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Ossos, corpos, roupas

por Luís Miguel Nava

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Escrevo onde à nudez cabe o papel habitualmente atribuído a uma janela. Quando afasto as cores para no lugar delas não deixar senão a luz ou me debruço ao peitoril sobre os meus próprios intestinos, a ficção fica por conta dos relâmpagos. É como se habitasse uma cidade que tivesse um espelho por subúrbios e o mar viesse estilhaçar-se ao fundo da memória, onde se encontra o coração. Abro na página um buraco onde alicerço a casa, as letras vêm às janelas.


NA GÁVEA

Ocorre-me de vez em quando a idéia de que o homem que nos barcos sobe à gávea o faz na realidade apenas para perscrutar a sua própria pele, obter dela uma outra perspectiva, funcionando o mar como uma representação muito aumentada, qualquer coisa como uma metáfora ou uma lente. É pelo menos desse homem que eu me lembro sempre que sobre a minha pele, inquieto, me debruço, a avaliar os mais leves prenúncios de intempéries.


INVERNO

Havia já algum tempo, começara-se-lhe o corpo a encher aos poucos de feridas, através das quais se adivinhava um céu que permanentemente prenunciava tempestade. As malas iam-se entretanto amontoando ao pé da porta. Sobre elas, meio amarrotado, alguém deixara o espesso cachecol e o guarda-chuva, o qual, apesar de ele na rua o segurar, obviamente, com a mão, abria para dentro do seu espírito. As pessoas, pouco habituadas a ver alguém andar em semelhante posição, entreolhavam-se, interditas, sempre que ele passava, às vezes encharcado até os ossos por aquela chuva que de súbito o seu espírito fazia desabar em cima dele.


VESTUÁRIO

Um dia descobriu-se que ele, em vez de, como é hábito, vestir a roupa sobre a pele, a conseguia enfiar por baixo dela, ostentando, assim, uma nudez perpetuamente deformada. A ninguém desde aí voltou a passar despercebido que, apesar de nu, ele se encontrava agasalhado e que por baixo da pele dele a roupa competia com o volume dos seus músculos. Como se a malha, ou a fazenda, de que certas peças do vestuário se compunham fosse no seu próprio espírito engendrada, urdida nos seus próprios intestinos, era a partir deles que ele se vestia, agasalhava e conferia ao seu aspecto dignidade. 


ATRAVÉS DA NUDEZ

Este garoto é fácil compará-lo a um campo de relâmpagos
encarcerando um touro. Através da nudez vêem-se os
astros.
É onde o poema interioriza
a sua própria hipérbole, a paisagem.

Movem-se os tigres como câmaras na areia, prontos eles
também a deflagrarem. A manhã
espanca a praia, é impossível descrevê-la sem falar
dos fios deste poema
que a cosem com a paisagem.


WASHER

De vez em quando a roupa enfia-se-me toda para o coração, fazendo dele a máquina e do sangue o detergente, e a pele via atrás dela, às vezes precedida ainda pelo próprio tempo. São séculos e séculos que nele nessas alturas revolteiam: vêem-se-me os ossos ir ganhando aos poucos um sentido que só quando o tempo por eles passa como uma corrente elétrica os anima.


OS OSSOS

Um dia, ao acordar, deu por ter deixado todos os seus ossos num dos sonhos, do qual, como dum espelho, a carne e a roupa juntas irrompiam. Nunca mais desde então os pôde espetar na realidade, coisa que antes tanto se orgulhava de fazer. Talvez num cão fosse possível encontrar a necessária obstinação para os trazer de novo à superfície. Contudo, a tal profundidade os ossos estariam que, por muito que o animal escavasse, sob as suas patas, haveriam de romper as águas de mil rios, pedras, folhas, a enxurrada do universo e, embravecido, o próprio mar, mais tudo aquilo ainda de que habitualmente os sonhos se compõem, antes que deles se deixasse adivinhar o mais breve vestígio.


A ROUPA

Entre o meu corpo e a roupa que o reveste há uma distância enorme. Dir-se-ia que a roupa está nas insondáveis profundezas dum abismo em torno de cuja proteção os meus órgãos se expusessem aos caprichos do céu.
Bloqueiam-me as vértebras palavras de cujo sentido o próprio sol precisa para brilhar. Sai-me do corpo o tempo num só vômito, o que torna transparentes todos os meus órgãos. A roupa é uma incógnita, esmagada assim entre a esperança e as torrentes.


TRANSCRIÇÃO

O corpo escolhe os buracos da vida através dos quais possa crescer. Fá-lo de forma reptilínea, esfolando-se contra as arestas do tempo, onde suspenso um sol fortíssimo lhe deixa à mostra as vísceras cada vez mais profundamente. O sol parece inchar. É de crer que ele também tenha o seu buraco. As vísceras consomem-no, assimilam-no, dão dele no espírito uma imagem totalmente falseada, a cuja luz o corpo surge entre o passado e a natureza unido à sua própria transcrição.

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