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Ufanismo crítico

Haverá pré-sal e prosecco para todos

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É com os pés fincados em petróleo e as mãos empapadas de pré-sal que piauí, do alto de sua inquebrantável tradição adesista, se agrega ao gáudio nacional para comemorar seu histórico segundo aniversário. Nunca, jamais, em tempo algum na milenar história desta revista e deste tórrido torrão houve tanto ensejo para exaltação. As conquistas pátrias se sucedem em catadupa, catapultando o Brasil à primeira fila da vanguarda da regressão.

No centro-oeste, a soja verdejante jorra a alturas cerúleas e atinge aviões, provocando caos aéreo. Nos confins amazônicos, caboclos e silvícolas disputam quem toca mais fogo em madeiras nobres, burguesas e proletárias, abrindo caminho para pacatas manadas de nelores e zebus. No calcinado chão nordestino, o etanol virou do avesso a cultura da cana, que agora gera bóias-frias, casa grande, senzala, coronéis, rapadura, jagunços e execráveis duplas sertanejas. Dos laranjais paulistas, trilhões de hectolitros de concentrado do venturoso fruto cítrico são entubados e exportados para países menos venturosos. Na Cidade Maravilhosa, caveirões de alta tecnologia, auxiliados por bem equipadas milícias, evangelizam favelas mandando bala perdida em nego que estiver na frente, inclusive brancos. Onipresente, ostentatório, estentórico, reiterativo e redondamente redundante, o ministro Nelson Jobim desfila com fardas cada vez mais espaventosas. Não tem para ninguém: Tião Viana dá dois cordões de vantagem e ganha todos os torneios de sinuca de Brasília.

É o progresso que, qual insidiosa praga, alcança as pétalas mais esmaecidas do odorífero florão da América. É o progresso a espargir suas meigas larvas de dengue nas pútridas cisternas de camelódromos de metrópoles intransitáveis. É o progresso do aedes egypti que, depois de se aninhar em sombrias maletas de grampos, alça vôo para picar as veias protuberantes de protógenes, demóstenes e de sanctis. É o Brasil dengoso que se credencia a tocar reco-reco no concerto das nações.

Não é para menos. Num período de capitalismo triunfante e arrogante, o Brasil está prestes a abolir as classes sociais. Tanto que o governo vem de anunciar, com álacre alarde, que a mais numerosa categoria de trabalhadores é a das empregadas domésticas. Já são 8 milhões de proletárias exclusivas. Elas servem cafezinho a 8 milhões de patroas progressistas. Passam a gravata de 8 milhões de presidentes de ONGs. Levam à escola de inglês 16 milhões de petizes politicamente corretos. São milhões de brasileiros congraçados na busca do bem comum, demonstrando, no burburinho vivo da vida, o quão ultrapassada é a pregação em prol da luta de classes, o quanto Daniel Dantas é intrinsecamente mau e perverso. O Brasil é uma grande família na qual todo mundo sabe o seu lugar, nhô sim.

Essa paz paralisante foi conquistada e mantida, é bom que se diga, por meio de eleições livres. Agora mesmo, as urnas eletrônicas voltam a funcionar sem curto-circuito. A disputa é difícil porque as plataformas políticas são claras: todos os candidatos fizeram hospitais, escolas e linhas de metrô em profusão. Em imagens em câmara lenta, edulcoradas por pimpolhos sorridentes, todos prometem mais hospitais, mais escolas e mais linhas de metrô. É a festa da democracia.

Foram-se, sumiram, viraram documentários (que ninguém vê) os anos de chumbo. De pijama, os militares tiram uma soneca depois da peteca na praia, sossegados em seus ímpetos guerreiros por saberem que civil algum será revanchista e macho de mexer nos companheiros torturadores. As vítimas de outrora receberam o óbolo das bolsas-ditadura e estenderam a mão a seus algozes. É a república da cordialidade em marcha.

Produto direto dessa configuração social audazmente avançada, a cena cultural entrou em ebulição, ou, como diz o vulgo, bombou. Todo mundo tem um projeto e peleja por um patrocínio. Um terço dos brasileiros se prepara para escrever a biografia de outro terço, enquanto o terço que sobra providencia a sua adaptação para o cinema, com a devida negociata fiscal.

Ao lado das telenovelas de denúncia construtiva ("Nicanor, tire suas patas imundas da minha honesta muamba!"), a estética por excelência desse benfazejo período de conciliação é a do marketing em benefício próprio. Livros de auto-elogio são semeados às mancheias. Memórias de feitos formidáveis são propagandeadas diuturnamente. Homenagens a tudo e a todos pululam na imprensa, sempre severa na sua missão iluminista de servir de arauto do enaltecimento crítico.

piauí está nessa! Um brinde de pré-sal e prosecco nacional a todos!

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