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Fórum social virtual

Nerds de todo o mundo, uni-vos!

por Vanessa Barbara

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Na fila do credenciamento, uma massa de garotos vestindo bermuda arrasta seus computadores em carrinhos de feira. Outros trazem notebooks debaixo do braço, além de caixas de ferramentas, garrafas térmicas e colchonetes. Estão prestes a entrar na segunda edição da Campus Party, em São Paulo, um evento de tecnologia em que os 6 mil participantes - e seus computadores - acampam durante sete dias para compartilhar uma conexão à internet de inacreditáveis 10 gigabytes (10 mil vezes mais rápido do que uma conexão normal). Na prática, trata-se de um galpão onde todos interagem em rede, baixando jogos eletrônicos e transmitindo seus programas de áudio e vídeo a quem se interessar. Também acontecem palestras ligadas a doze áreas temáticas, como blogs, games, fotografia, astronomia e software livre. É o Fórum Social Mundial do mundo nerd.

Este ano, o evento aconteceu no Centro de Exposições Imigrantes, entre os dias 19 e 25 de janeiro. Foi uma semana de intensa balbúrdia, com gente gritando em megafones, palestrantes tentando chamar a atenção do público e empresas fazendo todo tipo de promoção. "Parece a Super Casas Bahia", comentou um participante, em alusão ao feirão de fim de ano organizado pela loja de varejo. A arena principal podia ser dividida em setores: havia uma ala só de garotos rodando jogos como Crysis e Counter-Strike, absortos em fones de ouvido gigantes. Outra só de entusiastas da robótica, soldando placas e estudando circuitos para fabricar máquinas antropomórficas com cabeças de som estéreo e cabelos de fibra ótica. O baiano Cristiano Pimentel, 25 anos, funcionário público de Alagoinhas, apresentou um projeto que lhe pareceu revolucionário: um aquário que alimenta automaticamente os peixes. Na área de modding - modificação de computadores -, reinava a bizarrice de cores e formatos de CPUs. Alguns gabinetes imitavam carros e robôs, outros eram feitos de madeira, de plástico transparente e chegavam a medir quase 1 metro de altura.

Orgulhoso de si mesmo, um participante fulminou: "Hoje o nerd é uma das coisas mais importantes que existe, é o cara que move o mundo." Na Campus Party de 2009, eles vieram de 26 estados do Brasil e de vários países do mundo - chegou a correr um boato de que havia um sujeito da Bielo-Rússia que viera de Minsk só para isso. (Ele não foi encontrado.) A maioria dos participantes era do sexo masculino e estudava ciência da computação. Que ninguém pense que são jovens sem bandeira. Há quarenta anos estariam gritando: "Abaixo a ditadura!" Hoje, continuam criando calos nas cordas vocais, agora em oposição à ditadura da propriedade intelectual. "Viva o pinguim! Viva o software livre!", gritaram todos na abertura da feira, em referência ao pinguim que serve de mascote ao Linux, o Windows dos anarquistas, um sistema operacional que pode ser baixado de graça.

Alguns participantes confessaram frequentar a Campus Party só para fazer uso da conexão rápida e baixar vídeos, seriados e jogos. Alguns traziam discos rígidos com capacidade para armazenar até mil filmes. A expectativa dos organizadores era que houvesse um efetivo compartilhamento de conhecimento e criação de novos conteúdos - de preferência, mais ambiciosos do que o alimentador de aquários. Durante o evento do ano passado, dois jovens desenvolveram uma geringonça que, ao emitir raios infravermelhos, substituía tanto o mouse quanto o teclado. Os inventores utilizaram apenas o que estava à mão: velcro, sensores, pilhas e um controle de videogame Nintendo Wii. MacGyver se roeria de inveja.

Em meio a militantes anticopyright, entusiastas de sites de relacionamento e fotógrafos amadores, havia os descompromissados. Estavam ali só para se apoderar dos pufes e navegar ao deus-dará. Na tarde de quinta-feira, o publicitário Rodolfo Castrezana, 38 anos, tomava suco de goiaba e jogava Spore. Na sexta, ele continuava lá, firme e forte, dessa vez transmitindo imagens em tempo real de uma amiga sua que discorria sobre pastéis de frango, origami e inutilidades afins. São cenas assim que instilam a dúvida em alguns. "Eu fico vendo uns vídeos que a galera libera do dia-a-dia da feira e me pergunto sobre a utilidade desse evento", ponderou o biólogo e blogueiro Thiago Henrique Santos, 26 anos, de São Bernardo do Campo.

Como 72% dos inscritos tinham entre 18 e 29 anos, ninguém duvidou da informação extra-oficial de que foram compartilhados mais de 6 gigabytes de conteúdo pornô. E não causou espanto o fato de que, a despeito da presença de Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web e do primeiro website, as grandes estrelas do evento foram as três coelhinhas da revista Playboy que se revezavam no estande da Abril: a ruiva Ana Lúcia Fernandes, a morena Márcia Spézia e a loira Thaiz Schmitt, todas vestidas com maiôs minúsculos, meia-calça arrastão e rabinho de pompom. As três viviam cercadas de nerds esfuziantes com suas câmeras digitais em punho. Um deles chegou a apalpar os glúteos da coelhinha ruiva, que saiu do evento chorando. O vilão ficou conhecido como o "bolinador de coelhinhas".

Como era de se esperar, durante as madrugadas a Campus Party seguia animada. Entre um download e outro, participantes organizaram mundanas partidas de truco e rodinhas de violão. "Acho que desaprendi a dormir", disse um. "Baixei 5 gigabytes em quinze minutos", comemorou outro. Os que preferiam cochilar se dirigiam às duas mil barracas do setor de acampamento. "Sinto frio", reclamou Felipe Attílio, num bate-papo virtual. "Comprei um edredom pra não morrer congelado, mas ele fede. Não sei se prefiro ficar com frio ou feder."

A Campus Party 2009 chegou ao fim tendo reunido 2 492 desktops e 1 508 laptops. Ainda não se tem o balanço final da feira. Sabe-se, porém, que acertou na mosca o nerd sedutor que arriscou a cantada "Você para mim é o Google: acho tudo que eu quero em você". Por outro lado, não ficou claro se o sujeito que estava trocando um rim por um MacBook aluminium de 13,3 polegadas, 360 Gb de HD e 4 Gb de RAM encontrou um interessado. (Melhor não, porque logo logo chega a versão com 8 giga.)

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