Regras
Novo ano, novas regras. Nosso imperecível concurso literário convoca os dez vencedores de 2007* - e apenas eles - a um exercício de narrativa com atrativos também para o bolso. Até o mês passado, os louros (os morenos ficaram de fora) da participação destinavam-se, essencialmente, a exercitar o intelecto e a acarinhar o ego. A partir deste mês, e pelos nove meses de gestação seguintes, caberá aos campeões de 2007 compor uma obra em capítulos. Nenhum dos capítulos deve exceder 3 mil caracteres (com espaços).
Os passos da empreitada:
1. "Antonio levantou-se, abriu a janela, e viu Maria lá embaixo, à espera". A partir dessa frase prosaica, os dez laureados criam o primeiro capítulo da futura obra. Como no concurso anterior, piauí escolherá, sempre de forma arbitrária, insondável e intolerante, o texto que julgar o melhor. O autor premiado receberá a exorbitância de 800 reais para torrar. Os demais ficarão na inveja.
2. No mês seguinte, o tal primeiro capítulo vencedor servirá de base para a continuidade da obra. Caberá aos nove participantes que não emplacaram na arrancada entrar na disputa pelo melhor segundo capítulo. O atrativo maior permanece imutável e imbafefe: 800 reais pelo melhor capítulo-seqüência.
3. E assim sucessivamente.
4. A cada novo capítulo, o vencedor do mês anterior ficará de fora, mas poderá retornar ao concurso para a edição seguinte.
5. Ao final, o leitor terá lido uma mimosa obra de ficção em dez capítulos, escrita por quase-piauienses.
* Os concorrentes, por ordem alfabética, são: André Kassu, Ciço Léo, Claudio Parreira, Franco Neviani, Hemetério, Juliana Simões Martins, Lucas Paio, Rodolfo Viana, Vicente Alves Cruz e W. Surtan.
Na piauí_21
Os vencedores do concurso literário de 2007 aportam na metade do caminho - já confeccionaram cinco capítulos do folhetim que será publicado pela piauí em sua dadivosa edição natalina. A trama adquire contornos de sinuosidade aleatória.
Resumo da obra: Antônio, o ex-garoto de cabaré que vive sob o jugo insaciável da viúva Maria de Maria Mergulhão, recebe uma carta que põe a pique seus planos de fuga para a liberdade. A carta parece ser do coronel Mergulhão - portanto não defunto como se pensava -, que propõe a Antônio uma fortuna em troca de sua permanência ao lado da viúva. Condição: fazê-la sofrer o quanto possível. Em busca de uma explicação para missiva tão misteriosa, Antônio vai fuçar num baú o passado de Maria de Maria e encontra a foto de um homem. Guarda-a e vai se olhar no espelho. Estremece.
O VENCEDOR do Capítulo V é um mineiro de Belo Horizonte, Lucas Paio. Enviou seu texto na penúltima hora, quando já se dava como certa a vitória de outro candidato aos 800 reais do Bolsa-piauí com que a revista beneficia o melhor escriba do mês.
Veja abaixo as participações:
_participação de Lucas Paio
Capítulo V - O Porão
Antônio analisa a porta de madeira carcomida. Está ali parado há dez minutos, estranhando a casa, juntando coragem. Faz que vai bater, desiste no meio do caminho, desiste de desistir. Três toques breves bastam para que, ao colar o ouvido no mogno, já escute o ruído dos chinelos.
Havia andado o dia todo pra chegar até ali. Atravessara fazendas, cruzara riachos e por duas vezes quebrara a cara: a primeira quando entrou na casa de um senhor, proseou e tomou café, xingou e abraçou, e descobriu que não era ele o procurado; a segunda quando invadiu as propriedades de uma mansão, achando errado, e foi posto pra correr por perdigueiros pouco amistosos.
Mas agora tem certeza, e é essa certeza que tanto o incomoda. Pois é simplesmente inconcebível que essa casa velha seja o "lar, doce lar" do ilustre e ex-finado coronel Mergulhão.
- Pois não - diz o velho, cortês. Bate os olhos no rapaz e troca de feição. - Ah. Entra.
Antônio segue o velho - que mais podia fazer? Observa como ele anda: curvado, as pernas arqueadas, os passos descompassados de um pingüim. Mesmo corcunda, é mais alto que ele; ainda que trôpego, traz no rosto uma firmeza que o imberbe Antônio sequer já vira pessoalmente. Sem falar, é claro, na serenidade imponente do bigodão grisalho.
- Senta - manda o velho, sentando-se também. Depois dá um sorriso, como quem se diverte com a ansiedade alheia. Intimidado pelo olhar, é Antônio quem fala.
- Recebi sua carta.
- Eu sei. Você não estaria aqui por outro motivo.
- Na verdade, eu vim mesmo foi por outro motivo.
- Você veio porque duvida de um velho que já morreu. Não tiro sua razão.
- Olha, eu só queria...
- Deixa eu te mostrar um negócio.
O velho tem dessas. Levanta e vai, os outros que andem atrás.
Se por fora a casa é triste, por dentro é só inexpressiva. Nenhum quadro nas paredes, nada de adornos, pintura chocha. O quarto onde entram deve ser o dele. O colchão não está no chão, nem faltam as cobertas; mas aquilo está longe de ser a vida boa alardeada na correspondência.
O velho abre o guarda-roupa e puxa no piso uma tábua solta. Antônio esfrega os olhos - são degraus que vejo ali? - e acaba indo atrás do homem escada abaixo.
Leva um choque. O porão oculto sob o casebre esconde tanta coisa que Antônio não sabe onde prender o olhar: nas espingardas na parede dividindo o espaço com obras de arte, nas prateleiras acomodando livros antigos, na poltrona convidativa no meio da sala, na caixa de uísques chamando pro abraço. Vê o cofre metálico num canto e não duvida que ele possa abrigar os dez prometidos milhões. Nem precisa que o velho explique. Sabe que é ali o seu refúgio, seu canto escolhido para morrer sorrindo.
- Belo esconderijo - diz Antônio sincero, sem a ironia que a frase aparenta. - Mas olha, realmente eu vim pra outra coisa.
Tira do bolso a foto amarelada e o velho ri.
- Achei que ela guardasse essas coisas com mais cuidado.
- Ela guarda, eu é que sou atrevido. - Mostra o verso com o recado manuscrito, "De quem não consegue mais viver sem teu perdão", e emenda: - Que quer dizer isso?
O velho é seco.
- Usou a palavra certa: atrevido.
- Coronel - Antônio o chama pela patente, pela primeira vez. - Tenho motivos para acreditar que o senhor manteve um relacionamento extraconjugal durante seu casamento e que eu...
A campainha interrompe o discurso, mas o velho vê com naturalidade.
- Faça um favor e abra lá pra mim. Deve ser o rapaz que pago pra ficar de olho em você.
Antônio sobe com raiva. Sente-se frustrado; "esnobado" definiria até melhor. Encara a porta de mogno e decide espiar pela greta antes de abrir.
Estremece, então: é Maria de Maria.
_participação de Ciço Léo
A vingança
A idéia de ser filho do Coronel Mergulhão fustigou Antônio durante semanas. Desde então, passava as noites em claro, vagando pela penumbra da casa, a procura de respostas que suspeitava estar dentro de si mesmo. Debruçava-se sobre a extenuante tarefa de associar recordações de sua infância e adolescência aos acontecimentos que o levaram a dividir o mesmo chão com Maria. Se de fato o Coronel fosse seu pai, não restavam dúvidas de que a viúva sabia da verdade, e este era o motivo pelo qual ela o escolhera como amante.
Em meio ao turbilhão de pensamentos, Antônio lembrava-se de sua mãe, a cafetina Merilu Bueno. Uma das fundadoras da boate L'Île de La Tentation, Merilu era conhecida como La Dueña de La Noche, tendo domado muitos homens em São João do Deus Me Livre, cidade natal de Antônio. Abandonou o filho quando tinha seis anos, entregando-o aos cuidados da amiga Dita Bolero, também quenga, a quem ele passou a chamar de Mamã Dita.
Merilu, bela morena de cabelos lisos e longos, dizia-se paraguaia e falava um "portunhol" inconfundível, que levava os fregueses ao delírio. Para Tonico, como ela o chamava, costumava dizer que seu pai era um velho muy rico. Quando crescesse, o filho herdaria dinheiro suficiente para olvidar aquela vida de mierda e ela o ajudaria a torrar toda la plata. Até então, Antônio jamais dera crédito a essas estórias. Para o amásio de Maria de Maria, as revelações da mãe não passavam de contos da carochinha, inventados para dar-lhe alguma esperança de dias melhores no futuro. Talvez estivesse enganado.
Na dúvida se Maria de Maria seria ou não sua madrasta, resolveu interpelá-la dia e noite acerca do Coronel Mergulhão. Queria detalhes sobre a vida do ex-militar e, especialmente, sobre sua misteriosa morte.
- De que ele morreu, Maria? - perguntou certa vez enquanto a viúva manobrava a velha máquina de fiar.
- Morreu porque estava vivo, ora.
- E onde ele foi enterrado?
- No teu lombo, filho de uma égua! - repeliu-o ferozmente a viúva, atolando o pé nos pedais da máquina e ameaçando furá-lo com as agulhas.
Diante das evasivas de Maria, Antônio resolveu partir para a guerra. Poria em prática o plano de fazê-la sofrer, proposto pelo "Coronel". No fundo, não esperava que o sofrimento da velha lhe valesse R$ 10 milhões. Sequer acreditava na autenticidade daquela carta. Em todo caso, a missiva era indício de que alguém os estava vigiando e queria se divertir às suas custas. Maria e o desconhecido infiltrado iriam ver quem riria por último.
Dias depois, na noite de seu aniversário de trinta anos, Antônio chegou ao sítio em um ônibus lotado de putas, acompanhadas de uma récua de marmanjos. A comemoração marcaria o lançamento do CMM, Cabaré de Maria Mergulhão, que ele tencionava instalar na casa da concubina. Entre os fregueses, um octogenário de chapéu e óculos escuros, que parecia conhecer como ninguém todos os rincões do bangalô. Era o Coronel Mergulhão.
_participação de Cláudio Parreira
As faíscas da paixão
Era difícil de acreditar, mas Antônio sabia, sentia ser ele mesmo, agora, o próprio Coronel! Como explicar isso a Maria de Maria?
"A velha vai ter um treco - e não vai sofrer, vai desta pra melhor num piscar de olhos!"
Pior que este pensamento foi um outro, que doía mais no bolso que na alma:
"E a velha morrendo, morre também o meu acordo com o Coronel. Ele disse que queria ver a velha sofrer. Morrer certamente está fora do acordo."
Antônio não imaginava que, ao invés de assustar a velha, ele é que seria assustado por ela. Nem bem desceu dois degraus pôs imediatamente os olhos não em Maria de Maria de Maria, mas em outra mulher, extremamente bela e jovem, que o aguardava ao pé da escada.
- Quem é você? - perguntou ele, a boca aberta de espanto.
- Não me conhece mais, Coronel?
Coronel, Antônio se lembrou. Ele agora, de uma maneira que não sabia explicar, ele agora era o Coronel. Com bigodes e tudo, pois sentiu na ponta dos dedos.
- Hã...
- A sua Maria, Coronel.
- Você está tão... jovem!
- Do que é que você está falando, meu amor? A velhice está muito longe. De nós dois.
Antônio então, atônito, viu seus braços enlaçarem o corpo esguio da mulher. Quando percebeu que seus lábios se aproximavam dos lábios da velha, ou melhor, da jovem Maria de Maria, fechou os olhos de pavor. Mas o calor do beijo o transportou para o paraíso, e o contato que no começo evitara agora percorria seu corpo como faíscas elétricas.
Levitando de paixão, Antônio se afastou um pouco para recuperar o fôlego e pensar sobre a situação.
"Dane-se o acordo com o Coronel. Eu sou o Coronel!"
Sentindo-se o próprio, Antônio mais uma vez abraçou Maria de Maria, que se entregava sem nenhum protesto. E rolaram os dois pela sala como alucinados, o estalo barulhento dos beijos tendo por testemunhas apenas as paredes que ruborizavam diante de tamanha paixão.
No vai e vem dos corpos, no sobe e desce do amor, Antônio (ou seria o Coronel?), acabou por bater violentamente a cabeça no oratório. A chama vermelha da paixão pouco a pouco foi se apagando até restar apenas um traço escuro e indefinido.
***
- Acorda, homem! - berrou Maria de Maria. - Não pense que só porque rolou escada abaixo vai escapar do nosso passeio matinal. Ah, não!
Antônio voltou lentamente a si, um calombo avermelhado no meio da testa. Rolara da escada até bater com a cabeça na coluna do oratório. E Maria de Maria, a velha cretina, nem para ajudar!
Erguendo-se, recompondo a roupa e os pensamentos, Antônio resolveu pôr um ponto final naquela tortura romana: queria esculachar a velha, humilhá-la até o chão, fazer com que se arrependesse de ter nascido.
Não conseguiu. As faíscas da paixão percorreram seu corpo novamente e foi aí que ele soube: Maria de Maria, velha ou nova, era o seu verdadeiro amor.
_participação de Hemetério
Capítulo V - A verdade
O coronel Mergulhão retorce calmamente o bigode. Confere o aspecto geral no espelho e aprova o uniforme impecável. Com a ponta dos dedos, espana as dragonas salientes e dá por finda a autoinspeção, a tempo de acompanhar a chegada de Maria pelo canto dos olhos. Maria estancara no umbral da porta e observava o marido em silêncio. As malas e o baú do coronel estavam arrumados com rigor militar, como um pequeno exército de servos em prontidão. O coronel sorri para si mesmo e finalmente, volta-se para a esposa, que permanece como que antecipando o luto: o coronel iria partir.
- Ambos sabemos que não há outro remédio, querida. - Disse o coronel, que já se encaminhava para a porta principal da mansão. Era madrugada e tudo dormitava. O motorista do coronel já havia levado as malas para o landau preto, que estacionara momentos antes sem desligar o motor. Maria rememorava os últimos anos, quando as coisas começaram a degringolar: o jogo, as dívidas, as cartas da Justiça, as ameaças veladas pelo telefone. Sobretudo, a indiferença. O coronel há muito que perdera o viço - pelo menos com relação à Maria, pois ainda era fogoso e cheio de trejeitos com desconhecidas. O coronel era galante do portão para a rua.
- Você vai ficar bem, já cuidei de tudo. - Foram suas últimas palavras. Maria não lhe dirijira palavra, seus olhos diziam mais. O motorista fechou a porta e enquanto o vidro subia, Maria pode perceber que dentro do carro, escondida pelas sombras, havia o contorno de uma mulher que fumava. O landau foi embora e Maria de Maria percebeu que suas roupas pretas agora lhe convinham bem, pois desde aquele instante era oficialmente uma viúva.
Antônio retira da gaveta a foto que surrupiara na véspera. Não resta dúvida: o coronel era uma versão mais velha dele próprio. Disposto a confrontar a verdade, desce as escadas para interrogar Maria de uma vez por todas. Passa celerado pelo saguão, chamando a atenção da moça que trabalha na cozinha. Aflita, ela deixa seus afazeres e aguça os ouvidos, percebendo o início de uma ríspida discussão. Definitivamente, Antônio estava fora de si.
Rapidamente, a moça tira seu telefone do avental e tecla a letra c. A voz do outro lado parece adivinhar:
- O que foi? - Disse a voz cavernosa.
A moça só foi capaz de dizer: - Ele sabe.
_participaçnao de Juliana Simões Martins
A teoria
Olhando o seu reflexo no espelho Antonio tenta elaborar através de palavras o pensamento que o inquietava.
- Elementar meu caro Antonio. O Coronel é o seu pai.
Antonio surpreende-se com a própria sagacidade. Tudo se encaixava perfeitamente. Tirando o bigode e a indumentária militar o Coronel era extremamente parecido com o seu próprio reflexo. O perfil, a opulência, os olhos enviesados, até o tom amarelado da foto era o mesmo tom amarelado da pele de Antonio. Tudo começava a fazer sentido. Ou quase...
Maria de Maria, a aranha, estivera mentindo o tempo todo. Era revivera o fantasma do Coronel. Impelido pela necessidade e pelo hábito Antonio da asas a sua imaginação e elabora uma sofisticada teoria...
... Setembro, início da primavera. Era noite, cansada dos sucessivos atrasos para o jantar Maria de Maria decidi seguir o Coronel. Descobre que o seu amado esposo possui uma amante que poderia, dentre outros nomes, chamar-se Vânia. Dois meses depois o Coronel desaparece misteriosamente. Menina ingênua que era, Vânia, ao saber do sumiço de seu amado abandona a frivolidade da vida auxiliada por um vidro de barbitúrico. No enterro é feita a leitura do seu bilhete de despedida, nela a revelação bombástica: Vânia tivera um filho, e a esse dera o nome de Antonio. Atrás de uma beata que chora a morte da pequena está Maria com os olhos estatelados. É natal, e a velha, até então única herdeira, desfruta do luxo nos Alpes Suíços. Olhando a neve que cai suavemente no balcão da sua suíte Maria de Maria decide localizar o bastardinho, apelido carinhoso dedicado a Antonio. Não mede esforços em sua busca e o localiza já rapaz em uma casa noturna. Cogita assassina-lo, mas é verão, e o coração de Maria de Maria se recobre de luxuria, opta por algo mais poético e faz de Antonio um objeto de prazer.
Antonio particularmente gostava dessa teoria, pois ela fazia dele um herdeiro. O problema agora era como comprovar os fatos, já que a única fonte de informações era a própria Maria de Maria, a víbora.
A harpia já o chamava para o passeio, Antonio não resiste, caminha ao seu lado enquanto rumina a amarga novidade. Em meio a passeios e flores, rezas e jantares, olhares dilacerantes e carinhos dissimulados Antonio concebe um plano. Ele iria entrar no jogo da velha.
Para isso desenvolve um comportamento bipolar. Ora se mostrando amável e passivo, ora irritado e neurastênico, reclamava da comida e se recusava a participar das atividades cotidianas, fazia pedidos excêntricos e contrariava Maria de Maria, a inominável. Ela fingia se assustar com o seu comportamento, prometia retaliações, censuras, castigos, ameaçava abandona-lo.... Tudo premeditado, deduzia Antonio.
Naquela mesma semana Antonio recebe um misterioso telefonema. Era uma voz feminina, com uma mensagem enigmática:
- Antonio, se um homem diz que está mentindo. O que ele diz é verdade ou mentira?
Antonio é novamente arrastado ao epicentro da questão. Quem estava mentindo? E quem era aquela mulher?
_participação de Paulo Vicente Alves da Cruz
A ordem das coisas
O silêncio da manhã foi perturbado pelos gritos e pelos murros de Maria na porta do banheiro. O rapaz ignorava os chamados. Passado algum tempo sem que se ouvisse ruído dentro do cômodo, o mancebo abriu a porta. Seu olhar denunciava algo estranho. Antonio convidou a anciã a entrar. A setuagenária apressou-se em perguntar o que acontecia. Antonio apontou para o próprio reflexo no espelho e perguntou: "Não lembra ninguém?". Maria de Maria Mergulhão viu-se diante da necessidade de enfrentar a verdade. O sol mal despontava e a velha já teria que começar o dia com tarefa tão desagradável.
Há quem faça dos anos vividos apenas o período de existência da própria estupidez. Maria não era dessas. A experiência a fizera lidar com as crises com frieza inabalável. Mortes, nascimentos, guerras, verdades... Nada disso desviará a Terra de sua órbita ou interromperá seu giro em torno do próprio eixo. Tal certeza a fez dizer com segurança: "Antonio, estamos atrasados para o passeio. Conversamos no caminho".
O rapaz poderia ter mandado às favas aquela ordem, mas já tinha marcado nas entranhas o hábito de obedecer à velha. Como um cachorrinho obediente, acompanhou Maria no habitual passeio da manhã e ouviu a mulher contar o inimaginável.
O velho Mergulhão era parente de Antônio. Parente próximo. Progenitor. O homem, cujo primeiro nome era Francisco, vivera vinte anos de casamento fiel com Maria de Maria. O temperamento forte era apenas fachada. Dentro de casa, submetia-se ao gênio da mulher que amava. Isso foi até conhecer Juju, estrela do cabaré L'Ilê de la Tentation. Apaixonou-se. Pulou a cerca. Teve um filho. O coronel ocultou até onde pôde a história. Mas ela veio à tona. Maria jurou vingança. Foi tanto o medo da ira da esposa, que o Coronel fugiu deixando uma foto como lembrança e os dizeres como marca: "De quem não consegue mais viver sem teu perdão". Dias depois, o jornal da cidade divulgava a morte do Coronel numa emboscada. A amizade do homem com o dono do diário garantiu a mentira e a liberdade salvadora.
Maria nunca esqueceu a traição nem a promessa de vingança. Iria atrás do rebento do ex-marido e o mataria. Era o que faria na noite em que conheceu Antonio no Cabaré. Mas o encontro, embalado a mojitos e antiinflamatórios, foi agradável e jogou por terra as más intenções. Todas as excentricidades e humilhações infligidas ao rapaz foram apenas resquícios do desejo de vingança. Contudo, o amava. Mas ao ser novamente apunhalada com a tentativa de fuga de mais um homem de sua vida, Maria decidiu não deixar barato. A carta do coronel entregue a Antonio fora uma farsa, mas o faria conhecer a verdade, pior das punições.
Mortes, nascimentos, guerras, verdades... Nada disso desviará a Terra de sua órbita ou interromperá seu giro em torno do próprio eixo. Entretanto, mudam perigosamente a ordem das coisas. Era o que descobririam juntos Antonio e Maria.
_participação de Rodolfo Viana
A velha debaixo da cama
- Como estão floridas, minhas meninas! - cavaqueia Maria de Maria, em contentamento inverossímil, durante diálogo entre sua decrépita figura e as plantas - segundo a velha, elas respondem ao proseado com abanos dos galhos. O tratamento dispensado aos pés da fruta é sandeu demais para Antonio, homem já tão arrufado com o retrato e o reflexo no espelho pela manhã. O jovem arreda-se de perto entre assovios de I just want to make love to you. Abstrai.
De enternecida ante um minúsculo broto recém-nascido, a mulher passa a se debulhar em lamúrias a uma das romãzeiras: aponta uma dor nas costas. Coisa da idade - Eu ando velha, doces meninas.
Ao queixume da viúva de marido vivo, Antonio se compadece. Por pouco tempo, na verdade: logo se recompõe, e imagina que Mergulhão zanza pelo mundo, buliçoso que só. Como promessa é dívida - e palavra de coronel deve ter peso -, o jovem mancebo trata de matutar uma forma de irritar a velha. As costas doídas de Maria são-lhe inspiração.
À noite, quando Maria já rumara ao seu sacrossanto bingo beneficente das quartas do Rotary, Antonio novamente invade a "casa grande", onde se encastela Maria. Em passos felinos, o amásio volta ao mesmo quarto de horas atrás, quando encontrou aquela fotografia que tanto lhe estupefez. Espreita a empregada, que se mostra entretida com o capítulo daquela novela do Maneco.
Em posse de chaves de fenda, desparafusa a cama onde dorme sua ensandecida concubina. Desfaz o estrado e as armações. Arremessa cada uma das tábuas da janela, colina abaixo, com o devido cuidado para não despertar a empregada de sua letargia.
Terminado o serviço, o quarto de Maria se resume a um guarda-roupa. "Se achas que conhece a dor, Maria, sentirás a dureza do chão na carne", pensa Antonio enquanto limpa da testa o suor. Figura a felicidade em sorriso acanhado, de lábios cerrados.
A mão de Antonio coça: curiosidade em varrer o armário em busca de mais fragmentos do coronel Mergulhão. Abre as portas do móvel e refestela-se: gavetas são abertas, bolsos são checados, pacotes são revirados. Não encontra nem sinal, nem sopro, nem nada. Quando fecha as portas ao guarda-roupa, o chacoalhar faz com que despenque de cima da peça um segundo retrato. Antonio olha, e vê que há dois rapazes idênticos na fotografia. Ambos fardados, ambos com aquele buço a forcejar bigode e idade. O coronel e seu gêmeo, certamente. O rosto no espelho pela manhã poderia ser do ex-defunto, bem como de seu irmão.
Ouve a música de encerramento da novela. Logo a empregada vem. Antonio não tem tempo para ficar confuso ou sopesar a descoberta. Ele apenas corre e cuida em sumir com qualquer vestígio de sua passagem pelo cômodo. Parte dali com duas certezas: uma delas é que amanhã, Antonio buscará saber mais sobre o coronel; a outra é que Maria acordará com dores profundas no ciático. Quando apóia mãos e um pé apoiado para o salto da janela, Lisbela, a empregada, o surpreende.
_participação de W. Surtan
Assombro
A lembrança de alguém que nunca tinha visto deixou Antônio tão apreensivo que o levou a mirar-se de novo no espelho, apalpar o rosto e a rever a foto até que, de súbito, um pensamento fortuito abalou seu estado de espírito causando-lhe calafrio e forte emoção no peito. Respirou fundo sem acreditar no que acabara de pensar. Se havia resolvido ficar, agora, mais do que nunca, precisava esclarecer dúvidas que começavam a preocupá-lo. Tão logo se refez do mal-estar, decidiu viajar o quanto antes para Três Cruzes, cidade de onde a carta fora enviada. A dificuldade era fazer a megera crer na necessidade dele de se ausentar por uns dias. Inventou que tinha negócios a resolver. No início, Maria de Maria não concordou, mas tanto ele insistiu que acabou convencendo-a. Antes que ela mudasse de idéia, Antônio - que já tinha a mala pronta e a foto guardada no bolso, simulou um beijo na face da concubina e partiu para a rodoviária.
Durante a viagem ocupou-se com dúvidas para as quais buscava respostas. Quem é o militar na foto? Que motivo tem Maria de Maria para escondê-la? É ela a pessoa sem cujo perdão o militar não podia viver? Se foto e dedicatória forem do coronel, qual o motivo real para ter simulado a própria morte? Quem é o informante? Por que a carta em tom de deboche? Por que o coronel e eu não podemos nos ver? Reconhecerei o militar numa foto de mais de 30 anos? Ânsia e cisma refletiam-se na gastura que lhe afligia as pernas.
O som do freio hidráulico do ônibus desviou Antônio de suas lucubrações. Levantou-se, pegou a mala e confirmou com o motorista se a cidade era mesmo Três Cruzes. Ao sair do ônibus, entrou no primeiro bar e pediu um traçado. Reforçou sua disposição com mais duas doses. Recuperada a calma, indagou do rapaz que o servira onde ficava o endereço que constava da carta. Surpreendeu-se quando o balconista e os freqüentadores do bar disseram não conhecer nenhum coronel Mergulhão e que o endereço é da residência da família Cambaxirra.
Como a casa fica fora do perímetro urbano, Antônio alugou um táxi e rumou para o local. Em conversa com o motorista, ficou sabendo que também ele nunca ouvira falar no coronel Mergulhão e que o proprietário da casa para onde se dirigem chama-se Sílvio Cambaxirra, capitão reformado do exército e herdeiro da mais conceituada fábrica de laticínios da região. A revelação deixou-o atônito. Após pensar por alguns minutos, suspirou fundo e decidiu seguir em frente.
Ao descer do veículo, impressionou-se com a bela mansão ao fundo de um exuberante jardim florido. Encorajado pelo efeito da bebida, tocou a sineta presa ao portão de grades de ferro. De trás de um arbusto surgiu um homem franzino de idade avançada que foi em sua direção sentado numa cadeira de rodas conduzida por uma jovem. Aproximou-se de Antônio e ao vê-lo de perto não conteve um ar de espanto que quase o fez erguer-se da cadeira. Agarrado à grade do portão e segurando a foto numa das mãos, Antônio exibia no rosto pálido o mesmo ar de espanto.


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