Os interessados em participar do concurso devem enviar um texto inédito com o máximo de 3.160 caracteres. Os textos deverão ser enviados à redação até o dia 20 de março para o e-mail: encaixe@revistapiaui.com.br, com nome e sobrenome do autor, cidade e estado de procedência.
Todos os textos deverão conter a frase: "Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você". Sim, é a abertura da Carta ao Pai, do jovem Franz Kafka.
Houve a Crise Mundial, o Natal, o Réveillon, a eleição de Sarney, o Carnaval e agora, ao que parece, Aécio Serra e José Neves vão mesmo fazer um Kelvin. Nessa azáfama esfuziante de lubricidade, em meio a 79 textos enviados para o II Concurso Literário de piauí, o ganhador foi João Athayde, que, bem a propósito, encaçapou a frase "Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite", no seu textículo "Das transgressões sexuais".
O VENCEDOR
DAS TRANSGRESSÕES SEXUAIS_João Athayde
Às cinco da tarde o corpulento detetive Sam Spada tirou o cigarrinho feito à mão da aba da orelha, apertou-o com os nodosos dedos polegar e indicador para melhor compactar o fumo ordinário e, sem mais trololó, explicou à jovem e agônica cliente que o esposo dela tinha, sim, uma amante. Meticulosamente, para fazer jus aos altos honorários, Sam Spada descreveu a rica residência alugada pelo marido e pormenorizou a portentosa amante que, ao que parece, gostava de estar sempre deitada e nua, numa disponibilidade para o sexo que seria capaz de escravizar todos os machos desde o homem de Neandertal ou Adão, caso sua cliente fosse adepta do criacionismo. Depois dessas revelações deveras cruciais à dignidade ultrajada da contratante, sem mais preâmbulos Sam Spada entregou-lhe uma cópia da chave da casa dos prazeres ilícitos, astuta e misteriosamente surrupiada pelo seu sócio Daniel Hammeto, pegou o chapéu estilo Tyrone Power sobre a mesa e se escafedeu dessa fábula.
A continuar nessa pegada, vou estourar os até 3 160 caracteres exigidos para este texto sejamos, pois, o mais sucintos possível. Ao toque de caixa direi apenas que nossa heroína levou quatro horas para embelezar-se, tomar um táxi, entrar na casa que o marido tinha alugado e invadir o quarto dos amores traiçoeiros. Os dois marido e amante estavam deitados lado a lado. Ambos dormindo, ele com um sorriso de querubim nos lábios lascivos; ela com a boca aberta num milenar aturdimento de viscosas misturas de hidrocarbonetos pré-históricos. A situação era tão inverossímil que a esposa pensou que desmaiaria. Ficou um longo tempo olhando o casal no leito de pecado, a voz embargada, os olhos lacrimejantes. Então sentiu piedade de si, do marido, do mundo. Melhor ir embora. Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite. Na sala, desabou numa poltrona. Se ele estivesse com uma prostituta, compreenderia com relutância; se ele estivesse com uma ninfeta, ficaria indignada; se ele estivesse com um travesti, ficaria transtornada. Mas ser substituída por uma boneca inflável, ah não! Isso não!

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