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Está morto, felizmente

por Julio Cortázar

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O GRANDE JOGO

Já entendo certas gravuras
mas não sei quem embaralha,
que anverso tem a medalha
cujo verso é minha figura.

Na outra face da lua
dormem os números do mapa;
brinco de encontrar nessas cartas
a que cegamente me inclua.

De tanta alegre insensatez
nasce a areia da passagem
para o relógio do que amei,

mas não sei se a mão é dada
pelo anjo ou pelo acaso,
se estou jogando ou sou as cartas.



À ESPERANÇA

Estica tuas perninhas enluvadas, esperança hirta.
Acendo um fósforo: esquenta-te. É suficiente para ti.
Depois contemplaremos nossos rostos
e pensaremos: como
mudou.

Acreditávamos
um no outro. Vê, não se deve.
Estica tuas maõzinhas frias, esperança.

Fazer o quê, o fósforo se apaga.



O SONHO

o sonho, uma doce neve
que beija o rosto, e o rói até encontrar
lá embaixo, sustentado por fios musicais,
o outro que acorda.



O CENOTÁFIO

Irmão de mim mesmo,
espião sem honraria, mas afinal cedendo
à doce moeda do sangue,
ao falso sentinela do espelho.
Não estou todo aqui onde me falo.
Acho que me deixei no Chile e em Roma,
em Stevenson, em músicas e vozes,
num salgueiro de Bánfield, nos olhos
de uma cachorra que amei, em dois
ou três amigos mortos.
Isto que resta vive,
Mas sabe que a urna está vazia.



BILAN

O que vai ficando é distância,
estilos, afetuosas vacuidades,
e cada vez mais um pouco menos, miséria
porém em que se fica bem à vontade.

E cada vez menos um pouco mais.

Vida,
calça com joelheiras,
pezinho de alface estragada
para a maritaca.



POEMA

Encharcado de abelhas,
no vento assediado de vazio
vivo como um galho,
e no meio de inimigos sorridentes
minhas mãos tecem a lenda,
criam o mundo esplêndido,
esta vela aberta.


O POETA PROPÕE SEU EPITÁFIO

Por ter mentido muito ganhou um céu
mesquinho, a ser refeito todos os dias.
Por ser traidor até com a traição, era amado
pelas pessoas honradas.
Exigia virtudes que não dava
e sorria para esquecerem.
Não viveu. Viviam-no, um corpo impiedoso
e uma cadela sedenta, Inteligência.
Por só acreditar na beleza, foi
lixo entre os lixos,
mas ainda olhava para o céu.
Está morto, felizmente. Já deve haver
algum outro como ele.



QUARTIER

O dia dormindo rotundo
ao meio-dia em Sèvres-Babylone,
e que cântico se quebra nos telhados quase verdes de cinzas,
quase negros de rasgados, com pombos terrosos?
A essa hora correm as midinettes nas pontas dos sapatos
com a vazia bolsa cheia de talco,
com as vazias caras cheias de beleza
para dar o pulo flácido que as enterra pouco a pouco na gosmenta boca do Metrô,
e embaixo rugem os leões.

Sim, estão comendo os dias,
os devorantes, as enormes formigas peludas
cuspindo sapatos e botões, rasgando as saias
em busca da carne quente, o fácil
carrossel do meio-dia, o Bon Marché.
Ao mesmo tempo se abre a janela em cada casa
para que o céu veja as cozinhas
com a mãe prendada misturando
as berinjelas, algum dente de alho, um caldo
onde se inflama a salsinha aos chiados.
Os milhões de grãos de arroz
que caem grumo a grumo nas gargantas,
o pulo flácido que (já foi dito) enterra pouco a pouco nas bocas do Metrô
as garotas soltas,
os meninos de pastas lustrosas,
e embaixo rugem os leões
perdidos, esplendor dessa matança
como sóis de sangue e amoníaco.
O meio-dia inteiro se masturba
de liberdade e de fome
entre carroças de tomates,
as braçadas de alfazema,
e um rio de cinturas corre para sua morte suave
sobre os ônibus, o amor e os jornais,
caindo na vida deslocada
que vai se recompor às treze e trinta
quando o último leão sucumbir, abjeto,
embaixo de uma crosta de guimbas
e garfos engordurados.



DON JUAN

As doces recompensas noturnas,
o cego encontro que dessangra os braços, os gemidos
e o verde amanhecer do gozo, a queda
no clamor da corrida sem chegada,
e o desligar-se mornamente, o gesto
da carícia que prolonga no ombro seu pequeno leopardo,

dou tudo em troca do desejo. 


POEMA

Te amo por sobrancelha, por cabelo, te debato em corredores branquíssimos
onde se jogam as fontes de luz,
te discuto em cada nome, te arranco com delicadeza de cicatriz,
vou pondo em teu cabelo cinzas de relâmpago e fitas que
dormiam na chuva.
Não quero que tenhas uma forma, que sejas precisamente o que
vem atrás da tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões quando se dissolvem
no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura do nada,
acendendo suas lâmpadas no meio do encontro.
Todo amanhã é o quadro onde te invento e te desenho,
disposto a te apagar, assim não és, muito menos com esse cabelo liso,
esse sorriso.
Busco tua soma, a borda da taça onde o vinho é também a lua e o espelho,
busco essa linha que faz o homem tremer
numa galeria de museu.

Além do mais te amo, e faz tempo e frio.



OS DEUSES

Os deuses caminham entre coisas pisoteadas, segurando
as pontas dos seus mantos com gesto de asco.
Entre gatos podres, entre larvas abertas e acordeões,
sentindo nas sandálias a umidade dos farrapos corrompidos,
os vômitos do tempo.

Em seu céu despido já não moram, lançados
fora de si por uma dor, um sonho turvo,
estão feridos de pesadelo e lama, parando
para recontar seus mortos, as nuvens ao contrário,
os cães de língua quebrada,

a espreitar invejosos o abismo
onde ratos eretos disputam chiando
pedaços de bandeiras.



TOMBEAU DE MALLARMÉ

Le noir roc courroucé que la bise le roule

Si la sola respuesta fue confiada
a la lúcida imagen de la albura
ola final de piedra la murmura
para una arena oscura ensimismada.

Suma de ausentes voces esta nada
la sombra de una vaga sepultura
niega en su permanencia la escritura
que urde apenas la espuma y anonada.

Qué abolida ternura qué abandono
del virginal por el plumaje erigen
la extrema altura y el desierto trono

donde esfinge su voz trama el recinto
para los nombres que alzan del origen
la palma fiel y el ejemplar jacinto.

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