Estadão.com.br
‹ Ir para edição atual

Busca avançada





  • Edição 68
  • Edição 67
  • Edição 66
  • Edição 65
  • Edição 64
  • Edição 63
  • Edição 62
  • Edição 61
  • Edição 60
  • Edição 59
  • Edição 58
  • Edição 57
  • Edição 56
  • Edição 55
  • Edição 54
  • Edição 53
  • Edição 52
  • Edição 51
  • Edição 50
  • Edição 49
  • Edição 48
  • Edição 47
  • Edição 46
  • Edição 45
  • Edição 44
  • Edição 43
  • Edição 42
  • Edição 41
  • Edição 40
  • Edição 39
  • Edição 38
  • Edição 37
  • Edição 36
  • Edição 35
  • Edição 34
  • Edição 33
  • Edição 32
  • Edição 31
  • Edição 30
  • Edição 29
  • Edição 28
  • Edição 27
  • Edição 26
  • Edição 25
  • Edição 24
  • Edição 23
  • Edição 22
  • Edição 21
  • Edição 20
  • Edição 19
  • Edição 18
  • Edição 17
  • Edição 16
  • Edição 15
  • Edição 14
  • Edição 13
  • Edição 12
  • Edição 11
  • Edição 10
  • Edição 9
  • Edição 8
  • Edição 7
  • Edição 6
  • Edição 5
  • Edição 4
  • Edição 3
  • Edição 2
  • Edição 1


Compartilhar:

TV paciência

A eletrizante programação do transporte público paulistano

por Vanessa Barbara

Tamanho da letra:
Imprimir:

Em São Paulo, a bordo do ônibus Praça do Correio/SESC Orion, linha 5 317, o cidadão pode passar 119 minutos até atingir o destino final. Muita gente viaja de pé. Embora o percurso à tarde seja razoavelmente livre de trânsito, é possível envelhecer lá dentro.

"Para se fazer um atabaque, cortam-se pequenas ripas...", é uma das coisas que o paulistano aprende durante o trajeto. Desde o começo do ano passado, 1 034 coletivos receberam monitores de LCD com programação das companhias BusTV Brasil, TVOut, BusMídia e TVO. Assim, é possível embicar na avenida 23 de Maio como um leigo e sair dela na condição de semi-especialista em confecção de atabaques. A TVO, presente em 468 coletivos de oitenta linhas, como a SESC Orion, conta com a cobertura geográfica mais ampla, "especialmente desenvolvida para o entretenimento dos usuários de transporte público". Exibidas em aparelhos de 17 polegadas, as vinhetas de um minuto e meio apresentam dicas de saúde, beleza, cidadania e boas maneiras. Apesar de permitido pela portaria da SPTrans, a programação não tem som, segundo a TVO, para respeitar "o direito que os passageiros têm de não serem incomodados".

Enquanto o ônibus passa pela avenida Interlagos, o viajante aprende o que é memória RAM e assiste a uma animação (incompreensível) com pinguins que tomam bolas de neve na cara. Em seguida, é submetido à propaganda de um desodorante seco, com legendas minúsculas. De dez em dez minutos, o sermão: "Você sabe o que é sífilis? Informe-se antes que seu bebê descubra."

A maioria dos usuários tenta não prestar atenção nas imagens que se sucedem, brilhantes e vertiginosas, nas telas à frente. Encostam a cabeça no vidro ou olham pela janela. Há um monitor na ponta dianteira do ônibus e outro diante do cobrador, de modo que poucos bancos ficam imunes ao bombardeio visual.

Algumas das vinhetas da TVO contam histórias de figuras locais, como a do jogador de basquete Marcos Vinícius, que, antes de se profissionalizar, pegava três ônibus para ir aos treinos. Outras dão dicas de atrações no interior de São Paulo, como a Folia com Bonecões, em Atibaia, em que há figuras gigantes com cabeça de papel machê. Também na telinha, um pacato senhor dá instruções sobre a pesca de matrinxãs. Quando o ônibus já está na avenida Senador Teotônio Vilela, lotado, e o termômetro marca 32 graus, os passageiros são presenteados com vívidas imagens das cachoeiras de Brotas, de praias e de rios caudalosos.

O espectador, que paga 2,30 reais pela passagem, também aprende curiosidades históricas sobre os óculos, o relógio, o algarismo romano e o rinoceronte. E no final, ainda com meia hora do trajeto faltando, eles estão de volta: o atleta Marcos Vinícius, a memória RAM e os matrinxãs.

No metrô, o viajante dispõe da TVMinuto, do Grupo Bandeirantes. O cardápio de atrações inclui blocos de dez segundos com as principais manchetes do dia ("Karl Lagerfeld cria moeda de ouro com rosto de Coco Chanel", "Exploração excessiva de atum vermelho diminui 10% em 2008"). O espectador ainda pode aproveitar as dicas de teatro, a previsão do tempo, os indicadores econômicos e o horóscopo - a propósito, os nativos de Libra devem tomar cuidado para não se entregarem aos prazeres da gula.

Toda a programação, silenciosa, é intercalada por vinhetas sobre o "plano de expansão do metrô", em que os passageiros são informados sobre o funcionamento da Linha C-Esmeralda, a criação de novas estações, a modernização dos trens e as melhorias no sistema. Há também os alertas: "Não dê esmolas. Ofereça a sua ajuda a entidades assistenciais de sua confiança", "Mantenha bolsas e mochilas à frente do corpo", "Não deixe as crianças se sentarem nos degraus das escadas" e "Não segure as portas. Isso provoca atrasos em todos os trens". Entre as notícias mais urgentes, há surpresas: "Comer barra de cereais é uma opção saudável e prática para o lanche." Algumas empresas também anunciam nas telas, como se não bastassem os displays de propaganda junto à parede e ao teto do vagão.

Com a Lei Cidade Limpa, a capital paulista ficou proibida de veicular propaganda em cartazes pelas ruas, mas nos subterrâneos e dentro dos ônibus, a terra é de ninguém. No metrô, há propaganda nas catracas, nas colunas, nas escadas rolantes, nas paredes, nas janelas e nos vagões. Alguns dos trens são envelopados com reclames de refrigerantes, faculdades, chocolates, instituições de crédito e perfumes. Juntam-se a isso mais 528 monitores nos trens da linha verde, 2 256 na linha vermelha e 2 448 na linha azul.

E, ainda assim, o paulistano médio não aprendeu a fazer um bom atabaque.

Conteúdo Relacionado

Links
Visite a página da revista piauí no Orkut