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Próclise, ênclise e mesóclise

A semelhança entre Camões e Deborah Secco

por Roberto Kaz

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Deborah Secco está contente com o novo visual. Pelo menos é o que se conclui pela edição 690 da Caras portuguesa, publicada no início de novembro. "Está a ser um presente andar com o cabelo desalinhado", diz ela, dando preferência ao verbo no infinitivo, como faziam Camões e Eça, e como fazem as atrizes brasileiras cuja fama se estende para além-mar e Trás-os-Montes. As declarações não ter-minam aí: "Talvez por imaturidade, tentamos mudar as pessoas ou mudarmo-nos a nós próprios e, com o tempo, tenho aprendido que ninguém muda ninguém", revela a atriz, o que leva o leitor a uma conclusão insofismável: Deborah Secco usa ênclises.

Publicada desde 1995, a Caras lusitana se diferencia da irmã brasileira por dar cobertura mais ampla às celebridades internacionais. Num país do tamanho de Pernambuco e com a mesma população da cidade de São Paulo, foi a fórmula encontrada para dar conta das 120 páginas semanais de novidades nem sempre candentes. Entre uma e outra notícia a respeito da alta sociedade lisboeta - "Ana Elias da Costa e Luís Fernandes: filhas herdam paixão pelos cavalos" -, pipocam fatos sobre empresários, artistas e monarcas estrangeiros, como o príncipe Albert de Mônaco: "Charlene Wittstock pôs silicone nos seios para agradar a Alberto." O Brasil, com uma comunidade imigrante estimada em 100 mil pessoas - que, se reunida em Lisboa, responderia por um quinto da população da capital portuguesa -, se faz presente em quase todas as edições.

Assim foi na revista de número 689, publicada no final de outubro, com Cristiane Torloni, Bruna Lombardi e Luana Piovani na capa. A reportagem, sobre um encontro entre brasileiros e portugueses no Palácio de Queluz, nas cercanias de Lisboa, trazia ainda imagens do presidente do Senado, Garibaldi Alves e - sim, ele mesmo - do publicitário e chanteur Roberto Justus, que, estima-se, deve aparecer até na Caras do Sri Lanka. Coube a outro habitué da revista, João Dória Jr., a organização do evento, que convocava os amigos a discutir "bioenergia e telecomunicações", dois temas que, decerto pela primeira vez, foram reunidos na mesma frase. (Infelizmente, termina-se a matéria sem saber a que conclusão chegaram.) Três semanas depois, na edição de número 692, a publicação dedicaria quatro páginas à estadia de Letícia Spiller em Bariloche. Em companhia do filho, ela declarou: "Pedro está a entrar na adolescência, uma fase complicada. Agora tenho de estar mais atenta e próxima." Indagada a respeito do diálogo entre eles,
foi firme: "É giro quando nos pomos a conversar", mostrando que, além de boa mãe, é uma mulher antenada com as gírias da juventude lusa.

Como toda Caras que se preza, a publicação portuguesa também conta com seu castelo. Ilha, nem pensar - não combina com o frio inverno europeu. Para compensar a falta de um balneário, membros da comunidade lusófona se reúnem uma vez ao ano para a Feijoada de Caras (a de 2008, com direito a capoeira, bossa nova e escolha da "t-shirt mais criativa", ocorreu no Algarve). Nas edições restantes, a ex-colônia é lembrada através de matérias fisgadas da Caras brasileira e adaptadas ao linguajar local.

De modo geral, os brasileiros que aparecem na Caras lusitana costumam ser atores - ou actores, como lá se escreve. A razão é simples. Das cinco novelas veiculadas pela Rede de Televisão Portuguesa, duas são produções da Record: Amor e Intrigas e Prova de Amor, a última, líder absoluta em audiência. É pouco se comparado à grade de programação da SIC, emissora que ocupa o segundo lugar na preferência do público: cabe a ela transmitir seis novelas da Globo - mais até do que a própria emissora no Brasil. Como a oferta supera a demanda, algumas são jogadas para a madrugada. Quem quiser acompanhar o enredo de A Favorita, por exemplo, deve ligar a televisão quando faltar quinze minutos para a meia-noite, o que pouco se dá a Deborah Secco, que encara a personagem Maria do Céu. "Os verdadeiros sentimentos significam mais do que pequenos objectos", é o que declarou a Caras, indiferente às regras do novo acordo ortográfico.

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