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O xerife de Ramos

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Com mais da metade do corpo balançando para fora da janela do escritório, Hudson Magalhães gesticula e assobia incessantemente. Volta e meia, solta um urro que alguém mais desavisado poderia confundir com o primeiro trovão da chuva que não pára de cair. São 10h30 de uma segunda-feira em Ramos, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, e Magalhães precisa convencer as quase trezentas crianças que, descalças, se amontoam no pátio molhado à sua frente, a formar uma fila indiana. Uma só.

"Ó! Presta atenção! Vamos ordenar isso aqui. Primeiro, todas as meninas. Depois, os menores. Por último, os marmanjos. E nada de empurra-empurra senão vai ficar todo mundo sem lanche".

A voz de Magalhães é rouca, voz de cascalho, áspera, boa para impor silêncio. A fila se materializa em segundos. "É isso aí, pessoal. Agora vamos lanchar!" Com uma das mãos, o moreno alto, de corrente no pescoço, calça jeans e cabelos levemente grisalhos pega um sanduíche de pão com queijo e um copo de guaraná Guaramar. Entrega a merenda à primeira menina da fila. A menorzinha. Quando vê que, lá fora, a meninada pula de alegria com o cardápio do dia, abre um sorriso largo, desses de comercial de pasta de dentes. As coisas estão andando bem. Trata-se do primeiro lanche do primeiro dia da colônia de férias do Parque da Vizinhança de Ramos.

Conhecido como Piscinão de Ramos, o parque se estende por 106 mil metros quadrados e ocupa uma área doze vezes maior do que a do gramado do Maracanã. Dentro dele, um lago artificial capaz de armazenar 30 milhões de litros de água salgada se espreme entre a poluída baía de Guanabara e a tumultuada avenida Brasil. A cada fim de semana de sol, faz as vezes de praia para cerca de 40 mil pessoas. Nas suas redondezas, a informalidade urbana brasileira fez surgir ruas estreitas e edificações simples que já reúnem mais de 10 mil habitantes. Há quem diga que a população no entorno do Piscinão duplicou depois que o local serviu de palco para uma novela das oito, mas nenhuma estatística comprova o fato.

Desde 17 de agosto do ano passado, o Parque da Vizinhança de Ramos está sob a responsabilidade do ex-jogador e ex-técnico de futebol carioca Hudson Magalhães. Sentado numa pequena sala refrigerada de paredes alaranjadas, ele ocupa a cadeira de gerente geral e conta, enfático, que nada acontece por ali sem sua assinatura ou seu carimbo. Para provar que sempre está à frente dos eventos do parque e que não deixou de dar as caras por ali um dia sequer desde que foi empossado, o xerife do Piscinão saca do bolso um moderno celular e exibe mais de duzentas fotografias: noite de revéillon, fogos de artifício, mesas de plástico cravadas na areia, ceia em tapewares e show de Dicró. Em todas elas, o xerife está de olho no seu latifúndio.

Enquanto exibe as provas da sua ubiquidade, Magalhães não tira os olhos das crianças que lancham lá fora. "Ó, pessoal! Os sacos de lixo da Comlurb estão bem aí! Nada de deixar copinho de guaraná e saquinho de sanduíche pelo chão!" Perto da janela, na maciota, o baixinho Luan da Silva, de 11 anos, se agacha e recolhe uma sujeirinha que cogitara deixar por ali mesmo. Magalhães dá o flagrante.

"Esse daí é meu pipeiro. Vem cá, meu pipeiro. Deixa eu te dizer uma coisa. Se eu te pegar soltando pipa, vou te vetar da colônia de férias, tá certo? Eu tô de olho em você." Com um sorriso amarelo, Luan se afasta prometendo solenemente ficar longe das linhas com cerol.

Com braço forte, Hudson Magalhães atingiu metas que considerava impossíveis quando aterrissou no Piscinão. Primeiro, expulsou barraquinhas ilegais de comida. Segundo, cadastrou os quiosqueiros de direito. Agora, pretende obrigá-los a circular pelo parque com crachás à mostra. 

Em cinco meses de gerência, Magalhães também travou amizade com o responsável pelo posto de coleta de lixo da região e estabeleceu com ele que o horário de limpeza da área deve começar diariamente antes das 6 da manhã. "Assim, quem chega à piscina cedinho não é incomodado e encontra tudo bonito, limpinho. É outra coisa! Fico até feliz de ver."

Às vezes, no entanto, as rédeas curtas do ex-lateral direito do Botafogo, do Volta Redonda, do Marília, do América, do CSA Alagoas, do Friburguense, do Atlético Goianense e do Goiás o colocam em situações complicadas. Em dezembro, ele se sentiu obrigado a botar para correr das areias do parque um deputado estadual que se apresentou por ali com um Papai Noel a tiracolo.

"Quando isso aqui era atribuição do estado e estava imundo, ninguém vinha. Agora que está com a prefeitura e que nós demos um duro danado para colocar em ordem, todo mundo quer tirar proveito eleitoral. Não deixo. Não deixei." Em parte, a coibição foi zelo de gerente; em parte, foi fidelidade a quem o pôs ali, apadrinhados de Cesar Maia e de seu filho, Rodrigo Maia. Favor político se devolve em espécie. Cabalar votos na sua jurisdição, só se não ferir os interesses dos seus bemfeitores. "O Papai Noel do deputado, pobre coitado, era magro que só. Foi embora daqui todo cabisbaixo, levando o saco nas costas. Parecia até uma codorninha", ri-se Magalhães.

Num tour pelo Piscinão, Magalhães dá de cara com Lelei, um jovem de 28 anos de idade que teve a má idéia de ficar até as 2h da manhã num baile da vizinhança. Lelei tem alguns problemas de locomoção e muitos de dicção. Magalhães olha para o relógio, que marca 11h30, e dispara: "Lelei, que horas são essas? Você quer entrar na colônia de férias agora? Sem chances! O quê? Baile? E bebendo? Como é que você quer ser atleta assim? Que furo, cara! Não sei se vou dar a camisa para você vir à colônia amanhã não". O jovem pede desculpas, implora misericórdia e, finalmente, amolece o coração do xerife. "Ó! Só uma coisa: sabe essa hora que você perdeu hoje? Encontra amanhã sem falta e chega aqui às 8h vestindo o uniforme, tá certo?" Aliviado com a graça recebida, Lelei faz que sim com a cabeça e segue seu caminho.

O passeio continua sob uma chuva que não dá trégua, e Magalhães resolve mostrar por que adotou um estilo de administração à base de cabresto. Apontando para os banheiros do parque, conta que já mandou trocar os três sanitários quatro vezes. Foram nove vasos quebrados em cinco meses só na ala feminina. "É demais, não é não?" Os banheiros passam por uma reforma e vigias serão contratados. Quem quiser privacidade, que vá estragar outros banheiros.

O almoço é no melhor self-service de Ramos, o restaurante do Vavá. Sentado numa mesa de metal junto com três companheiros de equipe, Magalhães mistura macarrão com feijão e lingüiça. Toma dois ou três copos de refrigerante e, em 20 minutos, já está pronto para voltar ao escritório. Pede a notinha do dia: R$ 11,80 pela comida dos quatro. Risonho, solicita que a senhora do caixa acrescente mais esse valor na sua conta e promete voltar para pagar mais tarde. Ao ser informado de que o almoço já havia sido quitado pela repórter, se desespera. Dá um soco no ar, acompanhado de um grito cujo volume levaria qualquer agulha para o vermelho. "Ó, Vavá! Ó, Vavá! Que história é essa aqui?! Devolve esse dinheiro agora! Pode devolver já!" Vavá, nervoso, se livra da pilha de pratos sujos que carregava e corre para pegar o dinheiro no caixa. Quando fala alto, Hudson Magalhães faz a terra tremer ao seu redor.

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