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A vida em três linhas

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Aqui, a versão em áudio.

Não bastassem as lâmpadas elétricas de Thomas Edison e o metrô, a passagem do século XIX para o XX viu também proliferar na Europa o atentado político. De preferência, a bomba: assim morreu o tsar Alexandre II, em 1881. Por vezes, a faca, instrumento da morte do presidente francês Sadi Carnot, em 1894. Se não, a tiro, método escolhido para dar cabo do arquiduque Francisco Ferdinando, em 1914. Numa dessas ocasiões, uma bomba explodiu no restaurante do Hotel Foyot, em frente ao Palácio de Luxemburgo, sede do Senado francês.

Na falta de provas mais tangíveis, a polícia foi atrás dos suspeitos de sempre e encenou um processo-espetáculo contra um colorido grupo de trinta anarquistas. Afinal, um deles fora visto conversando com um militante atrás de uma lâmpada a gás. Diante de tal evidência incriminatória, o acusado perguntou durante o julgamento: "Mas, senhor presidente, qual lado de uma lâmpada é o lado de trás?"

O autor da pergunta chamava-se Félix Fénéon. Nascera em Turim, em 1861, passara a infância na Borgonha e, por treze anos, fora um funcionário modelar do Ministério da Guerra, em Paris. Ao mesmo tempo, colaborava com diversas revistas de agitação estética e política, freqüentava os saraus de Mallarmé, publicava poemas de Jules Laforgue e Lautréamont e, por fim, foi o primeiro editor das Iluminações, de Rimbaud.

Ainda que tenha sido inocentado, o processo de 1894 pôs fim à sua vida dupla. Fénéon virou jornalista, primeiro como colaborador, e logo em seguida diretor, da Revue Blanche, a mais importante na vida artística parisiense. Nela, Fénéon publicou Marcel Proust e Alfred Jarry, Marcel Schwob e Paul Claudel. André Gide cuidava da coluna de livros e Claude Debussy respondia pela crítica musical. Com o fechamento da Revue Blanche, em 1903, Fénéon foi ser repórter do Le Figaro e, em 1906, redator do jornal Le Matin.

Uma de suas atribuições era cuidar da seção de faits divers - a crônica miúda, quase sempre libidinosa ou violenta, do cotidiano francês. Trabalho pouco nobre, relegado aos menos graduados, ao qual Fénéon se dedicou com afinco, colhendo nas cartas dos leitores e nos despachos das agências noticiosas o material para as suas Nouvelles en Trois Lignes. Ao longo de 1906, publicou 1 220 dessas notas - sempre com a mesma precisão lapidar e desconcertante, e sempre sem assinatura. A autoria jamais seria conhecida não fosse a iniciativa de Camille Plateel, companheira de Fénéon, que as reuniu e conservou num álbum de recortes.

A partir de 1908, ele passou a trabalhar na galeria Bernheim-Jeune e, durante quatro anos, dirigiu as Éditions de la Sirène. Em 1924, sentindo-se, como disse, "maduro para o ócio", Fénéon saiu da galeria e praticamente deixou de escrever. Morreu em fevereiro de 1944, sob a ocupação. Na mesa-de-cabeceira de seu leito de morte, havia um exemplar de A Jovem Parca, de Paul Valéry, com as aliterações sublinhadas.

Reunidas, suas notas para a seção de faits divers formam uma "Comédia Humana" em parcelas diárias. Elas fecham um círculo de intercâmbio entre o jornal e o romance que se iniciara no século anterior, quando Balzac introduziu jornalistas no elenco de seus romances e Flaubert foi à seção de faits divers para colher o argumento de Madame Bovary. O vaivém entre jornalismo e literatura se deixa ver tanto no estilo, que flerta a um só tempo com o caos cotidiano e com o humor glacial de Bouvard e Pécuchet, como na ambigüidade do título, que pode significar "notícias em três linhas" ou "contos em três linhas"- - e que, talvez, valesse a pena traduzir por um falso cognato de gosto melodramático e televisivo: Novelas em Três Linhas.


CONSEGUIU FUGIR INCÓLUME, MAS JÁ SEMINUA 

FÉLIX FÉNÉON

O sr. Abel Bonnard, de Villeneuve-Saint-Georges,
que jogava sinuca, furou o olho esquerdo ao cair sobre o próprio instrumento roliço.

O sr. Colombe, de Rouen, matou-se ontem com um tiro. A mulher tinha lhe disparado três vezes, em março, e o divórcio estava próximo.

Louis Lamarre não tinha trabalho nem moradia,
mas tinha alguns trocados. Numa mercearia de
Saint-Denis, comprou um litro de querosene e o bebeu.

Em Clichy, um rapaz elegante se jogou embaixo
de um fiacre de rodas emborrachadas, e depois, ileso, embaixo de um caminhão, que o triturou.

"Se o meu candidato perder, eu me mato",
havia declarado o sr. Bellavoine, de
Fresquienne (Sena-Inferior). Ele se matou.

Bernard, em Essoyes, 25 anos, espancou o
sr. Dufert, que tem 89, e apunhalou sua mulher.
Estava com ciúmes.

Antes de pular no rio Sena, onde morreu,
o sr. Doucrain escreveu na caderneta:
"Perdoe, papai. Gosto de você."

Maus perdedores, F. e M. Altebo, em Llagone,
mataram (cassetete e navalha) o sr. Filian,
talvez trapaceiro.

O sr. Scheid, de Dunquerque, deu três
tiros na mulher. Como errasse todos, mirou
na sogra: foi tiro e queda.

Ao dar com o filho Hyacinthe, 69 anos, enforcado,
a sra. Ranvier, de Bussy-Saint-Georges, ficou tão deprimida que não conseguiu cortar a corda.

O aduaneiro viúvo Ackermann, de
Fort-Philippe, que iria se casar hoje,
enforcou-se sobre o túmulo da mulher.

Abandonada por Delorce, Cécile Ward negou-se a
aceitá-lo de volta, a não ser casando. Ele a
apunhalou, tendo julgado a cláusula escandalosa.

Derrotando o campeão francês, que só conseguiu dançar quatorze horas, o sr. Guattero tornou-se, à meia-noite e vinte e sete, o vencedor do concurso de valsa.

Nas redondezas de Noisy-sous-École, caiu morto
o sr. Louis Delillieau, 70 anos: insolação.
Seu cão Fiel rapidamente comeu-lhe a cabeça.

Uma européia da Tunísia foi raptada, em
Medjez, por dois árabes devassos. Conseguiu
fugir ainda incólume, mas já seminua.

Catherine Rosello, de Toulon, mãe de quatro
filhos, quis se desviar de um trem de carga.
Um trem de passageiros atropelou-a.

Num hotel de Lille, o sr. H. Hallynch, de Ypres, enforcou-se por motivos que, segundo carta deixada por ele, serão conhecidos em breve.

As pulgas do domador Giocolino vinham assediando o sr. Sauvin, seu vizinho. Este tentou apoderar-se da caixa do outro e levou dois tiros.

Entre árabes de Douaouda: um casal capturou
um galanteador afoito demais e o mutilou,
anulando para sempre a sua concupiscência.

Depois de cair de um trem em alta velocidade, Marie Steckel, de Saint-Germain, 3 anos, foi encontrada brincando com as pedrinhas da via férrea.

Por não julgar sua filha (19 anos) suficientemente austera, o relojoeiro Jallat, de Saint-Étienne, a matou. É bem verdade que lhe restam onze filhos. (Havas)

Praia de Sainte-Anne (Finisterra), dois banhistas
se afogavam. Acorreu um banhista. De modo que o
sr. Etienne teve que salvar três pessoas.

Um vendedor de bijuterias do 3º arrondissement
(nome ignorado) e sua mulher pescavam num barco,
em Mézy. Ela caiu. Ele mergulhou. Sumiram.

O lionês Frachet, mordido por um carlindogue
e tido como curado (Instituto Pasteur), tentou
morder a mulher e está com raiva.

Como seu trem parasse, a sra. Parlucy, de
Nanterre, abriu a porta e se inclinou. Passou
um expresso e quebrou a cabeça e a porta.

Anna Méret, de Brest, quis salvar a filha, 5 anos,
sobre a qual vinha chegando um trem. Atingidas, morreu a mãe, a menina está morrendo.

Marido indelicado, Raoul G..., de Ivry, voltou para
casa sem avisar e, com a faca, furou a esposa,
que brincava nos braços de um amigo.

O mendigo septuagenário Verniot, de Clichy,
morreu de fome. Seu colchão encerrava 2 mil francos. Mas não se deve generalizar.

Ateado pelo filho de 5 anos, um foguete de sinalização ferroviária explodiu sob as saias da sra. Roger, em Clichy: o estrago foi considerável.

Não é pela janela que se entra, à noite, na
casa de Yolande de Montaley, em Meudon: ela
gritou e, portanto, só lhe levaram o porta-jóias.

Conta a sra. Olympe Fraisse que, no bosque
de Bordezac, um fauno submeteu os seus 66 anos
a maravilhosos ultrajes.

Encapuzada com o vestido, pois chovia a cântaros,
a sra. Rossy, de Levallois, não escutou chegar o
fiacre elétrico que a atropelou.

"Pois bem, então não atrapalho mais!", disse
o sr. Sormet, de Vincennes, à mulher e ao amante
dela, e estourou os miolos.

O 104 (é um dos nomes do lutador Nassé) flertava
em Versalhes com uma frágil atriz. A legítima sra. 104 o castigou: uma facada.

O 515 atropelou, na passagem de nível de
Monthéard (Sarthe), a sra. Dutertre. Acidente,
supõe-se, embora ela fosse muito infeliz.

O amor. Em Mirecourt, Colas, tecelão, meteu
uma bala na cabeça da srta. Fleckenger e
tratou a si mesmo com igual rigor.

Ao voltar para casa, o lavrador Vauthier,
de Chapelle-au-Bois (Vosges), deu com a mulher
bêbada e a estrangulou virtuosamente.

Pela quinta vez, Cuvillier, peixeiro
em Marines, se envenenou e, dessa vez,
foi definitivo.

"Ai", gritou um esperto que comia ostras, "uma pérola!" Um vizinho de mesa comprou-a por 100 francos. Preço: 30 cêntimos no bazar da Maisons-Laffitte.

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