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O DJ é meu pastor

Ou como Jefté virou o cabeça depois de pegar o beco

por Emiliano Urbim

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"Quem disse que Jesus só ama quem usa terno e gravata?" A resposta ocorre todo domingo, a partir das 18h, na comunidade evangélica Crescendo na Graça, no extremo leste paulistano. Ao seu lema - "aqui se louva a Deus com black music e hip-hop" - pode se acrescentar "e com boné, bermudão, tênis, regata, barriga de fora, tatuagens à mostra e jeans do mais justo ao mais folgado". O jovem negro autor da pergunta, o evangelista Roberto Soul, tem um brinco de brilhante em cada orelha, visual e gestos de rapper. Mas quem comanda o "culto da família black" é um branco de terno e gravata que atende por DJ Pastor. 

Trata-se do apelido do pastor Anderson Dias Barbosa, 33 anos. Da alquimia entre o sonho infantil de ser líder religioso e a paixão adolescente pela música negra e a cultura de rua, ele criou uma igreja que, além do dress code flexível, tem soul, funk e disco com letras evangélicas, graffiti dentro e fora, projeto itinerante de rap (Hip-Hop Ambulante), oficina de basquete (Garrafão Gospel) e até equipe de jiu-jítsu (Tatame Gospel).

Localizado num bairro de casas altas e prédios baixos, o galpão de teto côncavo coberto com Brasilit tem decoração simples: nas paredes, algumas figuras grafitadas e pintura salmão; no palco, nuvens iluminadas por um pôr-do-sol imaginário e degraus que levam a um palco de carpete bordô. São 144 cadeiras beges de plástico divididas em três grupos de 48, ocupadas em noite de culto por jovens com bíblias na mão e "glória a Deus" na ponta da língua. As crianças também são pajeadas: vigiadas por uma recreadora de macacão vermelho. Divertem-se com aula de desenho, mesa de sinuca, pebolim, tabela de basquete e, em breve, promete o pastor, um fliperama.

Uma igreja feita sob medida para a juventude periférica paulistana é versículo de um capítulo maior do que vem sendo chamado de "evangélicas customizadas". A precursora da segmentação, ainda nos anos 80, foi a Renascer, dos bispos e réus Estevam e Sônia Hernandes. Hoje há cultos para surfistas, roqueiros e até para os policiais do Bope, a elite da PM do Rio. Abrem-se pequenas concessões que permitem cativar almas não conquistadas por cultos tradicionais. "Tudo o que você vê aqui, todos esses projetos, tem um propósito, tem cunho evangelístico. São iscas para grandes peixes", compara o pastor.

Nessa pescaria espiritual, a maior atração é o noneto de black music Projeto Crescer, que inclui Anderson na bateria e sua esposa, a pastora Francine, como backing vocal. A banda gravou seu primeiro CD em 28 de setembro, ao vivo, no templo-sede do Itaim Paulista - existem duas filiais, também na região. O ingresso para o show (R$ 10 mais um quilo de alimento) dava direito ao futuro álbum. No culto de três semanas antes, Francine defendeu o ministério musical. "Precisamos que os adoradores aprendam as letras das músicas para a gravação ficar legal." E enfatizou: "Pessoas serão libertadas com esse CD!", para depois comandar uma benção coletiva a todos os envolvidos. Roberto, vocalista da banda, engrossa o coro da missão musical divina. "Deus olha pra você e pergunta, 'o que você sabe fazer?'. Você responde: 'Sei fazer rima! Sei cantar com atitude!' 'Então vai lá e faz, filho.'"

Essa síntese de sagrado e cotidiano ressurge nos sermões em que DJ Pastor "traduz" passagens bíblicas para a gíria. A história de Jefté, por exemplo, obrigado pelos meio-irmãos a se exilar e depois convocado para salvar Israel, fica mais ou menos assim: "Os irmãos chegaram chamando o cara de bastardo, de filho de prostituta, dizendo pra ele tomar seu rumo, pra ele pegar o beco. Ele, que era valente e valoroso, foi de boa. Deu um tempo, a chapa esquentou e os traíras precisaram do Jefté pra vencer uma guerra. 'Jefté, Deus te indicou pra fazer os filhos de Amon nos deixar quieto. Bora?' Mas ser humilde é uma coisa, ser trouxa é outra! Jefté, que agüentou no osso sem maldizer o Senhor, mandou na lata: 'Eu vou. Mas quero ser o cabeça!'. É que nem aquele filme do Van Damme: retroceder nunca, render-se jamais." Para completar, a filha de Jefté  - que pode ter sido sacrificada ou poupada, dependendo do teólogo -, recebe o pai vitorioso na batalha com uma canção. É o hino do Corinthians ("salve Jefté / o campeão dos campeões"). E deliram os manos e minas fiéis da Fiel.

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