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Quiz show
Nas ruas de São Paulo, um festival de perguntas espantosas
por Emilio Fraia
Na sala picotada de divisórias, no 1º andar de um prédio da rua Sete de Abril, em São Paulo, a mulher se isola num compartimento com seu interrogador e confirma que sim, tem o hábito de usar desodorizadores de ar. Embaixo, nas calçadas, homens de terno e homens-placa seguem na lida, sem desconfiar que naquele cubículo está sendo escrito mais um capítulo modesto mas não por isso desprezível do capitalismo pátrio: está em marcha uma pesquisa que definirá o futuro dos rótulos da marca B de desodorizadores de ar.
"A senhora usa o desodorizador uma, duas ou mais vezes por dia?", pergunta X, de prancheta na mão. "Só uma vez", responde a mulher. Registrada a informação, X mostra um frasco do produto. Quer saber se ela considera a embalagem jovial. Sim, considera jovial. "É uma embalagem divertida?", avança X. A interrogada empaca. Inclina o pescoço para um lado, para o outro, tenta avaliar o grau de divertibilidade do arranjo floral estampado no rótulo. Com certo esforço de abstração, concede: "Olha, acho que é divertida sim."
A investigação se aprofunda. Com base numa escala de zero a dez, a mulher deve responder o quão atraente, acolhedora e coerente com a marca lhe parece a embalagem do desodorizador. Deve ainda revelar se a: "a) Definitivamente compraria este produto; b) Provavelmente compraria; c) Talvez comprasse; d) Provavelmente não compraria; ou e) Definitivamente não compraria". (Opção b é a resposta.)
X, de 40 anos, pesquisador há dez, agradece. A mulher desocupa a cadeira e, levando a agenda que ganhou de brinde, volta para as ruas.
O centro de São Paulo é o lugar onde mais se pergunta no Brasil. A quantidade de pontos de interrogação no ar é verdadeiramente prodigiosa. Na rua 24 de Maio, não longe do QG do desodorizador, graves questões são levantadas a respeito da barra de cereal. O procedimento é o mesmo: o pesquisador intercepta um transeunte e o convida a subir a uma sala alugada, onde provará uma barra de cereal para emitir opiniões sobre textura e crocância do produto. O intuito é comparar a barra A com a barra B, dos concorrentes. Coco é o sabor em questão. Duzentos metros adiante, milita a turma do sabor banana com chocolate.
Y sendo as pesquisas confidenciais, os pesquisadores preferem manter o nome em sigilo precisa captar jovens "de 20 a 25 anos classe B". Na pesquisa das barras de cereal, ganhando 8 reais por questionário respondido, Y faz em média 60 reais por dia. O valor por questionário pode chegar a 15 reais, dependendo do cliente que encomendou a pesquisa. Não é um trabalho fácil. Além de os transeuntes estarem sempre com pressa e sem paciência, certas variáveis demográficas são difíceis de cercar (a turma das barras de cereal precisou de um dia inteiro para conseguir um jovem de 20 anos classe A no centro de São Paulo).
Y tem experiência. Já trabalhou em pesquisas sobre sabão em pó, tampa de iogurte, cueca e se orgulha de ter entrevistado o empresário Antônio Ermírio de Moraes a respeito de óleos e graxas. "Uma vez", ela conta, "pesquisei sobre vasos sanitários para saber o que as pessoas achavam da caixa acoplada. Uma mulher quebrou a unha no botão da descarga e eles decidiram repensar o design."
De acordo com Silvia Almeida, gerente de operações do Ibope Inteligência, que pesquisa consumo, marca e opinião pública, só para entrevistas por telefone a empresa empregou cerca de 300 pessoas entre setembro e dezembro de 2008 e perguntou-se de tudo, como se não houvesse amanhã: O senhor tem perfil em algum site de relacionamento? Compra produtos em promoção? Em qual marca de sabão em pó a senhora mais confia? O Ibope Mídia, que mede audiência de rádio, jornal, televisão e internet, faz cerca de 1 240 entrevistas diariamente, em onze estados. São quase 400 mil entrevistas e milhões de perguntas por ano. Segundo Dora Câmara, diretora comercial, 20% das entrevistas são repetidas posteriormente, para identificar distorções e garantir a fidedignidade da informação coletada.
Na calçada da 24 de Maio, Y confidencia que ali perto, no número 342 da Sete de Abril, cidadãos estariam sendo submetidos a uma bateria de perguntas sobre (misteriosas) "frutas amarelas". Mais à frente, uma jovem comanda a enquete sobre aparelhos odontológicos. A poucas quadras, na direção da Xavier de Toledo, estão perguntando sobre leite. "Tem gente aqui no Centro que sobrevive de pesquisa", diz um entrevistador. "Só aceitam responder porque damos o copo de leite."
Na saída da estação República do metrô, as perguntas são sobre salgadinhos (sabor queijo, presunto e cebola com salsinha). De prancheta em punho, uma entrevistadora comenta que não é novata em pesquisa de alimentos. Um de seus trabalhos anteriores foi sobre pirulitos. "Eu perguntava em que momento do dia a pessoa costumava chupar pirulito. Não é nada simples", suspira. "É preciso técnica."


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