hora de fechar a cara. Julgou o fato de jamais ter usado nariz vermelho como um sinal de que a mudança estava prevista desde há muito.

A festa seguinte a essa iluminação começaria como todas as outras. Sorrindo, ele se apresentou com o velho bordão: “Palhaço Ferreirinha, cabelinho de cenoura e nariz da sua vizinha!” Tudo seguia igual até o finzinho, quando, de súbito, veio o escorregão — que, diga-se, a princípio provocou muito risada. A queda, porém, foi acompanhada de um dilacerante gemido de pavor. Nem nos seus piores dias Kierkegaard gemeu igual. Estatelado ali no chão frio, por dois longos minutos ele pareceu que morria. Expirou declamando o grande Quevedo: “O que chamais morrer é acabar de morrer, e o que chamais nascer é começar a morrer, e o que chamais viver é morrer vivendo.”

Nem crianças nem pais compreenderam o fôlego dramático da cena, mas, como o resto do espetáculo tinha sido repleto de palhaçadas, ficou por isso mesmo. Vieram outras apresentações nos quatro meses seguintes — uma mais triste que a outra.

Ferreira não gosta de ouvir que sofre de depressão. Considera o diagnóstico simplório. Convicto, repete aos críticos e aos fãs: seguirá fazendo graça, mas não voltará a ser um palhaço idiotamente feliz. “Conheci o fundo do poço. Ignorar essa experiência seria fazer um papel tão ridículo quanto o daquele Bozo arrependido”, diz, referindo-se a Arlindo Barreto, o primeiro de vários palhaços Bozo e alegria da criançada no início dos anos 80. Depois de largar a cocaína, Bozo virou pastor evangélico. Prega vestido de palhaço.

Em março, cansado da insistência da família, Ferreira se rendeu e foi ao médico. O doutor receitou um remédio de tarja preta. “Muito obrigado, mas dispenso alegria comprada”, respondeu tristonho.

Ao deixar o consultório, viu-se no corredor lotado do Hospital das Clínicas. Acabrunhado, imaginou-se em serviço e de pronto inventou uma palhaçada. Tiraria do casaco uma banana de dinamite e ameaçaria explodi-la. Ao apertar o botão, uma flor brotaria do artefato. As pessoas chorariam de susto e depois ririam de alívio: tristeza e alegria, como a própria vida.

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