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Sardanapalo
Babilônios cabotinos contracenarão com garbosas falanges assírias?
por Zuca Sardan
(SARDANAPALO) - Haja paciência!... Quanto tempo faz, que, por impróvidos problemas de Estado, não podemos mais fruir, eu e minhas três dondocas, de nossos conjugais folguedos no frondoso jardim suspenso da Vovó!...
(MANDRA) - Eis que adentra em nosso luxuoso salão o General Xamor.
(SARDANAPALO, bocejão) - Que ventos te embalam, Xamor?...
(NAZDA, surdina) - Nosso crocodilo Raxar o bocou pelo pé... Qua-Qua-Quaaaa...
(XAMOR) - Ai! Meu pé, ai!, Grão Sardanapalo, Glória da Mesopotâmia, AAAI!!!
(SARDANAPALO) - Rara invocação, Xamor... Diz-me, pois, a que vens, afinal?
(XAMOR, passo um sapo pro Raxar, que sossega) - Oh, gralhas infaustas! Oh, inexorável Fatalidade!...
Nabopolassar se aproxima, com seu poderoso batalhão.
(SARDANAPALO) - Esses babilônios, vãos cabotinos!... Não podem contracenar com as nossas garbosas falanges assírias, que a teu indômito comando, General Xamor, e pra minha glória supina, conquistaram Egito, Babilônia e
Palestina!...
(XAMOR, pigarrinho) - Bons tempos aqueles, Sardanapalo, em que luzíamos nos Médio e Próximo Orientes!... Mas, de há tantos anos bajulados pela Fortuna, nossos soldados se tornaram desleixados, devassos, beberrões...
(SARDANAPALO) - Uma vergonha, Xamor!... Oh, decadência!...
(XAMOR) - Querem te imitar, Sardanapalo!... Mas sem aquela tua elegância...
(SARDANAPALO) - Só o Rei tem direito a ser tirânico e devasso. Aos súditos, cabe o dever de se mostrarem sempre fiéis, cordatos, obedientes e... trabalhadores.
(XAMOR, suspirão) - Entretanto... enquanto conversamos, Nabopolassar...
(SARDANAPALO) - Ouço lá uma bulha... Enfim, aos soldados cabe a sagrada missão de se manterem ferozes, heróicos, e de, no fim, morrer pelo Rei.
(XAMOR) - Assim foi. Os poucos que sobraram... fugiram. E Nabopolassar...
(BARULHOS) - BRONG! BROOOOOOOOOOOOOONNNG!...
(SARDANAPALO) - O Castelo está desmoronando... Passa-me a taça, Nazda...
(XAMOR, pigarrinho) - Os persas estão forçando a porta do salão, Majestade...
(SULEIMA) - Caem paredes... CRASH!! POFF!! PAFF!!!
(SARDANAPALO) - Verte-me do tinto persa, Nazda. Belo púrpura...
(XAMOR) - A porta ainda resiste, mas os lustres desabam, os móveis dançam, as paredes racham... adensa-se a fumaceira de incêndio. Que faremos?...
(SARDANAPALO, ergo a taça) - Que nos venha o Pintor Delavigne...
(DELAVIGNE, entro com pincéis, palheta, tela, cavalete) - Salve, Sardanapalo!...
(SARDANAPALO) - Delavigne, pinta agora a minha morte nas chamas...
(DELAVIGNE, aprumo a tela, esgrimo o pincel) - Às minhas costas, a porta da sala que o Público assedia. Ao centro da composição, tu, Rei Sardanapalo, em pose airada...
(SARDANAPALO) - Muito bem. Morrerei bebendo vinho. Mas ninguém comerá minhas viúvas. Tu, Xamor, pega a Sulaima pelo pescoço, fecha a carranca e alça o punhal.
(XAMOR, pego Sulaima, que esperneia) - Corto-lhe a cabeça, Majestade?
(SARDANAPALO) - Ainda não, deixa o Delavigne fixar o flagrante.
(NAZDA e MANDRA, corremos à volta, esbaforidas) - SOCORRO!! SOCORRO!!
(SARDANAPALO, admiro o quadro) - Excelente, Delavigne... e o Público?...
(DELAVIGNE) - O Público contempla o quadro, mas do lado de fora da tela.
(SARDANAPALO) - Ledo engano... a porta rachou, o Público já irrompe pela tela, e o teto... desaba... CAPOOOONGAAAAAAAAA... Baixa a cortina, Mandra...


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